‘Presidente esqueceu de combinar comigo’, diz Aras sobre arquivamento

Cabe a Aras decidir se denuncia ou n√£o Bolsonaro, o que poderia resultar no afastamento do presidente do cargo

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Em entrevista exibida na madrugada desta ter√ßa-feira, 2, pela TV Globo, o procurador-geral da Rep√ļblica, Augusto Aras, disse que o presidente Jair Bolsonaro esqueceu de “combinar” com ele sobre o arquivamento do inqu√©rito que apura se houve interfer√™ncia pol√≠tica na Pol√≠cia Federal. A fala de Aras foi uma resposta sobre a declara√ß√£o do chefe do Executivo, que afirmou acreditar no “arquivamento natural” do caso.

 

Cabe a Aras decidir se denuncia ou não Bolsonaro, o que poderia resultar no afastamento do presidente do cargo. Ao participar do programa Conversa com Bial, Aras foi indagado se a declaração do presidente não o colocava numa situação desconfortável.

“Com certeza. S√≥ ocorre que √© uma declara√ß√£o unilateral, o presidente esqueceu de combinar comigo. Mas eu posso compreender que o presidente √© um homem muito espont√Ęneo, ele tem convic√ß√Ķes pr√≥prias, ele chegou ao mais alto grau na hierarquia pol√≠tica do Brasil”, disse Aras.

“Se eu n√£o tenho condi√ß√Ķes de controlar os meus colegas da primeira inst√Ęncia que ousam contra as minhas posi√ß√Ķes, os meus colegas gritam e berram todo dia que t√™m independ√™ncia funcional – somente o PGR √© que n√£o tem, parece -, imagina se eu ou qualquer outra autoridade pode controlar o que diz o senhor presidente. A liberdade de express√£o √©, na doutrina norte-americana, acolhida pela Suprema Corte brasileira, √© o primeiro dos princ√≠pios”, acrescentou o procurador-geral da Rep√ļblica.

A tend√™ncia √© que Aras pe√ßa o arquivamento do caso. A investiga√ß√£o foi aberta ap√≥s o ex-ministro da Justi√ßa Sergio Moro acusar o presidente de tentar interferir politicamente no comando da Pol√≠cia Federal para obter acesso a informa√ß√Ķes sigilosas e relat√≥rios de intelig√™ncia

O objetivo do inquérito é apurar se foram cometidos os crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de Justiça, corrupção passiva privilegiada, denunciação caluniosa e crime contra a honra. O inquérito mira tanto Bolsonaro quanto Moro.

Desde que assumiu o comando do Minist√©rio P√ļblico Federal em setembro do ano passado, Aras vem tomando uma s√©rie de medidas que atendem aos interesses de Bolsonaro. A mais recente delas foi mudar de opini√£o e pedir a suspens√£o do inqu√©rito das fake news, ap√≥s uma opera√ß√£o, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes fechar o cerco contra o chamado “gabinete do √≥dio” e atingir empres√°rios e youtubers bolsonaristas. Enquanto alega n√£o ser comentarista pol√≠tico – e, segundo advers√°rios, tenta se cacifar para uma cadeira na Suprema Corte -, Aras se tornou alvo de cr√≠ticas internas de procuradores e de parlamentares da oposi√ß√£o, que criticam a sua “in√©rcia” frente aos excessos cometidos pelo chefe do Executivo.