Terceiro teste de coronavírus do presidente Bolsonaro dá positivo

O suposto longo tempo de infecção pode causar surpresa, mas o exame não indica que o presidente ainda está doente

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Duas semanas após anunciar que estava infectado pelo novo coronavírus, o terceiro teste do presidente Jair Bolsonaro continua apontando resultado positivo para a covid-19. “O presidente Jair Bolsonaro segue em boa evolução de saúde, sendo acompanhado pela equipe médica da Presidência da República. O teste realizado pelo presidente no dia de ontem (21), apresentou resultado positivo”, informa nota emitida pela Secretaria de Comunicação do governo.

O suposto longo tempo de infecção pode causar surpresa, mas o exame não indica que o presidente ainda está doente. “Uma minoria dos pacientes apresenta esse teste positivo até cinco semanas depois do diagnóstico inicial, mas isso não significa que o vírus está ativo ou que a pessoa ainda o transmita”, explica Evaldo Stanislau, médico infectologista doHC-FMUSP (Hospital das Clínicas da USP) e membro da diretoria da SPI (Sociedade Paulista de Infectologia).

“O teste RT-PCR é capaz de identificar pequenos resquícios virais, como se fosse uma ‘sujeira’ do vírus, mas não ele inteiro, como seria necessário para manter o quadro ativo”, complementa.

De acordo com o médico, o indício do vírus deve ter aparecido após vários ciclos do exame. “Em uma analogia simples, o teste é como uma máquina de fazer algodão doce. Se há muito açúcar (no caso, carga viral), você já vê resultados logo que começa a rodar o palito. No caso de alguém que já tem o diagnóstico há duas semanas, é provável que tenha detectado lá pelo trigésimo ciclo.”

Stanislau explica, ainda, que em estudos, quando materiais desse grupo de pacientes foram levados a laboratório e testados em cultura viral, método que faz o vírus crescer, o resultado se tornou negativo. “Isso mostra que a ação do vírus não está mais acontecendo”.

Tempo de ação do vírus

O infectologista aponta que o valor dos exames, seja o sorológico ou o molecular (RT-PCR), para determinar se o paciente ainda não está curado ou transmitindo o vírus, é relativo. “O principal critério, de acordo com instituições como a OMS (Organização Mundial de Saúde) e o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças) dos EUA, é a cronologia e a evolução clinica do paciente.”

“Na comunidade médica, acredita-se que quando o paciente é infectado, ele transmite por cerca de três dias antes de apresentar os sintomas. O pico da contagiosidade aconteceria logo que os sintomas aparecem e após oito ou nove dias, já não transmitiria o vírus. Por isso, consideramos que com mais de 10 dias de evolução clínica, há 3 dias sem febre e estável, o paciente, em teoria, não precisaria mais de exames e provavelmente já não transmite a doença”, esclarece.

Para manter a segurança, os médicos consideram o período de incubação do vírus por até 14 dias. “É uma margem mais protegida, mas sabemos, por estudos, que pacientes deixam de transmitir mesmo antes de completar as duas semanas”, aponta Stanislau.

“Exame pode causar alarde desnecessário”

Para Stanislau, a divulgação de um terceiro teste positivo do presidente não é benéfica. “Acende uma polêmica que pode reforçar condutas que penalizam tanto o trabalhador, já que há empresas que pedem testes constantes para permitir a volta ao trabalho, e a pessoa já pode estar curada”.

O assunto, segundo o especialista, também pode reforçar a sensação de incerteza e causar ansiedade. “Só continuamos pedindo os testes em situações muito específicas, como para pacientes imunodeprimidos, transplantados e oncológicos, para definir a alta com segurança extra.”

Como funciona o teste RT-PCR

A primeira ação do RT-PCR é o uso da enzima transcriptase reversa para transformar o RNA do vírus em DNA complementar, também chamado de cDNA. O RNA é produzido a partir de uma molécula de DNA e apresenta informações com as quais é possível coordenar a produção das proteínas. Depois de ter sido transformado, são inseridos dois primers, que é uma fita simples de DNA, para auxiliar a amplificação do material genético em 100 milhões de vezes.

Com uma sonda complementar ao vírus procurado é possível observar se o conteúdo molecular é correspondente ao do agente infeccioso que os pesquisadores estão investigando.