Edna Martins acha positiva desistência da Prefeitura para a disputa pelo Legislativo

A pré-candidata à vereadora diz que o PSDB optou por ‘um projeto maior para a cidade, que vá além das eleições’

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José Augusto Chrispim

Dando continuidade à série de entrevistas com os pré-candidatos a vereador de Araraquara, a reportagem conversou com a socióloga e ex-vereadora, Edna Martins (PSDB). A tucana foi a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Araraquara e é uma das fundadoras do Cedro Mulher.

Edna era nome certo para a disputa pela Prefeitura de Araraquara nas eleições que ocorrem em novembro, inclusive seu nome foi anunciado em evento na Câmara Municipal, no ano passado, pelo deputado Marcos Vinholi (PSDB), como a candidata do partido na cidade. Porém, nos últimos meses, ocorreram várias conversas entre partidos de oposição ao Partido dos Trabalhadores na cidade, e o PSDB acabou abrindo mão de ter a sua candidata própria para o Executivo e decidiu apoiar a candidatura única do ex vice-prefeito Coca Ferraz (PSL).

Edna Martins concorreu à Prefeitura nas últimas eleições, em 2016, ficando em segundo lugar com 28.595 votos. A tucana agora disputa uma das 18 cadeiras do Legislativo araraquarense.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

O Imparcial: Como o partido do governador João Doria, que deve ser candidato a presidente em 2022, vê a falta de uma candidatura própria a prefeito em Araraquara?

Edna: “O PSDB vê com naturalidade a coligação em torno do pré-candidato Coca Ferraz. O partido entra na eleição majoritária abrindo mão da cabeça de chapa. O movimento que o PSDB faz agora é reunir essas forças políticas em torno de um novo projeto para Araraquara. Dentro deste projeto assumimos o compromisso de qualificar e fortalecer o Legislativo. A coligação dos partidos que tem Coca como pré-candidato a prefeito busca melhorar a capacidade de gestão da Prefeitura, reconectar a cidade com as forças políticas estaduais e nacionais em busca de seu desenvolvimento. Estamos construindo um projeto político para além das eleições. A cidade é um organismo político vivo que precisa ser planejado a todo o momento”.

O Imparcial: No ano passado, houve um grande evento na Câmara Municipal, onde o deputado Marcos Vinholi lançou a sua candidatura para a Prefeitura de Araraquara, além disso, foi assegurado que o partido não negociaria seu nome, mas, sim as alianças. O que você entende que aconteceu com a grande frente de oposição ao PT que o PSDB de Araraquara anunciou que estava capitaneando, com você na cabeça de chapa?

Edna: “Nesse momento, nós temos um horizonte de até 8 candidaturas disputando a Prefeitura de Araraquara. Isso é um erro. Não existem oito ideologias políticas atuantes na cidade. O PSDB optou por não fazer a disputa só pelo poder, mas tentar construir uma força política para um projeto maior, colocando Araraquara sempre em primeiro lugar e deixando de lado vaidades e disputas pequenas que não ajudam em nada nossa cidade”.

O Imparcial: Devido à pandemia do novo Coronavírus, o corpo a corpo da campanha eleitoral nas ruas da cidade deve ser menos intenso este ano. Você acha que isso vai favorecer os candidatos que possuem mandatos? Caso sim, como contornar isso?

Edna: “Não é necessariamente um mandato que vai garantir a reeleição. Haverá certamente uma redução do contato pessoal e direto com o eleitor, mas as alternativas a isso, as redes sociais, eu penso que são ferramentas democráticas e acessíveis. Agora, essa eleição tem outro complicador que é a proibição da coligação de partidos para a eleição de vereadores. Cada partido vai lançar uma chapa completa e haverá uma capilaridade muito grande de candidatos. O tempo de campanha é muito curto, isso talvez, pode beneficiar o candidato que já tiver uma boa rede de relações sociais e alguma exposição pública. Mas isso só será positivo se o candidato tiver alguma representatividade e inserção na comunidade”.

O Imparcial: Apesar do fim das coligações, agora o partido que não atinge o quociente, participa da divisão da “sobra” nos termos da nova redação do artigo 109, parágrafo 2 do Código Eleitoral, dada pela Lei 13.488/2017. Você acredita que teremos mais partidos na próxima legislatura ou entende que os grandes continuarão com a maioria das cadeiras?

Edna: “Acredito que a tendência é concentrar os vereadores eleitos em um número menor de partidos. Partidos com maior estrutura, densidade eleitoral e penetração na comunidade continuarão sendo mais votados”.

O Imparcial: Você acredita em uma maior bancada feminina na Câmara no ano que vem? Qual é o peso disso para a política local?

