Aumenta o número de mulheres na Câmara Municipal de Araraquara

Pela primeira vez na história, cidade elege uma legítima representante do público LGBT

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José Augusto Chrispim

Com 55,3% de abstenções, cerca de 122, 3 mil eleitores compareceram as urnas no último domingo (15). Entre os 18 candidatos que conseguiram os votos necessários para se elegerem para a legislatura 2021/2024, três são mulheres e uma é mulher trans. Na atual legislatura, apenas Thainara Faria (PT) – que se reelegeu-, e Juliana Damus (PP) representam as mulheres na Câmara Municipal de Araraquara.

Pela primeira vez na história da cidade uma candidata mulher trans foi eleita vereadora. A jovem Filipa Bruneli, de 28 anos, recebeu 1.119 e deve representar o público LGBT na Casa de Leis.

O Imparcial conversou com as novas representantes do Legislativo araraquarense para saber como esperam representar os munícipes a partir do próximo ano.

Veja as respostas das novas vereadoras:

Fabi Virgílio (PT) falou sobre o que chamou de sub-representação da mulher na política

O Imparcial: Para você, qual é a importância da presença feminina na Câmara Municipal?

Fabi: “Sempre houve um “pacto tácito” na sociedade humana em que foram relegados a nós mulheres os espaços privados, sobretudo o ambiente doméstico, e os espaços públicos relegados aos homens. Historicamente, a quebra desse paradigma social é acelerada principalmente em razão da 2ª Guerra Mundial, ou seja, muito recentemente.
No campo político, entretanto, essas mudanças foram ainda mais lentas. Para se ter ideia da disparidade de representação, ainda em pleno século XXI, nós mulheres, no Legislativo, somos apenas 17% na Câmara Federal. Aqui em Araraquara, as mulheres representam somente 11% da Câmara Municipal. Se pensarmos nos quadros diretivos dos partidos políticos e nos órgãos de comando das Casas Legislativas essa representação é substancialmente menor.
É inconteste a sub-representação feminina nos quadros políticos. Somos maioria da população! Sempre me questiono: que representatividade é essa e, principalmente, quais as consequências dessa sub-representação para a nossa sociedade? Só a título de exemplo e questionamento, será que é mera coincidência que países como Alemanha, Nova Zelândia, Taiwan, Noruega, Islândia, que têm mostrado melhores resultados nas posturas de combate ao COVID-19, sejam governados por mulheres? Para mim, é óbvio que não é coincidência.
A mudança dessa estrutura e paradigmas enraizados de uma sociedade patriarcal não ocorre da noite para o dia. Acho que nossa geração tem uma grande responsabilidade sobre isso. Está na hora de mudarmos esse cenário de leis sendo escritas e ditadas exclusivamente por homens.
Este ano, nossa chapa do PT foi maravilhosa!  De 27 nomes que compõem a chapa 15 são mulheres! Ou seja, nunca na história de nosso partido, o Partido dos Trabalhadores, e chuto dizer que de qualquer partido no país, tivemos tantos nomes de mulheres numa campanha. Muitas de nós apenas cumprem a cota de 30% como obrigação e não como resultado da efetiva participação feminina. Dessas 15 mulheres, há mulheres cis, mulher trans, mulheres negras, mulheres jovens. Enfim, carrego comigo muito orgulho por estar nessa chapa e digo: todos os nomes de mulheres são fortes, de trajetória de vida e de luta! E foi dessa maravilhosa chapa que três mulheres incríveis foram eleitas. Muito me honra ter a oportunidade de ser uma delas.
No meu entendimento, a representatividade equilibrada é fundamental, sobretudo no Legislativo, uma vez que as políticas públicas são criadas e aprovadas pelos órgãos legislativos.
Araraquara elegeu quatro mulheres, três do PT e uma do PDT. Em percentual, isso significa um aumento de 50% se comparado à eleição de 2016, mas esse número ainda não é o ideal. Precisamos ter mais mulheres na política e em espaços de decisão, pois o ideal é termos metade das cadeiras – ou seja, 9 no caso de Araraquara – para iniciarmos uma discussão sobre igualdade de gênero. Honro aqui todas as mulheres que desbravaram e nos abriram as portas, e tenham a certeza de que estaremos abrindo cada vez mais portas até sermos de fato uma sociedade igualitária. Esse século será certamente nosso! Será feminino e feminista!”

