A mais jovem e primeira vereadora negra de Araraquara prega respeito às minorias

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José Augusto Chrispim

Dando prosseguimento às entrevistas com os vereadores da Câmara Municipal de Araraquara, o jornal O Imparcial ouviu esta semana a vereadora Thainara Karoline Faria (PT). Ela, que é formada em Direito e cursa a pós-graduação em Direito Constitucional, foi a vereadora mais jovem eleita em Araraquara, na época com 21 anos, e a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira no Legislativo araraquarense.

A petista vê seus quase três anos de mandado com uma experiência inovadora tanto para ela quanto para a própria Câmara Municipal. “Eu vejo meu mandato como pioneiro em vários sentidos como, por exemplo, quando instituímos a primeira Câmara técnica que não havia ainda, além disso, pela primeira vez a Casa de leis recebeu algumas lideranças de religiões de matriz africana, muitas mulheres, o que faz a gente perceber que o nosso mandato faz a diferença pela questão da representatividade. As pessoas veem que podem ingressar na Câmara. Nós demos uma repaginada também na Escola do Legislativo, onde conseguimos com a prefeitura ônibus para levar alunos de duas escolas por mês para participar do projeto durante 6 meses, onde tivemos a participação de mais de 300 alunos que participaram de atividades sobre a política municipal, estadual e federal. Tivemos 17 projetos de lei nossos aprovados, fora os que a gente ajudou a aprovar, foram 227 bairros fiscalizados com a proposta de ouvir a população e dialogar sobre as demandas, foram 7 audiências públicas, 1.111indicações, 74 órgãos públicos fiscalizados, entre eles, creches, escolas, postos de saúde, secretarias, para entender o que estava sendo feito e ver as reclamações que a população nos trouxe, pois é o nosso papel de fiscalizar. Fizemos também 277 requerimentos, 41 atividades desenvolvidas com a população, pois nos propusemos a fazer um mandato participativo, então a pessoa chega e fala que está com problema de meio ambiente, por exemplo, o que nós vamos fazer? Chamar uma audiência pública, fazer um requerimento para o prefeito? Isso empodera a população das ferramentas que ela tem para nos cobrar , pois somos só os instrumentos lá dentro para que a população possa exercer sua cidadania. O que é o político senão aquele que abre mão da própria vida para que as pessoas continuem trabalhando, estudando, comendo, enquanto uma pessoa cuida dos interesses dela. Então a nossa proposta de estar com a população é para nos aproximar dos problemas reais e não ficar dando tiro no escuro, achando que a gente sabe o que é melhor para a população. A gente quer é ouvir e construir conjuntamente”, avaliou a vereadora.

Autonomia para as mulheres

Thainara acredita que uma de suas maiores conquistas até agora foi o projeto de inserção das mulheres com idade acima dos 45 anos no mercado de trabalho. “Tenho algumas conquistas ao longo do meu mandato, mas acredito que a principal é o projeto de inserção da mulher acima de 45 anos no mercado de trabalho, porque nós temos R$ 1,3 milhão de emendas para destacar também, mas uma emenda quando não tem um acompanhamento, um trabalho em cima dela, ela é apenas uma verba federal que veio para o município que pode se perder com o tempo se ela não for bem trabalhada, então, este projeto vai atender as mulheres que muitas vezes foram vítimas de violência doméstica, foram excluídas do mercado de trabalho pelo fato de terem filhos, assim ele vai servir para inseri-las de volta no mercado econômico, dar poder de autonomia mesmo. Eu acho que isso é importante porque ele é um projeto que não vai passar com o tempo, ele fica para o município para ser trabalhado independente de o nosso mandato existir ou não. Outro ponto importante do meu mandato foi a conquista junto ao deputado federal Carlos Zarattini (PT) da verba de R$ 1 milhão para a área da saúde, que foi utilizada para construir a Unidade de Saúde da Família no Jardim Victório De Santi II, que custou R$ 750 mil, além de outra verba de R$ 300 mil para a Educação. Essa verba foi mandada para o orçamento participativo que escolheu a reforma e ampliação do CR Rosa Bróglio, no Jardim Ieda. Outra conquista foi a sala bilíngue que funciona na Escola Olga Ferreira Campos, onde as pessoas com deficiência auditiva podem ter aulas de libras. Um ponto importante também foi a criação da lei de transição de governo e da transição dos conselheiros tutelares que, agora são obrigados a passar as informações que têm sobre os atendidos para os novos conselheiros”, destacou.

