Liberdade e pornografia

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Por Luís Carlos Bedran

 

Para quem j√° √© um tanto vivido, tem acompanhado a evolu√ß√£o da sociedade mesmo analisando-a superficialmente, n√£o pode deixar de notar sua grande transforma√ß√£o verificada pelo menos nos √ļltimos 20 anos, o espa√ßo de uma gera√ß√£o.

√Č claro que essa mudan√ßa n√£o foi abrupta. Resultou de uma evolu√ß√£o que vem desde o final do s√©culo passado, mas que neste in√≠cio parece estar a atingir um cl√≠max maior. ¬†N√£o apenas no mundo, mas tamb√©m em nosso pa√≠s, que √© o que mais nos interessa e no vis√≠vel comportamento no cotidiano das pessoas.

E a causa de tudo isso √© a liberdade. N√£o √© preciso ser nenhum fil√≥sofo para definir o que ela √©, porque qualquer homem comum do povo sabe perfeitamente o seu significado. Se f√īssemos aprofundar o seu discut√≠vel conceito, a√≠ ent√£o seria muito complicado e n√£o √© o prop√≥sito deste artigo.

N√£o se trata da liberdade prevista no direito objetivo, garantia constitucional de qualquer cidad√£o, ampla e irrestrita depois da Carta Magna de 1988 ‚ÄĒ o que nem sempre foi comum em nossa hist√≥ria ‚ÄĒ, cuja eventual viola√ß√£o, mesmo aquela praticada por quem tem o dever de garanti-la, √© punida legalmente. A liberdade a que nos referimos √© t√£o somente aquela que vivemos no dia a dia normalmente, sem sequer a notarmos, tal como o ar que respiramos, como se ela nem existisse: √© a liberdade pessoal, pr√≥pria, individual.

Pois acostumamo-nos tanto a ser livres, que somente perceberíamos sua existência, ou sua falta, se ela nos fosse negada por um Estado não democrático. E que o nosso comportamento pessoal e livre em sociedade, somente poderia ser tolhido, limitado ou controlado por nós mesmos, íntima e moralmente como adultos, ou então, caso ainda não seja possível por se tratar de uma criança, pela família ou pela religião, o que nem sempre pode ocorrer.

√Č o caso da pornografia, cujo termo, literalmente significa ‚Äúescrever sobre prostitutas‚ÄĚ, mas que se ampliou com o significado de libertinagem ou imoralidade e que est√° facilmente ao alcance de qualquer pessoa, consequ√™ncia da inven√ß√£o cient√≠fica da internet e pela ampla difus√£o do celular. Esse aparelho usado por milh√Ķes de brasileiros e que ningu√©m mais pode dizer que est√° isolado, nem alegar ignor√Ęncia sobre qualquer assunto para satisfazer sua curiosidade.

E aqui não se trata da prática de crimes que a envolvem, previstos em lei e que devem ser punidos os culpados, principalmente no que se refere à pedofilia, cujas crianças devem ser rigorosamente protegidas. Apenas constatar sua extraordinária divulgação, potencializada pela liberdade e popularização da ciência. Que nos levaram a buscar cultura, conhecimento, saber e a nos informarmos sobre aquilo que sempre, desde os primórdios da humanidade, estava escondido e reprimido pela sociedade: a nossa sexualidade.

O que difere a pornografia do erotismo √© que neste exalta-se o amor atrav√©s do sexo, aceito socialmente nas v√°rias formas de manifesta√ß√Ķes culturais. E onde h√° sexo, h√° prazer, independentemente da reprodu√ß√£o da esp√©cie. Tanto o alimento quanto o sexo s√£o necessidades agrad√°veis e fundamentais do ser humano. E a ci√™ncia, pela internet e celular, propiciou o uso e o abuso da pornografia pelo ser humano talvez para tentar descobrir o seu limite er√≥tico.

Se a ci√™ncia levou o conhecimento sexual a todos, satisfez a eterna curiosidade do ser humano sobre o prazer. A ignor√Ęncia deixou de existir. O sexo deixou de ser reprimido, libertou a sexualidade do ser humano. Tudo √© permitido. Tudo o que se relaciona ao sexo deixou de ser pecaminoso. E o controle sobre esse conhecimento tem de ser restrito apenas √†s crian√ßas, a cargo da fam√≠lia ou da religi√£o.

Antes da internet ningu√©m poderia imaginar o qu√£o vasta √© a imagina√ß√£o humana sobre sexo. E o que antes esse conhecimento era exclusivo das classes ricas, dos letrados, hoje popularizou-se. Sexo √© reprodu√ß√£o da esp√©cie: sempre existiu desde os prim√≥rdios da humanidade. Se na Gr√©cia antiga aparentemente n√£o era t√£o reprimido, depois levaram-se as bruxas, consideradas pecadores sexuais, √†s fogueiras da Inquisi√ß√£o na Idade M√©dia. Na √ćndia era considerado sagrado.

Hoje a deturpação do sexo é encontrada na pornografia que alicia a juventude em nosso sistema capitalista, onde o lucro de seus produtores é extraordinário. E dificilmente conseguir-se-á debelá-la. Nem o Estado, com a aplicação da lei quando esta é violada.

Mas a esperan√ßa reside no controle familiar, na orienta√ß√£o dos pais √†s crian√ßas. Porque, depois, para os adultos, quaisquer controles ser√£o in√ļteis enquanto nossa sociedade continuar a ser livre.