Gabriela Palombo vê presença da mulher como fator transformador na política

“Fazer a disputa ideológica com o campo ultraconservador e o contraponto ao que representa o bolsonarismo são dois fatores fundamentais que me motivam a disputar uma vaga no Legislativo”, disse a pré-candidata

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José Augusto Chrispim

Dando continuidade à série de entrevistas com os pré-candidatos a vereador de Araraquara, a reportagem conversou com a ex-vereadora, Gabriela Palombo (PT). A petista foi eleita vereadora em 2012, quando obteve 1.472 votos.

Em seu mandato, Gabriela integrou a bancada de oposição ao prefeito Marcelo Barbieri (MDB) e foi ferrenha fiscalizadora do Executivo. Entre outras ações, a então vereadora apresentou ao Ministério Público denúncias sobre o mau uso das câmeras de segurança do município e também sobre desvio de verbas na Fundart. As denúncias geraram TAC’s (Termo de Ajustamento de Conduta).

A petista falou à reportagem sobre suas principais motivações para um novo mandato na Câmara Municipal de Araraquara. Confira a entrevista na íntegra:

O Imparcial: Qual é a sua principal motivação para um novo mandato como vereadora?

Gabriela: “Após a experiência do meu primeiro mandato, decidi não concorrer novamente, pois naquele momento, minha visão do Legislativo era um tanto frustrante. Uma prática política que não seja transformadora, que não resulte em mudanças concretas em benefício da população não fazia sentido para mim. E por mais que nossa oposição na Câmara fosse consistente, a perspectiva de compor o Executivo e colocar em prática muito do que eu criticava enquanto vereadora me fez sentir desafiada. E útil! E foi uma experiência maravilhosa, um aprendizado que me ajudou a enxergar as possibilidades e utilidade do poder Legislativo em outra dimensão. Somado a isso, a ascensão da ‘ultradireita’ ao poder a partir da eleição do Bolsonaro foi outro fator determinante que me fez rever a necessidade de disputar a Câmara Municipal. Conhecer o funcionamento da máquina pública por dentro identificando assim lacunas que podem ser corrigidas por meio da ação parlamentar, fazer a disputa ideológica com o campo ultraconservador e o contraponto ao que representa o bolsonarismo são dois fatores fundamentais que me motivam a tentar novamente uma vaga entre as 18 cadeiras na Câmara Municipal”.

O Imparcial: Você acredita em uma maior bancada feminina na Câmara no ano que vem? Qual é a importância disso para a política?

Gabriela: “Acredito que o debate da representatividade está ganhando fôlego, o que antes era defendido na teoria vem sendo incorporado como prática por boa parte da população. É claro que mudanças de cunho cultural são lentas e não se dão de forma linear. Tivemos maior representatividade feminina na Câmara Municipal em 2001, num contexto onde o empoderamento das mulheres não era pauta prioritária nem para a esquerda. Tanto é que expressiva representação feminina nunca mais se repetiu em Araraquara. O PT foi o único partido que efetivamente investiu na formação e liderança de mulheres na política, de lá pra cá tivemos mulheres nos representando na Câmara em todas as legislaturas: Vera Botta, Edna Martins, Marcia Lia, eu e a vereadora Thainara Faria. Mas essa é a primeira vez que entraremos na disputa com uma chapa majoritariamente feminina, representando 55% do total de candidatos. E mais do que isso, uma chapa diversificada que apresenta jovens de periferia como a Steyce Chaves, trans como a Filipa Brinelli, mulheres do campo como a Silvani Silva, mulheres negras como Rita Ferreira. Enfim, uma chapa feminina que longe de cumprir cota, vem para fazer a diferença. E que diferença é essa. A diferença de quem vive e sente os problemas cotidianos, a diferença de quem usufrui dos serviços públicos e sabe com conhecimento de causa “onde o calo aperta”. A importância disso para a política é revolucionária, na minha opinião. O desdém e a apatia da população em geral repousa no distanciamento da prática política com a vida cotidiana. Quanto mais a política servir para melhorar a vida, mais valor e reconhecimento terá por parte do povo. Representamos a maioria da população brasileira, defender soluções para problemas que nos atingem a partir das nossas experiências e dificuldades, é defender melhorias na qualidade de vida à população. E isso passa, inevitavelmente, pela maior presença de nós mulheres nos espaços de poder”.

O Imparcial: Devido à pandemia do novo Coronavírus, o corpo a corpo da campanha eleitoral nas ruas da cidade deve ser menos intenso este ano. Você acha que isso vai favorecer os candidatos que possuem mandatos, ou a disputa vai ficar mais acirrada nas redes sociais?