Edna: “A presença das mulheres na política de Araraquara é pequena, mas expressiva. A maior votação de vereador do município é de uma mulher. Deodata do Amaral se elegeu com mais de 4 mil votos em 2001, um marco histórico da política local. Essa legislatura também teve a maior bancada feminina. Dos 21 vereadores eleitos, éramos em cinco mulheres, quase 25% da Casa. Desde então, a representatividade feminina recuou. Hoje, dos atuais 18 vereadores, apenas duas são mulheres, 11% da Casa. No Brasil, as mulheres ocupam 12% dos 70 mil cargos eletivos. Por outro lado, nós mulheres somos 44% dos empregados formais; chefiamos 40% das famílias. Em Araraquara nós somos 52% do eleitorado. Então, isso significa que a maior parte da população está à margem da elaboração de políticas públicas. Essa sub-representação é particularmente injusta se considerarmos que as mulheres são as que mais diretamente recorrem aos serviços públicos municipais. Elas estão na linha de frente acompanhando os filhos nas creches, nas escolas, frequentando as unidades de saúde. Veja, nesse momento, há um intenso debate na sociedade sobre questões complexas como assédio, violência sexual, e maternidade. Nós mulheres, justamente as maiores interessadas nesses temas, estamos politicamente sub-representadas. Eu acredito que as cotas partidárias com financiamento de candidaturas femininas é uma tentativa de corrigir essa distorção. Como presidente do PSDB Mulher do Estado de São Paulo, estamos fazendo uma série de eventos e disponibilizando ferramentas para aumentar a participação da mulher na política. O PSDB reforçou esse compromisso no último congresso de 2019 como uma de suas bandeiras, aumentar a eleição de nossas candidatas. Tenho certeza que isso vai se refletir na nossa Câmara Municipal e será excelente para a cidade”.

O Imparcial: Em caso de reeleição do atual prefeito, e se você se eleger vereadora, a oposição a Edinho Silva será mais intensa do que ocorreu nesse mandato?

Edna: “Como vereadora, eu sempre pautei meus mandatos pela qualificação e capacitação política. Tivemos iniciativas importantes como a Escola do Legislativo, abrimos discussões sobre planos de carreira dos servidores, criamos as audiências públicas do orçamento, participamos ativamente da revisão do plano diretor. A Câmara tem a missão de fiscalizar o Executivo e, as vezes ao exerce-la, isso pode ser um ponto de atrito com a Prefeitura, mas temos que ir além disso. O vereador tem a prerrogativa de ouvir a sociedade e transformar as demandas em políticas públicas efetivas. A Câmara zela para que a Prefeitura atenda a esse cidadão representado pelo Poder Legislativo. Eu acredito que essa função do legislativo é melhor exercida de acordo com sua capacidade de promover o diálogo entre as pessoas e as instituições políticas. Quanto mais qualificada a Câmara maior sua capacidade de exercer sua função”.

O Imparcial: Você que já foi presidente da Câmara Municipal e disputou a prefeitura de Araraquara, qual seria sua motivação para um novo mandato como vereadora?

Edna: “O que me motiva é sempre a vontade de trabalhar para melhorar a vida das pessoas. A Câmara Municipal não tem uma função estática. Ao contrário deve responder às necessidades da cidade a cada momento histórico que vivemos. O próximo período coloca novos desafios. Teremos que enfrentar um momento delicado onde a geração de emprego e renda e o empreendedorismo estarão no centro do debate. A questão sobre a inclusão digital deverá também ser pautada pois não podemos permitir que a desigualdade se transforme em desigualdade de acesso as informações e conhecimento. É claro que temas como a violência doméstica continuam na ordem do dia e necessitam de muita reflexão e aprimoramento das políticas públicas para seu enfrentamento. Assim como tornar Araraquara uma cidade com acessibilidade para os que têm dificuldade de mobilidade é uma questão urgente. Juventude e oportunidades, combate às drogas, garantia de direitos, respeito às diferenças são sempre temas que exigem inovação, conhecimento e atenção. As tarefas são imensas e todas nos dão motivação para o trabalho”.

Trajetória política

“Como socióloga e professora, o tema sobre as mulheres sempre me acompanhou. Essa mobilização ganhou corpo com as mulheres da cidade e foi por isso que nasceu o Cedro Mulher, a entidade que fundei e fui a primeira presidente. Me elegi vereadora em 2001, fui a primeira mulher a presidir a Câmara Municipal e articulei vários projetos importantes, entre eles o projeto que deu origem ao protocolo de atendimento à mulher vítima de violência em Araraquara. Aprovei projetos que criaram a assessoria de políticas públicas LGBT, programas de parto humanizado, a incorporação do grafite como manifestação cultural, a Parada Segura, a Escola do Legislativo, o IPTU Social. Coordenei a revisão do Plano Diretor que, pela primeira vez, foi discutido nos bairros da cidade.

Até o mês passado, ocupei a Coordenadoria Regional da Secretaria de Desenvolvimento Regional do Estado de São Paulo. Articulei a vinda do Escritório Regional do Governo para Araraquara. Fazia a ligação entre as Prefeituras da região e inúmeros programas estratégicos do Estado para atender a população nesse momento difícil que estamos atravessando”, relatou.

Política como espaço de diálogo

“Em 2016 apresentei um projeto para Araraquara que foi aprovado por quase 30 mil pessoas. Esse projeto tinha como principal objetivo cuidar das pessoas. Aproximar centro e a periferia. Dialogar com os empresários e os trabalhadores. Com homens e mulheres. Essa é minha luta. Fazer da política um espaço de diálogo que seja capaz de construir pontes ao invés de muros que dividem nossa cidade. Nos últimos tempos estamos assistindo políticos que governam apenas para uma parcela da sociedade. A arte da política está em governar para todos. Eu convido todos vocês a curtirem minhas redes sociais e a fazerem parte da construção desse novo caminho. Um caminho de respeito ao diferente, de construção de espaços de diálogo e de novas alternativas para fazer de Araraquara uma cidade moderna, segura e gostosa de viver”, finalizou a pré-candidata.