O caminhão vermelho dos bombeiros

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Algumas pessoas me perguntaram se eu escreveria regularmente aqui em O Imparcial. Vai ser irregularmente, na verdade. Não tenho como assumir um compromisso de tal dia, porque minha vida – felizmente – é um rodamoinho, como se dizia em minha infância, passada entre o São José e o Carmo. Mas virei com frequência. Eu ia falar do caminhão de bombeiros, o primeiro que chegou a cidade. Não consegui a data certa. Liguei para o Corpo de Bombeiros aqui, foram atenciosos, porém não sabiam como me dar a informação. Não faz mal.

Soubemos certa manhã que o tal caminhão, que só tínhamos visto em filme, estava na cidade. Meus primos José, Paulo, Toni, filho do tio jesuino, que trabalhava na prefeitura, deram a noticia, mas não disseram onde o caminhão estava. Não me lembro quantos anos eu tinha, mas sei que nem existia bombeiro ainda na cidade.

Fuçamos e fuçamos, perguntamos daqui e de lá e enfim o Anibal Fernandes – se não me engano no nome – que tinha uma empresa de ônibus, disse que estava em uma garagem da rua Três, junto a agência de automóveis do Graciano, em frente a Padaria Palamone, quase esquina da Avenida Brasil.

Voamos para lá. O caminhão estava estacionado bem na frente e ficamos sem fala. Parece-nos gigante e o vermelho reluzia. Então caminhões daqueles existiam de verdade? Fomos nos aproximando, mas um soldado – seria da Força Pública? A PM ainda não existia – nos impediu:

“Parem, fiquem onde estão!”

“Só queremos ver.”

“Pois olhem.”

“Queriamos por a mão.”

“Para sujar? Nem pensar.”

Demos a volta, olhamos por todos os lados, mas queríamos mesmo era bater um sino que existia no alto. Deitamos no chão, olhamos por baixo, o primo Paulo, apelidado Ito, rastejou um pouco, quase ficou debaixo do bitelo. Foi nosso ídolo. Decidimos naquela manhã: vamos ser bombeiros, vamos ser heróis, salvar gente. Então o soldado nos empurrou para fora.

“Já viram o suficiente, agora chega.”

“Que mal faz olhar?”

“O comandante pode não gostar. Se querem mesmo ver, esperem por um incêndio.”

Partimos. E esperamos o incêndio. Rezamos por um incêndio. A cada dia perguntávamos aos pais, às professoras, ao farmacêutico Marconi, ao pipoqueiro, ao barbeiro, ao dono do bar:

“Não teve nenhum incêndio?”

“Não, ainda bem, Deus nos livre de um.”

Os anos se passaram e até hoje guardo essa frustração. Nunca vi um incêndio em Araraquara. Nunca vi o caminhão vermelho com as escadas abertas e as grossas mangueiras jorrando água. Memória e uma experiência que me faltam.