Matheus Santos quer um debate de ideias que recrie um novo ciclo de desenvolvimento

“O Legislativo municipal ao longo da história se apequenou e vive a reboque dos prefeitos. Não tem autonomia para pensar, falar e não contribui com as discussões para pensar as soluções”

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José Augusto Chrispim

Foi dada a largada para a disputa eleitoral de 2020. Desde o último domingo (27) até o final da campanha eleitoral são 45 dias para que os candidatos a prefeito, vice-prefeito e vereador possam mostrar seus projetos ao eleitorado araraquarense. Como vem fazendo todas as semanas, o jornal O Imparcial conversou com mais um candidato a uma das 18 cadeiras da Câmara Municipal de Araraquara.

O entrevistado desta edição é o mestre em Ciências Sociais e pesquisador, Matheus Henrique de Souza Santos, 30 anos, que faz Doutorado em ‘Inovação no governo’ pela Unicamp. O candidato faz parte da direção estadual do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e, na direção municipal, coordena a Fundação, responsável por criar os programas e projetos do partido em diálogo com a sociedade.

Matheus, que é morador do Jardim Roberto Selmi Dei, concorre a uma vaga no Legislativo araraquarense pela primeira vez. O candidato falou à reportagem sobre suas expectativas e projetos que pretende colocar em prática, caso seja eleito vereador.

Veja a entrevista na íntegra:

O Imparcial: Qual é a sua expectativa para essas eleições, em Araraquara?

Matheus: “Vivemos, desde 2014, uma profunda crise econômica no Brasil e que, infelizmente, foi agravada pelo surgimento do novo coronavírus – deixo aqui meu respeito e solidariedade aos mais de 140 mil mortos, seus amigos e familiares. Dessa forma, minha expectativa para o processo eleitoral em Araraquara é, em primeiro lugar, que a cidade possa debater ideias que recriem um novo ciclo de desenvolvimento econômico e humano. Sem ficar perdendo tempo em apontar o dedo para o passado, mas apenas preocupado com o futuro, com o que será de nós, dos nossos filhos e netos. Eu digo sempre que não tenho compromisso com o erro de ninguém, apenas com os acertos, e que a política precisa ser capaz de trazer toda a inteligência do povo araraquarense. Inteligência do setor privado, dos servidores públicos, da universidade, dos jovens, mas também de quem já viveu muito e pode contribuir, ou seja, de todos. Sem revanchismo ou preconceito, mas com muita humildade e coragem para pensar em soluções inovadoras e enfrentar problemas estruturais que estão aí há anos. Acredito que as pessoas estão mais maduras e conscientes do que estamos vivendo e podem produzir um fenômeno nesta eleição de mostrar aos partidos políticos, aos políticos e a todos nós que a pauta de reconstrução da cidade e solução dos problemas é a única que interessa”.

O Imparcial: Qual é a sua principal motivação para se candidatar a uma vaga no Legislativo?

Matheus: “O Legislativo municipal ao longo da história, infelizmente, se apequenou e vive a reboque dos prefeitos. Não tem autonomia para pensar, falar e fazer, não conseguindo contribuir com as discussões para pensar as soluções. Temos que fiscalizar as ações do prefeito? É claro que sim, sou formado em Administração Pública e sei fazer. Mas isso é muito pouco. Os vereadores devem utilizar todos os seus recursos para contribuir nesse processo de achar as soluções para os problemas, não de forma paliativa, pedindo recurso para tapar buraco. Isso é importantíssimo, mas o que podemos propor para termos menos buraco? Como podemos pensar mecanismos e instrumentos para aumentar a arrecadação da Prefeitura para que possamos investir mais sem onerar o empresário local? Apresentei ao PDT algumas ideias, tais como as Empresas Simples de Crédito, a discussão de um Banco Municipal de Desenvolvimento e estratégias específicas para se pensar, por exemplo, o desenvolvimento da economia local, fortalecendo nossos empresários, em vez dos de fora, lembrando dos comércios nos bairros que tanto empregam. Tudo isso ao mesmo tempo em que experimentamos novos setores econômicos, como da Economia Criativa, do Conhecimento e do Esporte. Estou desde 2010 na universidade, tendo o privilégio de conhecer as coisas maravilhosas que estão sendo pesquisadas aqui no Brasil e no mundo, quero trazer isso para Araraquara. Essa possibilidade de trazer todo esse conhecimento, essas novidades e transformar a Câmara em um ambiente onde discutimos de tudo é o que mais me motiva”.

O Imparcial: Qual é o seu principal projeto, caso se eleja vereador? E quais bandeiras você defende?

