Teatro Municipal

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O período da construção da Nova Araraquara, entre os anos 10 e final dos 20 foi muito rico

A Araraquara do início do século 20 desejava ardentemente sepultar a cidade dos últimos anos do século anterior. Segundo discursou anos depois Bento de Abreu Sampaio Vidal, a cidade “…havia sofrido durante longos anos os horrores da lucta política local…”. Como se sabe, os conflitos políticos e familiares desaguaram na tragédia de um linchamento que acabou por marcar o nome da cidade durante muitos anos e que, por isso, passou a ser chamada em todo o país, de “Linchaquara”.

Era urgente que tudo mudasse. Era imperativo construir uma nova cidade. Uma cidade arborizada, que tivesse belas praças, ruas bem cuidadas, boas escolas, hospitais e arte. Uma cidade que fosse forte economicamente, politicamente e servisse de modelo para as outras.

Os homens ilustres se uniram, traçaram planos, se cotizaram e começaram, carinhosa e decididamente, a trabalhar a construção do sonho. O trabalho, efetivamente, começou com o Sr. Major Pio Corrêa de Almeida Moraes, Prefeito de Araraquara entre os anos de 1906 e 1907. Mas foi a partir de 15 de janeiro de 1908, quando assumiu o Sr. Américo Danielli (1908-1910), que os homens que planejaram a nova cidade colocaram, definitivamente, o plano em prática. Nascia a Nova Araraquara.

A urbanização

Qualquer urbanização tem dois aspectos: o de construir uma nova cidade, como foi feito em Brasília, por exemplo, ou o de remodelar uma cidade já existente. Este é o caso de Araraquara, como foi o de Paris.

E a influencia francesa no Brasil era grande no período em que os Srs. Bento de Abreu, Carlos Batista Magalhães, Major Dario Alves de Carvalho e seus companheiros começavam a construir a nova cidade. Assim, quando o Sr. Dario assumiu a Prefeitura no ano de 1910 o exemplo de urbanização da capital francesa foi amplamente utilizado na construção dos prédios, praças e ruas na região central de Araraquara.

Paris, uma velha cidade, remodelou-se em três etapas. A primeira foi com Napoleão Bonaparte, que abriu fora dos muros a Praça da Estrela com o Arco do Triunfo ao centro, da qual partem doze avenidas que formam a Étoile, sendo a mais importante delas, a dos Champs Elisées, que liga o Arco do Triunfo ao Jardim das Tullerias.

A segunda etapa foi com o Barão Georges Eugène Haussmann, Prefeito de Paris entre 1853 e 1870, que era um homem que enxergava a cidade como uma obra de arte e, usando avançados conceitos arquitetônicos para a época, transformou a capital francesa, construindo muitos dos prédios que representam, até os dias de hoje, o que de mais belo há na Europa. A terceira, e última etapa, foram à construção do Metrô. No caso de Araraquara, o período do Barão de Haussmann foi a principal inspiração.

Teatro Municipal de São Paulo

Até o início dos anos 10, São Paulo não contava com uma casa de espetáculos a altura da grande cidade que já começava a se formar. Antes da virada do século o melhor e mais tradicional teatro da capital era o “São José”, que se localizava exatamente onde hoje é a Catedral da Sé e tinha diante de si o “Largo do Teatro”, hoje Praça da Sé.

O São José, no entanto, foi consumido por um incêndio no ano de 1898. A Prefeitura de São Paulo, então, resolveu construir um novo teatro na esquina da Rua Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá, e o denominou, pela tradição do anterior, “São José”. Mas a sina prosseguiu, e o “Novo São José” também foi devorado pelas chamas.

Algo tinha que ser feito, e algo grande. Contratou-se então a empresa de arquitetura de Francisco de Paula Ramos de Azevedo, e o engenheiro-arquiteto Sr. Domício Rossi foi o homem responsável pela construção do Teatro Municipal de São Paulo.

A obra custou cerca de 3 mil contos de reis e o Teatro foi inaugurado, com pompas, em 1911. Lá, assistindo a tudo isso de perto, o “araraquarense” Bento de Abreu Sampaio Vidal. Estava resolvido. Araraquara ganharia um teatro.

Teatro Municipal de Araraquara

Quando o Sr. Bento de Abreu chegou à cidade pregando a idéia da construção de um grande teatro em Araraquara o entusiasmo foi imediato. Mangas arregaçaram-se e começaram os planos. Antes, porém, deviam criar uma empresa e integralizar capital.

Não se perdeu tempo e, nem bem a notícia da inauguração do Teatro Municipal de São Paulo estava bem digerida, ainda no ano de 1911, os lideres araraquarenses se organizaram e criaram uma Sociedade Anônima para a construção da nossa Casa de Espetáculos.