Gabriela: “O contexto é inusitado para todos, candidatos e população. A internet que já ocupava importância estratégica nas eleições anteriores agora ganha centralidade. No entanto, pesquisas indicam tendência conservadora do eleitorado na hora da voto. Como ferramenta mais democrática que a TV, rádio ou estruturas de campanhas robustas, a internet pode favorecer novos candidatos ou tornar menos desigual a disputa. Contudo, só será favorável àqueles com trabalho consistente e alguma capilaridade social. Numa disputa “mais do mesmo”, a tendência é favorecer quem já tem mandato ou goza de algum conhecimento público”.

O Imparcial: Apesar do fim das coligações, agora o partido que não atinge o quociente, participa da divisão da “sobra” nos termos da nova redação do artigo 109, parágrafo 2 do Código Eleitoral, dada pela Lei 13.488/2017. Você acredita que teremos mais partidos na próxima legislatura ou entende que os grandes continuarão com a maioria das cadeiras?

Gabriela: “Acredito que o fim das coligações proporcionais resultará na ampliação da representação dos grandes partidos. São mais de trinta partidos registrados oficialmente no Brasil que, no entanto, não representam trinta ou mais ideologias diferentes. Embora a tendência seja concentrar a representatividade partidária, a julgar pela nossa realidade, não vejo isso como um prejuízo à Democracia. Pelo contrário”.

O Imparcial: Você acredita que candidatos de direita e até extrema-direita serão beneficiados pelo ‘Bolsonarismo’ nestas eleições, ou vê o apoio do eleitorado ao presidente menor este ano?

Gabriela: “Como legítimo representante desse campo político, o desempenho do governo Bolsonaro é determinante para ampliação ou não de candidatos da sua base ao poder. Pesquisas já indicam a perda de popularidade e, portanto, de influência de voto de candidatos apoiados por Bolsonaro nessas eleições. Acredito que o fiasco do seu governo deve neutralizar a ascensão automática de representantes desse campo político, forçando assim candidatos da sua base a mostrar mais trabalho, mais propostas aos problemas concretos da vida cotidiana do que apenas reverberar acusações ou grosserias como foi na eleição que elegeu Bolsonaro”.

O Imparcial: Você foi uma vereadora muito atuante na fiscalização do Executivo em seu primeiro mandato. Em caso de reeleição do atual prefeito e se você se eleger vereadora, como será a sua atuação com relação ao Executivo?

Gabriela: “Nesse cenário, diferente do primeiro mandato onde fui oposição, eu seria vereadora da base. E teria assim, mais uma vez, oportunidade de fazer na prática o que criticava em discurso. Porque compreendo que estar na base do Executivo significa alinhamento ao projeto, compromisso com um programa que aponte os rumos da nossa cidade, rumos esses que estou ajudando a construir inclusive e, portanto, me representam. Isso é muito diferente da postura subserviente, submissa ou desinteressada que eu via e criticava com relação à maioria da base de apoio ao Barbieri em seu segundo governo. Conheço o funcionamento da máquina, conheço as propostas que apresentamos para a cidade e identifico muitas das lacunas que impedem essas propostas de avançarem por falta de base legal. Nesse cenário, minha atuação seria bastante produtiva, pois teria espaço e respeito para dialogar com o Executivo, coisa que infelizmente não acontecia no governo Barbieri. E a fiscalização ao governo, firme e independente como acredito que tenha que ser”.

O Imparcial: Quais bandeiras você defende em seu projeto político?

Gabriela: “Ideologicamente eu defendo um modelo de desenvolvimento onde a presença do Estado seja forte. Não me incomoda o tanto que pagamos de impostos, o que me revolta é o baixo retorno diante daquilo que pagamos. A classe média, sobretudo, é assolada com despesas duplas na medida em que contribui com os impostos obrigatórios mais os gastos com plano de saúde, escola particular, sistema de segurança e transporte privado. Ela paga ao Estado por esses serviços que precisa depois contratar no setor privado em virtude de má qualidade do que é executado com recursos públicos. Países com altos indicadores em qualidade de vida como a Dinamarca, Finlândia ou Bélgica arrecadam muito mais que o Brasil em impostos, a diferença, porém, é que lá os serviços públicos funcionam bem. Nesse sentido, zelar e lutar pela melhoria na qualidade dos serviços públicos em geral é a principal bandeira. Concomitante a isso, priorizar algumas agendas políticas é fundamental para alcançarmos um padrão de vida satisfatório e sustentável, porque se os serviços públicos carecem de melhorias e de mudanças, é fato que a sociedade também precisa melhorar e mudar muitas atitudes. Pois cada um de nós tem que ser parte nas mudanças que levarão a todos, não apenas uma pequena parcela da sociedade, a alcançar melhores condições de vida e viver com dignidade. Por isso, a defesa da Cultura, da Economia Criativa e Solidária, do Bem-estar Animal, do Feminismo e da Democracia são bandeiras prioritárias na minha atuação política”.