Matheus: “Graças a Deus eu tenho um coletivo de pessoas diferentes que estão me ajudando, desde professores a autônomos, de empresários a pesquisadores, artistas a servidores. Com isso, construímos o nosso Plano de Trabalho Legislativo. Por eu ser professor tenho esse hábito de planejar tudo o que eu vou fazer para melhor utilizar o tempo e os recursos. Nesse Plano colocamos 12 eixos de trabalho, todos com propostas. Dentre elas posso destacar o Aplicativo Você-Vereador, que vai consultar as pessoas sobre as ações do mandato e facilitar no pedido de reparos em zeladoria, mas também discutir o Plano Diretor de cada bairro, junto com moradores e empresários; o Fórum Permanente dos Servidores Públicos para pensarmos soluções junto com os servidores; discussão ampla sobre a questão das queimadas; Colocar toda a estrutura de TV da Câmara à disposição de projetos sociais; Ficar de olho no DAAE, já que não podemos aceitar em silêncio tudo o que está sendo feito nos últimos anos; cobrar do prefeito um gabinete de crise para ajudar os empresários na retomada econômica, dentre muitas outras propostas já elaboradas. Acessem a página no Facebook @profmatheussantos e conheça todo o nosso Plano de Trabalho. Tem muita coisa que pode ser feita com dedicação, inteligência e muito trabalho”.

O Imparcial: Você acredita que aconteça uma grande renovação na Câmara Municipal nestas eleições? Ou acha que os grandes partidos devem manter a maioria das cadeiras, devido ao final das coligações proporcionais?

Matheus: “Acredito que a cidade de Araraquara vai, olhando nos olhos dos vereadores, agradecer a contribuição de cada um, mas que o momento exige uma renovação. É inadmissível pensar que tem vereador com quase 30 anos de casa; são os mesmos anos que eu tenho de vida. Como eu disse, não há espaço para revanchismo, ou seja, não é para atacar nenhum  político, cada um deu sua contribuição, mas é notório que a maioria não tem mais o que entregar à cidade de Araraquara. O Edinho e o Barbieri, que juntos governam a cidade há quase 20 anos, cometeram vários erros – na minha dissertação do Mestrado sobre o Plano Diretor eu aponto um erro em comum dos dois – e mesmo assim passaram intocáveis na Câmara Municipal, com raríssimas exceções. Agora, como construir um novo ciclo para Araraquara? É elegendo novas lideranças políticas, é o cidadão e a cidadã, com seu senso crítico, dizer obrigado a quem esteve até aqui, mas o momento requer pensar o futuro de todos nós, e não ficarmos presos às velhas disputas. E os partidos com mais vereadores vão lutar para manter o controle da cidade, caberá ao povo dizer não”.

O Imparcial: Em sua opinião, quais são os principais desafios para a próxima legislatura na pós-pandemia?

Matheus: “Trabalho, renda e aumentar os investimentos público e privado. Os empresários estão no limite, só vejo lojas fechando e não há um só dia dedicado pelos políticos para debater a reconstrução econômica. Nenhum. Ficam apenas tratando de questões para tentar se reeleger e esqueceram que precisamos ter uma Araraquara depois disso tudo. O que os vereadores, os cargos indicados na Prefeitura e o prefeito estão discutindo para a retomada econômica, para defender os empregos e garantir os pagamentos da despesa pública? Eu não vejo nada, infelizmente, além de uma tentativa de apagar “incêndios”, ealguns que estão mais preocupados com suas candidaturas. Esse é o principal desafio da política e para fazer isso é preciso muita humildade em dialogar com os diferentes, trazer quem está conseguindo propor soluções e construir um ambiente em Araraquara não de confronto, nem de guerra, e sim de cooperação. O investimento público está abaixo da necessidade, precisamos aumentar e isso será feito apenas pelo fomento econômico e articulação para fora da cidade. Do contrário, como vamos garantir o salário dos servidores? Como vamos garantir linhas de crédito? Como iremos construir e manter escolas? Como alguém decidirá investir seu dinheiro abrindo uma loja de roupas, uma padaria?”.

O Imparcial: No contexto nacional, você acha que a onda ‘bolsonarista’ terá efeito sobre as eleições municipais? Ou acredita que os partidos de centro e de esquerda ganharão espaço entre os eleitores insatisfeitos com o governo federal?

Matheus: “O presidente Jair Bolsonaro é resultado de uma tempestade perfeita; essa foi sempre minha opinião. É o esgotamento do projeto petista, a fragilidade dos outros dois grandes partidos o PMDB e o PSDB, ao mesmo tempo sob o período da Operação Lava Jato, que escancarou o submundo da nossa República e consolidou, infelizmente, a judicialização da política. Tudo isso em um contexto de crise econômica anterior à eleição de 2018. Não votei em Bolsonaro e não tenho qualquer alinhamento a seu governo ou propostas, mas não adianta ficar xingando seus eleitores de fascistas e outros adjetivos pejorativos. As pessoas, certas ou não, não cabe a mim julgar, foram levadas a elegê-lo num contexto específico, que dialoga apenas com as questões nacionais, que eu citei anteriormente. Nos municípios a conversa é outra, a realidade é bem mais complexa e o voto tem mais características. Bolsonaro tá percebendo isso, quando não consegue emplacar grandes nomes nas principais cidades. O que eu tenho defendido, não é de hoje, é que os partidos e as forças políticas precisam apresentar um projeto de desenvolvimento tanto para o Brasil, quanto para as cidades. Que tenha a coragem de enfrentar os problemas estruturais como o ganho exorbitante do setor financeiro, do transporte público, do emprego, da segurança pública, da ocupação urbana, do Estado e tantos outros. É esse projeto que vai estabelecer o diálogo para formar alianças. Eu não posso ser o dono da verdade, eu coloco na mesa minhas propostas objetivas e apresento aos demais, e no diálogo vamos construindo aproximações ou distanciamentos. O empresário, o servidor público, o trabalhador e a trabalhadora estão preocupados em como a Política vai atuar para solucionar os seus problemas. É essa minha postura”.