O diálogo é importante

“Eu já esperava que as coisas viriam como vieram, eu não confio nos demais políticos. A população eu compreendo completamente a ignorância de não saber sobre o assunto política e cobrar. Eu sabia que teria algumas cobranças indevidas, pois a democracia não é aquilo que eu acho que é certo ou que o PT acha que é certo apenas, é exatamente ter a direita, a esquerda, o centro e todo mundo dialogar, porque existem parcelas da população em todos os lados, então eu falo que a Câmara é totalmente o reflexo da população. Por isso, se tem gente lá que defende ideias que eu acredito que são retrógradas ou violentas é porque existem pessoas na sociedade que também defendem estas ideias, por isso é sempre importante o diálogo, a construção. Nada me surpreende mais na política”, falou.

Coragem da juventude

Questionada sobre sues pontos fortes, a vereadora destacou sua coragem para encarar as dificuldades. “Acho que meu ponto forte é a minha coragem que vem com a carga da juventude, mas mesmo assim, com tão pouco tempo na política eu já aprendi que tem certas coisas pelas quais não vale a pena brigar. Eu não quero medir forças com ninguém, eu quero é dar resultados hoje, independente das disputas. O importante é defender tudo aquilo que a gente acredita e que as pessoas que votaram em mim acreditam também. E meus pontos fracos são parecidos com os fortes, pois eu sou negra e isso nos coloca em um impasse, pois para a comunidade negra, a gente não defende a raça tanto como deveria, mas para a sociedade em geral, a gente já defende muito as pautas de pessoas negras, para as mulheres feministas a gente não as defende, já para as outras mulheres nós somos radicais demais. Nunca vamos agradar a todo mundo, então ter a compreensão de ter a coragem de enfrentar é muito importante. Outro ponto forte meu é o de não compactuar com velha política, pois não tenho o rabo preso com ninguém e isso é fantástico, ter a segurança de tudo que faço é muito limpo. Recebo ataques diários por estar a frente das pautas das mulheres, dos negros, dos LGBTs, da juventude, e da criança e do adolescente, que também era um assunto muito pouco falado antes”, ressaltou.

Renovação é necessária

“Penso em continuar na Câmara por pelo menos mais um mandato, penso que tenho um período de contribuição para dar, mas também não pretendo envelhecer na Câmara. Vejo que a renovação é importante e que o ciclo de renovação não está ligado à juventude, mas a renovação de ideias mesmo, os períodos vão se modificando e é natural que as pessoas se modifiquem também para acompanhar essa dinâmica do universo. Antes eu não pensava por causa dos ataques que são muito cruéis por eu ser mulher, jovem, negra, mas eu penso sim, em colocar meu nome para concorrer nas próximas eleições, caso a população entenda que a gente deva continuar e, se caso entender que não devemos, não tem sofrimento não. Antes de apostar na nossa candidatura o eleitor deve pesquisar a vida política de quem está se candidatando, porque muitas pessoas se colocam na política apenas em benefício próprio ou por status, e aí a gente não conquista a igualdade social. Então a população deve escolher políticos que se proponham em se colocar no lugar das pessoas e que vão promover transformação na vida do araraquarense, eu acho que o meu nome deve ser um dos escolhidos exatamente porque nosso projeto político busca equidade social, a promoção das minorias dentro da política, da representatividade. E o eleitor não precisa ser representado exatamente por mim, temos muitas pessoas com projetos bons também colocando seus nomes como candidatos. Eu gostaria muito que os meus eleitores estivessem satisfeitos, pois já cumprimos 90% daquilo que nos propusemos a fazer e, então, tenho segurança que eles sabem que nosso trabalho deu resultado para Araraquara como, por exemplo, uma emenda que eu trouxe para a cidade que é mais que os quatro anos que eu vou ganhar de subsídio nos quatro anos de mandato. Isso representa um ganho para a cidade, não é como muitos que estão aí e só vão a evento para sair na foto, mas não vão atrás de uma emenda, enquanto a gente coloca a mão na massa e faz a coisa acontecer”, relatou.