O Imparcial: Qual será a sua principal linha de trabalho na Câmara?

Fabi: “Ter ouvidos e olhos atentos para a população, assim como buscar ampliar o direito à cidade com justiça social. Quero fazer um mandato participativo, com um conselho popular composto por homens e mulheres que me acompanham na militância e estiveram juntos comigo na construção dessa candidatura. Quero que outras pessoas se aproximem deste mandato e venham somar com ideias e propostas para projetos e políticas públicas inclusivas para a nossa cidade. Quero ser ponte para o diálogo com os demais parlamentares para que possamos pensar sempre no melhor para Araraquara”.

O Imparcial: Você vai defender alguma bandeira em seu mandato? Qual será?

Fabi: “Teremos três frentes de trabalho e atuação, de acordo com o que propusemos na campanha: Cultura e Educação, Mulheres e Justiça Social.
Nossa principal defesa será sempre pela justiça social, que contempla as minorias sociais. Defenderei a implantação de programas e projetos que viabilizem o acesso à justiça social de maneira coerente como o Bolsa Cidadania, um exemplo a ser seguido e que precisa ser ampliado diante do momento delicado que vivemos, com crise econômica e muito desemprego.
Também quero propor programas de geração de emprego e renda, de moradia digna, de combate à violência contra a mulher, criança e idoso, de combate à violência contra a população LGBTQIA+ e de combate ao racismo, contra a exploração sexual e o trabalho infantil.
Para Cultura e Educação, penso que, enquanto brasileiros e araraquarenses, somos uma sociedade privilegiada culturalmente falando, repleta de manifestações da nossa diversidade e pluralidade. No entanto, ainda há muito a ser feito na defesa desse patrimônio e de seus potenciais como instrumentos transformadores e emancipadores. Entre os meus principais projetos estão a ocupação dos espaços públicos para manifestações culturais e artísticas e catalogação dos nossos artistas e suas artes para termos um mapa do fazer cultural em Araraquara.
Durante a pandemia, os casos de violência contra a mulher tiveram aumento de até 50% em alguns lugares do Brasil e do mundo na comparação com o mesmo período do ano passado. Esse dado só demonstra que vivemos em uma sociedade em que o machismo está arraigado e que é preciso ter uma estrutura institucional para prevenir os casos de agressão física, moral, psicológica, para dar segurança às nossas mulheres e para acolher e cuidar de quem foi vítima de violações. Tenho projetos para melhorar a rede de proteção e atendimento às mulheres da nossa cidade e, para além da discussão de violência, é preciso pensar na qualidade de vida, trabalho, maternidade (ou não), dentre tantos outros temas importantes e que precisam de atenção do Estado quando falamos sobre mulheres”.

O Imparcial: Em sua opinião, quais são os principais desafios do Legislativo no período pós-pandemia?

Fabi: “Acredito que o maior desafio é buscar ampliar políticas de proteção à vida. Em sete meses, mais de 500 novas famílias foram inseridas no Cadastro Único em Araraquara. O número de famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza saltou de 14,4 mil para 14,9 mil, de janeiro a agosto deste ano, ou seja, o grande desafio daqui e do mundo é proteger as pessoas para garantir a dignidade humana”, finalizou.

Para Filipa Bruneli, seu mandato representa a ocupação de um espaço que já serviu de opressão a seu corpo

O Imparcial: Para você, qual é a importância da presença de um representante LGBT na Câmara Municipal?

Filipa: “De extrema importância, além de levarmos o debate de gênero e sexualidade para o espaço do Legislativo, seremos a primeira travesti a pisar neste espaço com uma expressão de votos alta. É nós, minorias políticas ocupando um espaço que até ontem serviu de opressão a nossos corpos”.

O Imparcial: Qual será a sua principal linha de trabalho na Câmara?

Filipa: “Nossa principal proposta é a transformação política, é resinificarmos a forma de fazer política em Araraquara, com transparência, respeito e, acima de tudo, valorizando a participação popular”.

O Imparcial: Você vai defender alguma bandeira em seu mandato? Qual será?

Filipa: “Sim, nossa principal bandeira é a luta pelos direitos humanos, com ênfase na população LGBTQIA+, mulheres, população negra e juventude”.

O Imparcial: Em sua opinião, quais são os principais desafios do Legislativo no período pós-pandemia?