Em 15 de novembro daquele ano, na antiga sede do Clube Araraquarense, realizou-se a Assembleia Geral dos signatários do acordo para a construção do Teatro Municipal de Araraquara. Na ocasião, foi discutido e aprovado o projeto dos estatutos que, na quinta-feira anterior, já haviam sido lidos perante a Comissão Incorporadora da “Sociedade Anonyma Teatro Municipal”.

A reunião foi um sucesso e em 3 de dezembro de 1911 foi realizada a Assembléia de Constituição da S.A que teve o Sr. Bento de Abreu Sampaio Vidal como Presidente. Em seguida, a S.A encomendou o projeto da obra junto a empresa do Sr. Ramos de Azevedo, a mesma que fora responsável pela construção do Teatro de São Paulo. A diferença é que aqui, o arquiteto responsável foi o Sr. Alexandre de Albuquerque.

Teatro e Clube

O Teatro Municipal de Araraquara foi construído em tempo recorde. Em 1915, pouco mais de três anos depois de iniciadas as obras, ele já estava praticamente pronto e era inaugurado. Localizado onde hoje está o prédio da Prefeitura Municipal, o Teatro tinha diante de si a Esplanada das Rosas, uma praça que já existia, mas que foi totalmente remodelada segundo os preceitos parisienses.

Pouco tempo depois, ainda seguindo o projeto urbanístico inspirado nos conceitos franceses, o Teatro passou a ter, a seu lado, o prédio do Clube Araraquarense e, completando o conjunto, na esquina, o Hotel Municipal.

Construído no estilo Mourisco, o Teatro de Araraquara tinha as mesmas formas arquitetônicas do prédio da Ópera Garniere, de Paris, construída na época do Barão de Hausmann. Sua iluminação, pela quantidade de lâmpadas, beleza do material e sua distribuição, era considerada deslumbrante.

Os lustres eram riquíssimos. O mobiliário, com tapeçarias e cenários importados, era distribuído entre 22 camarins, dois salões para coristas, gabinetes e jardins. Contava ainda com grades, bar, gabinetes, salões, um assoalho móvel acionado por através de um sistema hidráulico localizado em seu porão, e ventiladores elétricos, que formavam um conjunto magnífico.

Quase no final de sua construção os débitos restantes assustaram os acionistas e pensou-se em entregá-lo a Prefeitura por essa razão. Mas a cidade também não tinha dinheiro. Então o Sr. Bento de Abreu, sempre ele, resolveu a questão: bancou todas as dívidas de seu próprio bolso, concluiu o Teatro e entregou-o a cidade com a condição de a Prefeitura concluir, as suas próprias custas, o prédio do Clube Araraquarense.

O negócio era excelente para o município. E assim, de uma só tacada, Araraquara ganhou dois belos presentes. O Teatro Municipal, onde não gastou um só centavo de dinheiro público e, mais tarde, o prédio do Clube que, ao que parece, o atual Prefeito parece estar negociando para o Município.

A Belle Époque

A inauguração do Teatro de Araraquara, em 1915, contou com a apresentação da atriz Clara Vaz, juntamente com uma Cia. Francesa, vinda especialmente de Paris para a ocasião. Consta que, naquele dia, o centro de Araraquara ficou completamente abarrotado de gente, carros e charretes, com a cidade recebendo, inclusive, a visita de importantes autoridades da região.

Foi uma confusão. Deve ter sido o 1º problema de transito que Araraquara teve. Dentro do Teatro, nos intervalos, os homens passeavam pelas salas, gabinetes e jardins de cartolas na cabeça, luvas e alguns, orgulhosos, de claques. Os claques eram chapéus de molas londrinos. Tinham uma espécie de armação de guarda chuva, que quando tirado da cabeça podia ser amassado, achatando-se como um prato e, na dobra do achatamento, os homens podiam prender uma das luvas, ficando com a outra mão vestida, o que era muito elegante.

Alguns o traziam de baixo do braço, tudo como em Londres ou Paris. As mulheres, por sua vez, desfilavam com figurinos comprados na capital francesa, na “Rue de La Paix”, um dos locais mais “chics” do mundo na época.

Algumas famílias araraquarenses do período, em razão da força do café, viajavam, ao menos uma vez por ano para a França. Os tecidos eram franceses: Cetim Liberty, bordados com “pailletés”, lantejoulas, vidrinhos cintilantes, gaze “chiffon” e outros. Usavam-se decotes razoáveis, mas comportados. A Belle Époque araraquarense chegou com força e glamour com a inauguração do Teatro Municipal.