Tarde plena

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Sentada ao computador procurando em minha alma¬†¬† emo√ß√Ķes¬† para escrever um lindo poema, se poss√≠vel.

Em um repente olho para a janela de onde vislumbrava o lindo jardim. ¬†Eis que um beija flor ¬†com sua delicadeza, aquela sutil delicadeza que a maioria das pessoas ainda desconhecem, ‚Äúcumprimentava‚ÄĚ as flores por onde passava com seu voo delicado , e se ia para outros jardins…quem sabe…

Voltei as teclas, Escrevi um poema ¬†cabisbaixo, descorado, trazendo os mesmos¬† substantivos , todos concretos. N√£o…poemas concretos n√£o chegam a minha alma.

Com um brusco movimento, levantei-me, apanhei meu casaco, pendurado que estava no trinco da porta, minha bolsa, onde apenas uma chave, um lenço, um livro de João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas,  que me encanta e faz pensar.

Desci as escadas que me levariam até a sala de estar. Num gesto nada elegante, joguei a blusa sobre a mesa. Fui até o portão que me dava licença para ter acesso a rua .

Resolvi andar sobre os pedregulhos da cal√ßada onde a marca do tempo ali residia. O mato crescia entre as pedras com uma voracidade. Andei um pouco mais. Quando me deparo com uma pra√ßa, onde o verde era seu pano de fundo…lindo. p√°ssaros gorjeavam, enquanto o perfume das flores resvalavam meu corpo¬† com sutil delicadeza. Eis que uma abelha¬† parece me perseguir. Gostei daquele doce momento. Continuo minha caminhada por entre pedras e pedregulhos. √Ārvores, algumas centen√°rias davam um toque de lembran√ßas de um passado onde o tempo contava sua hist√≥ria.

Eis que uma nuvem ¬†¬†gris,¬† cinza surge por entre¬† outras. Sinal de chuva, pensei. Continuei minha feliz caminhada. Eis que vejo entre pedras brancas, jorrar √°gua l√≠mpida, cristalina. Juntei as m√£os em forma de concha, deixei que a √°gua ca√≠sse sobre elas e com prazer incontido banhei meu rosto como se aquele momento fosse √ļnico.

Uma chuva torrencial começa a cair. Não sai do lugar para me abrigar. Usufrui contritamente aquela benção.

Minhas vestes, meu cabelo, eram qual cachoeira onde a água da  chuva  descia  corpo a baixo.

Usufruía   com carinho aquele momento que nos meus loucos pensamentos,  haveriam de se eternizar.

A sensação era a de renovação.

Ah! O tempo, a noite dava início a seu ciclo. Longe de casa, acenei para um taxi. Entrei, pedi desculpas por molhar o automóvel , paguei  , tendo ainda a  sensação   da chuva a escorrer pelos  meus cabelos.

No dia seguinte , um novo poema escrevi. Desejava que fosse o mais belo que até aquele dia havia escrito. Na mente a paisagem do dia anterior ainda me acompanhava.

Escrevi sim um poema…N√£o o mais belo.

O mais belo poema Deus havia‚ÄĚ escrito‚ÄĚ, e ningu√©m al√©m Dele conseguiria escrever outro que chegasse¬† a seus p√©s. Natureza , seu nome. Sempre amei¬† esse ‚Äúpoema‚ÄĚ, mas nunca o via como tal .

Hoje é o meu preferido.