O Imparcial: O PT, o seu partido, perdeu muito espaço nos municípios, nas últimas eleições, para partidos de direita. O que você vê como necessário para o PT tentar retomar esse espaço?

Gabriela: “Humildade e trabalho. Humildade para reconhecer erros e práticas que podem e devem ser corrigidos. O golpe que culminou no impeachment da presidente Dilma, retirando do poder uma presidente que não cometeu crime algum, teve sustentação numa narrativa construída para marginalizar o PT, demonizar o partido e elegê-lo como o grande responsável pelos vícios e práticas condenáveis da nossa política. Embora o tempo esteja provando o quão injusto foi esse processo, é fato que o PT acumulou erros que ajudaram a sustentar essa narrativa. Assim como nosso trabalho no governo foi o grande responsável para desconstruir preconceitos e ganhar a confiança da população a ponto do presidente Lula ser reeleito em pleno escândalo do mensalão e, ainda fazer a sucessão, é nosso trabalho no Executivo e no Legislativo que ajudará a reconquistar essa confiança. E penso que, com todos os problemas, o governo Edinho em Araraquara é um notório contraponto ao governo Bolsonaro nas questões que demarcam diferenças de projetos. Araraquara conduzida na pandemia é diferente do Brasil conduzido na pandemia em todos os aspectos. E no principal aspecto: o respeito pela vida das pessoas. A chance de continuar trabalhando por Araraquara é o necessário para reconquistarmos a confiança perdida”.

O Imparcial: A candidata acredita que o PT deve manter as quatro cadeiras no Legislativo ou pode perder espaço para partidos conservadores?

Gabriela: “Considerando os acertos do nosso governo, a força pessoal do Edinho e o potencial da nossa chapa que vem muito competitiva, acredito que devemos, no mínimo, manter as quatro cadeiras”.

O Imparcial: Quais ações você destacaria em seu primeiro mandato?

Gabriela: “Como vereadora de oposição, a fiscalização do Executivo foi a tônica do nosso mandato. Denúncias como a má utilização das câmeras de monitoramento pela Guarda Municipal ganharam repercussão nacional e contribuíram para adoção de protocolos pelo Ministério da Justiça aplicados posteriormente a todos municípios do Brasil. Destaco também o trabalho de fiscalização no setor Animal que resultou num TAC pelo Ministério Público do Meio Ambiente em vigor até hoje que impõe uma série de obrigações à prefeitura, garantindo assim recursos e qualidade na prestação de serviços voltados à proteção e defesa animal. A criação da Procuradoria Especial da Mulher na Câmara também foi uma ação importante, resultado do nosso trabalho na presidência da Frente Parlamentar das Mulheres na Câmara”.

O Imparcial: O que você tirou de aprendizado em sua passagem pela área da Cultura da Prefeitura?

Gabriela: “Foram três anos na Cultura, dois anos como presidente da Fundart e um ano como coordenadora executiva de Cultura. Mais cinco meses na Coordenadoria de Bem Estar Animal. O aprendizado é incrível! A lógica da máquina pública, porque, sim, existe uma “lógica” na dinâmica do serviço público cuja compreensão faz toda a diferença especialmente se defendemos mudanças. O orçamento público que, até então, consistia numa peça contábil que me esforçava para entender e poder fiscalizar, aprendi a “ler” como um raio-x que mostra as reais prioridades de um governo, bem como suas deficiências e os resultados que podemos esperar a partir da organização desse orçamento. Minha passagem pela prefeitura foi um aprendizado tão revelador que mudou a visão frustrante que carregava da experiência do Legislativo. A cada “não” às justas demandas de artistas ou população em geral que tínhamos que dar porque “era contra a lei”, mais eu entendia o poder e a importância do Legislativo como instrumento de melhoria na vida das pessoas. Esse aprendizado mudou a visão que tinha sobre a Câmara e inspirou a me candidatar novamente”, finalizou.