O Imparcial: Você acredita na força da dobradinha Nino Mengatti (PSB) /Pedro Baptistini (PDT) para evitar a reeleição de Edinho Silva?

Matheus: “O PDT, o PSB, o PV e a REDE estão, em várias capitais e cidades de importância, reproduzindo uma proposta, respeitando as peculiaridades locais. Essa proposta do projeto de desenvolvimento com diálogo. E, em Araraquara, conseguimos esse feito, que não é fácil. Araraquara é uma cidade dividida entre pouquíssimos líderes políticos que não querem o surgimento de coisas novas. E falo isso com tranquilidade, sabe porquê? Foi assim nos anos 60, 70, 80 e 90. Cada época conta com seus políticos que querem controlar tudo. O que o povo tem que fazer é dizer: obrigado, mas basta. Temos na cidade de Araraquara várias candidaturas que representam coisas diferentes e a nossa, com a dobradinha Nino/Pedro, quer usar o tempo eleitoral para dizer: Olha, podemos sim fazer mais e melhor. Olhando com respeito a contribuição de cada liderança política na sua história e não tendo compromisso com os erros de ninguém, mas se propondo a enfrentar os problemas. Eu acredito e muito na capacidade de trabalho da nossa dobradinha, mas também de toda a coligação. No entanto, a decisão é única e exclusiva do povo de Araraquara e nós devemos apenas compreender e respeitar. Eu, sendo eleito, serei o vereador que vai defender o interesse dos araraquarenses, não importando quem sente na cadeira de prefeito”.

O Imparcial: Você prega uma candidatura coletiva. Caso seja eleito, como pretende levar esse conceito para a Câmara Municipal?

Matheus: “Não há outra forma de se fazer política se não a coletiva. É isso que venho dizendo desde quando aceitei o convite para ser candidato a vereador. Se for para fazer o que só eu acho, eu fico trancafiado na universidade e dando minhas aulas. Eu sou uma pessoa pautada pelo diálogo, tenho construído, na nossa candidatura, amplo diálogo com os mais diferentes araraquarenses, justamente para que possamos, juntos, resolver os problemas ou pelo menos apresentar alternativas. A política não pode se tratar de uma pessoa ou partido, ela precisa trazer os anseios populares e coletivos. A esmagadora maioria das pessoas não é filiada aos partidos, querem saber como os políticos vão propor soluções. E o Legislativo é o espaço perfeito para isso, pois não está tomado pela correria do dia a dia da Prefeitura e nem das brigas do Judiciário. A Câmara Municipal tem todos os recursos para construir um mandato coletivo, onde o vereador trabalha ombro a ombro com a população. No mandato, para concretizar a ideia de coletividade, apresentamos dois caminhos. O primeiro é a postura do político, ou seja, ele precisa ser alguém pronto para o diálogo, principalmente para ouvir aqueles que pensam diferente dele ou estão distantes dos lugares de decisão. E minha história é marcada por essa postura, eu sempre dialoguei com todos, sempre construí pontes. O segundo caminho é usar a tecnologia a nosso favor, por isso estamos propondo o Aplicativo Você-Vereador, um recurso já utilizado fora do Brasil. Tudo possível de ser feito. Com o Aplicativo as pessoas irão dialogar comigo, tomaremos decisões em conjunto e vão propor ações, sem que precise ficar aguardando a agenda do vereador ou se sujeite à prática do toma lá dá cá”.

O Imparcial: Dê uma mensagem aos eleitores e diga por que merece o voto do araraquarense.

Matheus: “Vivemos tempos antes não vistos. O momento requer de todos nós coragem, humildade e inteligência para podermos reconstruir nosso caminho. Coragem para enfrentar os problemas, humildade para dialogar com todos que possam ajudar e inteligência para construirmos soluções inovadoras. Araraquara é uma cidade cheia de pessoas capazes e que trabalham muito, eu sou uma delas. Amo essa cidade, aqui constituí família, aqui crio os meus filhos e é aqui que quero colocar à disposição tudo o que construí profissionalmente. Nasci aqui e cresci na rua 07 do Jardim Roberto Selmi Dei e sei dos desafios, dos descasos e dos problemas. Vou trabalhar e muito para construirmos as soluções para agora, olhando para o nosso futuro. Conte comigo, que eu conto com você”, finalizou o candidato.