Guerreiras fazem de Araraquara a capital nacional do futebol feminino

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Texto: Carlos André de Souza
Fotos: Jonatan Dutra/AFE

Elas não se cansam de fazer história. Ao vencer o Corinthians nos pênaltis no último domingo (29) no Parque São Jorge, as Guerreiras Grenás fizeram da Ferroviária o primeiro time a conquistar duas vezes o título do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino.

A conquista fez o time gerar mais uma vez a sensação de orgulho no povo de Araraquara e também do interior paulista, com projeção em todos os grandes veículos de comunicação do Brasil. Mas quem vê apenas as imagens do time com a taça não imagina o tamanho da superação que envolveu o momento.

Para se ter uma ideia, o Corinthians, time com alto investimento e várias atletas da Seleção, chegou à final embalado por de 34 vitórias seguidas, desempenho que o colocou no Guinness Book com o recorde de triunfos consecutivos do futebol mundial, marca que anteriormente pertencia a um clube do País de Gales. Paralelamente à final do Brasileiro, Ferroviária e Corinthians disputaram a semifinal do Paulista, que terminou com a classificação alvinegra com um placar agregado de 9 a 1 (4 a 0 em Araraquara e 5 a 1 em São Paulo). Por isso, poucas pessoas acreditavam que o time araraquarense teria alguma chance de ficar com o título nacional.

Mas a diferença técnica já havia sido superada pela arra nas duas fases anteriores de mata-mata do Brasileirão Feminino, já que as Guerreiras Grenás, que terminaram em 7º lugar na primeira fase, eliminaram o Santos (2º) e o Kindermann-SC (3º), ambos nos pênaltis. A prova de fogo dessa vez seria contra o líder da fase inicial. E no primeiro minuto do jogo de ida da final, na Fonte Luminosa, o Corinthians viu que encontraria uma pedreira pela frente. Aline Milene recebeu dentro da área, cortou sua marcadora e finalizou no canto para causar uma explosão de alegria na torcida afeana. Esse jogo de ida teve características abertas, com ataques perigosos de ambos os lados, e terminou empatado por 1 a 1, com o gol corintiano marcado por Erika.

Na partida de volta, venceu a estratégia da técnica Tatiele Silveira e a garra das meninas que brigavam por cada lance como se fosse a ‘bola do jogo’. A atuação da goleira Luciana foi memorável, com defesas à queima-roupa no tempo regulamentar e uma bela intervenção na decisão por pênaltis, que ainda teve outra cobrança corintiana para fora. Na última batida, a zagueira Géssica deslocou a goleira para calar a torcida corintiana e levar as afeanas ao delírio. Festa araraquarense no Parque São Jorge!

Outras histórias de superação

O que não falta são histórias individuais de superação no elenco afeano. A técnica Tatiele Silveira é um exemplo. Em dezembro de 2018, a gaúcha foi demitida do Internacional, que alegou “falta de resultados” mesmo com apenas duas derrotas em 40 jogos. Na Ferroviária, disputou pela primeira vez a elite brasileira e levou o título que fez dela a primeira mulher técnica a conquistar a taça. Quem também teve que se superar foi a goleira Luciana. Em entrevista após o jogo, ela revelou que seu pai sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) há um mês e que ela pensou em deixar o time e voltar para casa, decisão que foi contida por seus irmãos e sobrinhos. A zagueira Andreia Rosa também postou um vídeo emocionante em suas redes sociais, onde dedica seu gol na decisão por pênaltis para a avó, que está acamada.

Nesta quinta tem carreata!

Uma festa está programada para esta quinta-feira (3) em Araraquara. As Guerreiras Grenás desfilarão pela cidade em carro aberto a partir das 11 horas, com a saída do Estádio da Fonte Luminosa em direção à Prefeitura e com o percurso de volta para a Fonte. A Ferroviária também prepara uma homenagem para todas as atletas e comissão técnica hoje (2) no intervalo da partida entre Ferroviária e Mirassol, com previsão de início para às 19 horas, na Fonte Luminosa. As guerreiras entrarão em campo e receberão o troféu das mãos do presidente, Carlos Alberto Salmazo, em uma entrega e volta olímpica simbólica, perante a torcida grená.

Campanha

Na primeira fase do Brasileirão 2019, a equipe comandada por Tatiele Silveira terminou na sétima colocação, a penúltima vaga na classificação para a segunda fase. Nas quartas de final, eliminou o Santos, nas penalidades. Na etapa seguinte, de novo uma vaga decidida nos pênaltis. Contra o Kindermann, a Ferroviária conseguiu a tão sonhada vaga na final. No Brasileiro Feminino foram sete vitórias, nove empates e cinco derrotas. O time balançou a rede 27 vezes e sofreu 14 gols.