Vereadores descomprometidos

Thainara entende que na atual conjuntura econômica dos municípios brasileiros, os vereadores precisam funcionar como elos junto aos governos federal e estadual para conseguirem emendas para a cidade, mas não vê comprometimento de boa parte dos edis. “Apesar do isolamento do prefeito Edinho nos governos federal e estadual, ele tem trânsito livre na Câmara dos Deputados, onde o Partido dos Trabalhadores tem a maior bancada, e ele trabalha para trazer recursos importantes para Araraquara, mas não vejo um comprometimento da maioria dos vereadores, inclusive da bancada do PSDB que devia funcionar como um elo com o governador, pois são da mesma linha política dele. Sinto falta disso”, reclamou.

Extinção dos partidos pequenos

“Acho que com o fim das coligações para as chapas de vereadores nas próximas eleições os partidos pequenos terão muitas dificuldades para elegerem alguém. Entendo que essa mudança foi feita para isso mesmo, para extinguir os partidos pequenos aos poucos, para que eles não tenham verbas e recursos, para que as pessoas escolham os candidatos dos partidos maiores. Acho que o curso natural é que os partidos menores sejam extintos em pouco tempo no país. Entendo que os partidos que tiverem mais recursos do fundo partidário conseguirão aumentar suas bancadas e os outros devem perder espaço. Em Araraquara não vai ser diferente, pois os partidos maiores já estão muito organizados, mas o fenômeno do bolsonarismo também deve atingir as eleições municipais no país todo e aqui também, pois a direita conservadora vai eleger muitos candidatos pelo Brasil a fora. Esses partidos estão muito bem organizados, inclusive dentro das igrejas, que são instituições muito fortes no nosso país, e acho que isso vai se refletir na Câmara de Araraquara, porque isso é o desejo de parte da população de ter pessoas como eles representando seus interesses. Um ponto importante é que vão jogar muito dinheiro nos partidos da direita aqui, pois ela já está muita bem articulada com deputados estaduais e federais e, isso, vai refletir nas eleições”, acredita.

Uma sociedade mais igualitária

“Quero deixar uma mensagem de esperança para a sociedade araraquarense e toda a sociedade brasileira, pois amo muito o Brasil. A população precisa se envolver mais na política, não para ir pedir favores, mas para cobrar obrigações e resultados práticos na vida das pessoas. Espero que a população esteja criando uma consciência no sentido de eleger bons políticos, para que possamos ter uma vida mais digna para todo mundo. Para o cara da periferia, o cara do condomínio, o cara que está dentro do presídio, o cara que está trabalhando na rua, para que tenhamos mais respeito, para que a comunidade negra possa caminhar na rua sem racismo, para que as pessoas LGBTs possam ter a segurança de andar sem medo de serem mortas na rua ou de sofrerem qualquer tipo de preconceito, que as mulheres possam andar livremente longe do machismo, da violência doméstica, que a juventude seja livre e tenha perspectivas, pois temos muitos jovens sem nenhuma perspectiva hoje, que as crianças e adolescentes possam de fato gozar da melhor época da vida, que seus direitos não sejam retirados trocando escola por trabalho, pois acredito que quando melhora para um melhora para todos, ninguém precisa perder privilégios ou direitos, pois uma sociedade mais igual é boa para todo mundo”, finalizou.