Omissos e indignados

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Por Luís Carlos Bedran

 

Em outubro de 2020 novamente realizar-se-ão as eleições municipais para os cargos de vereador e prefeito. Essa é uma das vantagens mais importantes da democracia: a periodicidade das eleições, onde os cidadãos e as cidadãs, pelo voto livre e secreto, escolherão os nomes dignos de representá-los em nossa jovem República, que neste ano completará apenas 130 anos no próximo 15 de novembro.

Nem sempre foi assim em nossa História. Por isso mesmo não poderemos perder mais essa oportunidade ímpar: a de votar para renovar ou continuar a manter os quadros atuais dos nossos representantes no Legislativo e Executivo, isso na hipótese de eles quererem candidatar-se à reeleição.Nesse caso poderão ser reeleitos se estivermos contentes com o que se propuseram a fazer para o bem da população e então até mesmo poderão continuar; caso contrário, serão rejeitados.

Mas nem todos os cidadãosexercerão seu direito/dever, apesar de o voto ainda ser obrigatório, pois uns se absterão, outros votarão em branco ou então anularão seu voto. Por quê? Os primeiros, os omissos, porque pouco se importam em ser administrados mal ou bem pelos próximos quatros anos, tanto faz como tanto fez; julgam-se não responsáveis pelo futuro do município.

Os votantes em branco ou os que anularão seus votos, pressupondo-se sejam pessoas conscientes de seus atos, demonstrarão uma revolta, indignação mesmo contra o status quo. Nem tanto contra o sistema democrático, mas especialmente em repúdio àqueles políticos que no passado os decepcionaram e, por isso mesmo, acharão que não mais merecerão seus votos.

Porém, ainda dentro desse universo, muitos agirão por razões inconfessáveis, psicológicas, ridículas até, impossíveis de penetrarmos em seu íntimo. O importante é que os pertencentes a essas três categorias, o que têm em comum é serempessoas que pouco se importarão sobre o que poderá ocorrer na cidade onde vivem, trabalham e têm suas famílias para sustentar.

Por omissão em sentido lato ou por ação negativa, pode-se afirmar que não deveriam viver numa sociedade em que os outros, os por eles responsáveis, aqueles que votarão conscientemente em seus candidatos que os representarão, decidirão o que seria melhor também para eles.

O que significa dizer que faltou a essas pessoas uma formação política que deveria ter sido orientada pela Educação, e não apenas a política, ainda muito precária nesse sentido, o que, na verdade, de um modo geral, apesar de tudo, apesar das recriminações daqueles eleitores responsáveis, da sociedade, mereceriam desculpas por isso.

Pois não são elas as culpadas pela omissão crônica das autoridades, dos nossos governantes, que teriam a obrigação, em nossa República, de lhes darem condições mínimas para votar com conhecimento sobre o que se passa no País e, em especial, nos municípios, a célula “mater”, o lugar onde vivem. Como um exemplo de civismo, característica da nação norte-americana, o que lá existia até há alguns anos nas escolas públicas: o jovem, ao se formar no secundário (“high school”), ao receber seu diploma, recebia também um exemplar da Constituição daquele país.

E não são apenas na internet, nas redes sociais, na imprensa falada ou escrita, em que atualmente ninguém mais mais alegar ignorância sobre tudo o que se sucede em qualquer lugar, que conseguiremos buscar informações. O que é preciso também é que saibamos separar a verdade da mentira que são divulgadas nesses meios.

Se tivermos esse espírito de desconfiança, de dúvida, com conhecimento, será mais fácil termos condições de agir com sabedoria e menores condições de errar, no caso de colocarmos nossos votos nas urnas. E aqueles omissos, os indiferentes, deixarão de o ser, pois aí todos nós, sem exceção, seremos responsáveis.

O povo sabe votar, desde que tenha informações precisas e corretas sobre o que se sucede na cidade onde vive. Caso contrário, a minoria atuante e politizada, que governará a maioria omissa em nosso sistema democrático, não mais terá vez. E é sempre um perigo os governantes, assim eleitos ou reeleitos, deturparem, por interesses pessoais e políticos, os verdadeiros objetivos de uma governança em prol do bem-estar da população.