Hegemonia paulista

Das sete edições do Brasileiro disputadas anteriormente, seis foram vencidas por clubes do Estado de São Paulo. Centro Olímpico (2013), Ferroviária (2014 e 2019), Rio Preto (2015), Santos (2017) e Corinthians (2018) foram os clubes que levantaram o troféu. Apenas o Flamengo, em 2016, quebrou a hegemonia paulista.

O primeiro título…

A conquista de 2019 teve características bem diferentes da primeira conquista, em 2014. As Guerreiras Grenás, na ocasião comandadas pelo técnico araraquarense Douglas Onça, atropelaram todos os adversários que encontraram pela frente e levantaram a taça na Fonte Luminosa com uma campanha invicta. O time, que meses antes havia conquistado a Copa do Brasil, fez história e após o Brasileiro se tornou a base da Seleção Brasileira Permanente, projeto criado para dar mais ritmo de jogo ao grupo brasileiro para as Olimpíadas de 2016. O problema é que, como as jogadoras convocadas passavam a defender permanentemente a Seleção, o elenco afeano foi praticamente desmanchado. Entretanto, mesmo reformulada no ano seguinte sob o comando do técnico Leonardo Mendes, a Ferroviária conquistou a Libertadores e destacou ainda mais o nome do time no futebol feminino.

Visibilidade aumentou

Um dos motivos para se animar com o futebol feminino brasileiro pode ser notado pela diferença de visibilidade entre as conquistas de 2014 e 2019. Em 2014, a façanha teve ampla cobertura da mídia araraquarense, atuação que faltou nos veículos de comunicação de abrangência nacional. Em 2019, a Band teve um papel importante ao transmitir pela primeira vez a fase de mata-mata e foi recompensada com a marca de 4,2 pontos de audiência, números que a colocaram em terceiro lugar na audiência geral e na vice-liderança entre o público masculino. O título teve espaço – ainda pequeno, mas importante – em todos os canais de TV e programas especializados. O ‘Fantástico’, da Rede Globo, foi encerrado com a conquista araraquarense. No dia seguinte, a façanha teve reportagens especiais nos dois principais programas esportivos da TV aberta, o ‘Globo Esporte’ e o ‘Jogo Aberto’ da Band. Além disso, a técnica Tatiele Silveira marcou presença com entrevistas em diversos programas da TV fechada. Essa evolução na visibilidade é importante para atrair mais torcedores e investidores, o que gera uma boa perspectiva para a modalidade. Mais do que isso, é com essa vitrine que mais ídolos surgirão e inspirarão mais crianças a praticarem o esporte.

Polêmica com comentarista

No final do mês de agosto, antes do mata-mata do Brasileiro, a comentarista esportiva Ana Thaís Matos, da Rede Globo/SporTV, fez uma declaração em seu Twitter, onde criticou a convovação da meia-atacante Aline Milene, da Ferroviária, pela técnica da Seleção Brasileira, a sueca Pia Sudhage.

A jornalista foi irônica ao afirmar que outros clubes brasileiros deveriam adotar a Ferroviária como segundo nome para também ter atletas lembradas pela seleção. Rapidamente a comentarista foi ‘metralhada’ pelos torcedores afeanos nas redes sociais. Quem também respondeu foi a própria Ferroviária, em seu Twitter oficial, onde explicou sobre a grandeza e os títulos conquistados pelo futebol feminino grená. Com a torcida, a zoeira ganhou proporções ainda maiores com as classificações e posteriormente o título nacional.

Repórter ‘pé-quente’

Se por um lado houve a polêmica com a comentarista do SporTV, por outro um outro jornalista foi considerado ‘pé-quente’ pela torcida afeana. Caco Barcellos, da Rede Globo, acompanhou os dois jogos da final do Brasileirão ao lado dos torcedores para produzir uma reportagem especial sobre o futebol feminino brasileiro para o programa Profissão Repórter. O jornalista esbanjou simpatia nos jogos na Fonte Luminosa e no Parque São Jorge. A primeira informação divulgada foi de que o material iria ao ar nesta quarta-feira (2), mas provavelmente deve ficar para a quarta seguinte (9).

Libertadores

Ainda neste mês de outubro, a Ferroviária irá em busca de outro bicampeonato, dessa vez continental. O time araraquarense disputará a Libertadores Feminina, que será realizada entre os dias 11 e 27 de outubro em Quito, no Equador. Campeã em 2015, a Ferroviária está no Grupo B, ao lado de Deportivo Cuenca-EQU, Estudiante de Caracas-VEN e Mundo Futuro-BOL. Além da Locomotiva, o Corinthians será outro representante brasileiro.

 

Nesta quarta-feira (2), o jornal O Imparcial traz o pôster da Ferroviária, bicampeã do Brasileirão Feminino. Nas bancas!