Filipa: “O principal desafio será o socioeconômico, precisaremos pensar formas de equiparar os impactos acometidos aos araraquarenses, pensando desde os empreendedores até as famílias em extrema vulnerabilidade social. Infelizmente a pandemia deixará marcas em nossa sociedade que estão para além da dor da perda das vítimas, até a potencialidade da miséria”, concluiu.

Luna Ayan Meyer (PTB) quer incentivar mais candidaturas femininas

 O Imparcial: Para você, qual é a importância da presença feminina na Câmara Municipal?

Luna: “Essencial. Sem ela não há democracia de fato. Precisamos de diversidade, de classe, de cor, de gênero, um tipo só de pessoa como é normalmente, o homem branco, hétero e com boa condição social não representa os reais interesses da sociedade como um todo. Fico imensamente feliz com as quatro mulheres que se elegeram, poderiam ser mais, mas já houve um aumento significativo. Um dos meus objetivos no meu mandato será incentivar e viabilizar mais candidaturas femininas através da minha experiência”.

O Imparcial: Qual será a sua principal linha de trabalho na Câmara?

Dialogar para construir, seja com o povo ou com o Executivo.

Luna: “Projetos de lei, indicações e fiscalização feitos de forma clara e limpa. Por minha formação em comunicação, vou atuar de forma bastante midiática e em constante contato com a população sendo de fato uma representação da mesma”.

O Imparcial: Você vai defender alguma bandeira em seu mandato? Qual será?

Luna: “A proteção animal me destacou e é meu principal trabalho, mas que fique claro, minha luta é progressista. Meus esforços serão empregados onde forem necessários. Sem rabo preso. Sem partido ou político de estimação. Com diálogo, respeito e diversidade. Sou mulher. Autônoma. Me virando com auxílio na pandemia. Tenho dois filhos adotivos e negros. Sou lésbica casada com outra mulher. Quase vegana. Cristã. Espiritualista. Tenho consciência de classe e luto diariamente por mais empatia. Quero dignidade, educação e trabalho pra cada cidadão de Araraquara. Serei a voz e a orientação para quem precisar”.

O Imparcial: Em sua opinião, quais são os principais desafios do Legislativo no período pós-pandemia?

Luna: “Criar meios de ajudar as pessoas/empresas a se levantarem financeiramente e estruturar a educação para que ela possa seguir acontecendo”, relatou.

Thainara Faria: Nosso mandato continuará caminhando ao lado do povo

O Imparcial: Para você, qual é a importância da presença feminina na Câmara Municipal?

Thainara: “É fundamental que a Câmara reflita a sociedade, se temos a maioria de mulheres na sociedade, essa realidade deveria se refletir nas câmaras de todo Brasil. Isso se aplica a negros, LGBTQIA+ e tantos outros perfis do povo. As mulheres são fundamentais para que a democracia se concretize na política, mulheres que são diferentes, pensam diferente, são mães ou não, cristãs, umbandistas ou ateias, todas devem estar representadas na política”.

O Imparcial: Qual será a sua principal linha de trabalho na Câmara?

Thainara: “Continuarei sendo guiada pela Constituição Federal, valorizando o diálogo e a construção coletiva. Nosso mandato continuará caminhando ao lado do povo. Construindo, conversando, organizando a luta pela garantia de direitos”.

O Imparcial: Você vai defender alguma bandeira em seu mandato? Qual será?

Thainara: “Desde o primeiro dia de mandato na câmara defendi as mulheres, negros, jovens, LGBTQIA+, direitos sociais, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência entre outras pautas que estavam esquecidas ou abandonadas. Seguiremos deste lado da sociedade, do lado dos mais vulneráveis, daqueles que não tem voz. Tanto na propositura de leis como na atuação e apoio ao governo, lutaremos pela garantia de direitos dos que mais precisam!”.

O Imparcial: Em sua opinião, quais são os principais desafios do Legislativo no período pós-pandemia?

 Thainara: “Os desafios são os mesmos que se colocam agora. Precisamos fazer com que o povo compreenda a nova maneira de comprar, trabalhar e viver em sociedade. Novas leis surgirão. Precisamos apontar para o desenvolvimento sustentável, combate à violência e a fome. Não podemos recuar nestas pautas. Devemos fortalecer o SUS, discutir com a sociedade a importância da saúde pública, universal e gratuita. Penso que muitos desafios virão e estaremos prontas para enfrentá-los com muita coragem, capacidade e competência”, concluiu.