Contra a pandemia de fake news, o apoio da sociedade ao bom jornalismo

Por Alexsandro Ribeiro

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Na era da informa√ß√£o, n√£o existe realidade social que n√£o seja mediada. Ou seja, tudo o que nos chega sobre os acontecimentos de relev√Ęncia p√ļblica passa por algum meio de comunica√ß√£o. Quer seja institucionalizado, quer seja compartilhado por redes de contato. Al√©m disso, se tem algo que a hist√≥ria contempor√Ęnea tem nos revelado, √© que a informa√ß√£o √© um dos principais bens de um povo em momento de crise. Assim, neste momento de pandemia, √© importante fortalecer a legitimidade da imprensa como c√£o de guarda da sociedade e incentivar a cultura da responsabilidade no consumo da informa√ß√£o.

Naquilo que diz respeito aos meios institucionalizados como a imprensa e, nela, o jornalismo, cabe a responsabilidade de se pautar pelo interesse p√ļblico e, na figura de uma institui√ß√£o social, fazer a media√ß√£o entre o indiv√≠duo e a sociedade, e entre todos e a informa√ß√£o. Aqui, neste ponto, o que mais temos visto no cen√°rio midi√°tico √© uma cobertura s√©ria, pautada pela rigidez da apura√ß√£o e do trato com os dados.

De forma exaustiva, mas sem recair em um sensacionalismo ou em uma cobertura desgastante, a imprensa, de uma forma geral, tem sido exemplar neste quesito. N√£o somente na cobertura, mas no acesso. Praticamente todos os principais portais de not√≠cias e jornais do pa√≠s abriram suas portas e bloqueios de assinatura para os cidad√£os ‚ÄĒ um conte√ļdo livre e de qualidade para todos. Em outros casos, ve√≠culos rivais, que disputam leitores e consumidores de conte√ļdo, unificaram suas capas na campanha ‚Äújuntos vamos derrotar o v√≠rus: unidos pela informa√ß√£o e pela responsabilidade‚ÄĚ.

A imprensa, que neste √ļltimo ano foi alvo de uma brutal campanha de descr√©dito operada, sobretudo pelo discurso governamental, tem provado de forma geral que seu compromisso √© com a sociedade. De forma un√≠ssona, os jornais combatem a desinforma√ß√£o, promovem servi√ßos p√ļblicos, incentivam o apoio m√ļtuo, fortalecem os la√ßos sociais, consultam especialistas das mais variadas √°reas, confrontam gestores p√ļblicos e cobram iniciativas dos governantes. Enquanto alguns l√≠deres promovem a disc√≥rdia, o discurso da imprensa tem pregado a solidariedade.

Em um momento sens√≠vel como este, em que a sa√ļde p√ļblica e a economia est√£o em evid√™ncia, √© fundamental que a sociedade mantenha fortalecida a imprensa ‚ÄĒ uma das √ļnicas barreiras que impedem a desinforma√ß√£o e o agravamento do quadro de crise. Podemos destacar ao menos tr√™s formas de fazer isso. A primeira, aos que podem, √© apoiar novas assinaturas ou ainda garantir a manuten√ß√£o financeira dos ve√≠culos comerciais e alternativos. A informa√ß√£o de qualidade √© cara, sobretudo quando precisamos que ela seja produzida de forma r√°pida e com conte√ļdo cr√≠tico.

A segunda forma de dar suporte √† imprensa √© multiplicar a informa√ß√£o. Ou seja, √© replicar o conte√ļdo de qualidade, compartilhar nas redes sociais, debater e fazer com que circulem mat√©rias de ve√≠culos consolidados e de respeito. Isso tem uma fun√ß√£o dupla: de promover o nome do ve√≠culo e sua consolida√ß√£o frente √† sociedade e, em segundo aspecto, fazer com que os dados apurados atinjam um p√ļblico maior. Quanto mais pessoas souberem sobre os malef√≠cios de automedica√ß√£o, quanto mais pessoas souberem os n√ļmeros de telefones das autoridades ou ainda sobre as formas de buscar aux√≠lio financeiro de entes p√ļblicos, √© melhor para todos.

A terceira forma √© n√£o dar mais trabalho para a imprensa, que j√° est√° sobrecarregada em apurar as mortes, o n√ļmero de infectados e tornar p√ļblicos os atos governamentais. Nada do que fa√ßamos neste momento diz respeito a n√≥s apenas. Sobretudo quando nossas decis√Ķes e manifesta√ß√Ķes s√£o feitas em um dos principais espa√ßos de di√°logo e de forma√ß√£o de sentido na atualidade: as redes sociais digitais. Se n√£o tem certeza da origem dos dados ou da informa√ß√£o recebida no celular ou nas suas redes, n√£o passe adiante. Duvide de t√≠tulos que prometem informa√ß√Ķes que n√£o existem em nenhum outro jornal, ou de ‚Äúmat√©rias‚ÄĚ que prometam revelar ‚Äúo que a imprensa n√£o tem mostrado‚ÄĚ. √Č muito capaz que a pr√≥pria mensagem recebida seja o verdadeiro embuste.

O exercício de cidadania não está apenas em não compartilhar fake news, mas é também não tolerar desinformação sendo replicada por aí. Se encontrar mensagem falsa na internet, denuncie nos canais das redes sociais, procure nos jornais e agências de fact-checking a informação correta e veicule nos comentários ou nos grupos em que a desinformação foi compartilhada.

Se uma imprensa c√≠nica e demag√≥gica, como alertou um dos principais nomes do jornalismo estadunidense, Joseph Pulitzer, tende a formar um p√ļblico t√£o vil quanto ela, por outro lado uma imprensa que tem atuado sob valores democr√°ticos e pautada pelo interesse p√ļblico deve ser reconhecida pelo exerc√≠cio da cidadania que ela ajuda a promover. N√£o se trata de deixar de lado um olhar cr√≠tico sobre os jornais e as implica√ß√Ķes de suas posturas frente √† sociedade. Mas o de reconhecer sua legitimidade como institui√ß√£o social na defesa dos interesses da popula√ß√£o contra o autoritarismo, os abusos de poder e, sobretudo, contra a ignor√Ęncia.

Alexsandro Ribeiro é professor nos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda do Centro Universitário Internacional Uninter.