Paulo Martelli e Geraldo Vespar: Músico resgata do anonimato um dos mais importantes nomes da MPB e Bossa Nova

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Por Nyldo Moreira

Recluso há anos e sem deixar de compor, mas foi ficando esquecido. Inúmeros estudos para violão, uma infinidade de notas que resgatam a mais bela época da música popular brasileira. Há quem pense que um artista desaparece quando para de trabalhar. Não é o caso, Geraldo Vespar continua escrevendo sua própria história com um violão a tiracolo. O imenso zelo pelas partituras fez com que este compositor de 81 anos jamais as liberassem para gravação. Um encontro com o violonista Paulo Martelli, nos Estados Unidos, fez com que isso fosse repensado e agora o mestre será homenageado em disco e concerto em Araraquara.

Vespar é um importante instrumentista, arranjador e compositor brasileiro, tendo estudado na Escola de Música da Universidade do Rio de Janeiro, na Barklee School of Music de Boston e na Manhattan School of Music em Nova Iorque. No início da década de 50 ingressou na carreira artística na Rádio Anhanguera, em Goiânia, acompanhando calouros. Tocava guitarra em boates entre 1959 e 1963 e no ano seguinte entrou para o Conjunto de Moacir Silva. Fez parte de importantes orquestras pelo mundo, como a Astor, a da TV Excelsior, a de Paul Mauriat e a do maestro Cipó. Fez turnês com a Grand Orchestre pela França, Países Baixos, Coréia, Grã-Bretanha e Japão. Sua primeira gravação em um disco de historietas infantis foi ao lado de Radamés Gnattalli.

Vespar, usando um recurso de propaganda da época, apresentava-se com diferentes pseudônimos e chegou a assinar discos como Delano e como Gerard. Com o primeiro, o álbum Copacabana e com o segundo, o LP I Love Paris. De volta com o seu nome de batismo gravou Take Five e Samba, Nova Geração, com este recebeu o prêmio revelação O Guarani. Outros importantes álbuns fazem parte de sua história, além da trilha sonora do filme Mineirinho, vivo ou morto. Gravou com Beth Carvalho, Elizeth Cardoso e convivia com os grandes nomes da Bossa Nova. Fez turnê com Elza Soares no México e nos Estados Unidos.

Toda essa história foi fechada dentro de um apartamento no Rio de Janeiro durante anos. Vespar adoeceu e foi se recuperando, mas continuou recluso e notando suas obras. Desde a década de 60 ele trabalha nas partituras que serão registradas por Paulo Martelli. O experiente violonista acaba de gravar um álbum com 20 faixas, que são estudos que traduzem a linguagem da música popular brasileira para violão por Geraldo Vespar. O maior especialista em Bach e violão de 11 cordas, foi totalmente seduzido pela obra do amigo e deu espaço em seus concertos eruditos para contemplar a musica popular brasileira de Vespar, entre sambas e bossas.

Paulo Martelli fazia seu mestrado na Juilliard School of Music quando conheceu Geraldo Vespar, qua realizava sua doutorada na Manhattan School of Music nos anos 90. Martelli convenceu Vespar a permitir a gravação de seus Estudos Populares Brasileiros e já no ano de 2000, em um CD intitulado Roots, dois, destes estudos, foram lançados. O CD Roots, lançado por um selo americano, recebeu duas edições no exterior, mas nunca foi lançado no Brasil. Vinte anos depois o reencontro resultou em um trabalho fundamental para a música no mundo, o CD 20 Estudos Populares Brasileiros para Violão, de Geraldo Vespar. O lançamento será feito com um concerto no Teatro do Sesc, em Araraquara, realizado via ProAC.

Com o selo GuitarCoop, o álbum traz um conjunto de obras nacionalistas, e partituras inéditas, explorando ritmos, melodias e harmonias da MPB e da Bossa Nova. “A perda de um dos maiores representantes da Bossa Nova ainda é muito recente e trazer um trabalho com esse cunho, da música que referenda o Brasil para o mundo, é mais importante do que nunca”, conta Martelli, lembrando o falecimento de João Gilberto. “A obra do Vespar são poemas e fotografias de uma das melhores e mais intensas épocas da música brasileira”, completa.

Serviço:
Araraquara – Teatro do Sesc

Data: 26/10

Horário: 19h

Ingresso gratuitos. Retirar uma hora antes do evento.

Sobre Paulo Martelli:

Responsável técnico e músico intérprete do projeto “20 Estudos Populares Brasileiros para Violão, de Geraldo Vespar”. Paulo Martelli é considerado “um dos melhores violonistas de sua geração” pela Soundboard Magazine e Guitar Magazine (EUA). Revolucionando o cenário violonístico brasileiro, Martelli também se firma mundialmente com virtuose excepcional e como produtor. Premiado internacionalmente, foi solista e camerista em inúmeras orquestras no Brasil e no exterior. Destaque para a première do Concerto para violão e orquestra de F. Mignone no Brasil, frente a Orchestra de Campinas, e colaborações com a Metamorphosen Chamber Orchestra e o violinista americano Mark O’Connor, que foi vencedor do Grammy Awards. Gravou seis CDs, dois DVDs e produziu um box com coletâneas do Movimento Violão, projeto encabeçado por ele. Todos os álbuns foram aclamados pela crítica: “perfeição”, definiu a Classical Guitar Magazine, do Reino Unido; “Sólida e brilhante técnica”, disse a Soundboard Magazine, dos Estados Unidos; e “musicalidade impecável”, segundo a japonesa Gendai Magazine.

Tornou-se um mestre em violão de 11 cordas, com destaque aos seus arranjos de J.S. Bach, pelos quais tem verdadeiro fascínio. Gravou dois Cds e um DVD dedicados a obras do mestre alemão neste instrumento, em 2018, considerados referência pela crítica especializada. Atualmente Martelli é considerado globalmente como o mais importante interprete do alto guitar.

Como produtor, Paulo Martelli abriu as portas para apresentar os maiores nomes do violão da atualidade. A frente do projeto Movimento Violão, com concertos que acontecem regularmente em unidades do SESC no estado de São Paulo, também apresenta a transmissão nacional destes eventos que se tornaram um programa de TV no SESCTV. Deste projeto nasceu um luxuoso box com o selo SESC. Em 2011 e 2012 o projeto Movimento Violão foi realizado no Kennedy Center, em Washington D.C (EUA), transmitido ao vivo pela internet.

Os estudos nos Estados Unidos, nas mais conceituadas escolas de música, também despertaram a docência em Martelli, que também é educador e atua em projetos sociais. Em 1999 foi reconhecido com o prêmio “Bolsa Virtuose”, por seu compromisso com a educação musical. Em 2000 também recebeu uma das maiores honras do meio violonístico internacional, o prêmio “Andrés Segovia”. No Carnegie Hall apresentou seu recital de estreia em Nova Iorque, desde então a carreira internacional deslanchou. Paulo Martelli é doutor em música pela UNESP.