Núcleo em Araraquara foi fundamental para expandir testagem para a covid-19 no interior do Estado

Série Unesp Cuida conta as histórias do NAC, fundamental para a resposta à pandemia no interior de São Paulo, e do Cenpe, que mantém apoio psicopedagógico à população da região

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O câmpus de Araraquara da Unesp abriga duas unidades auxiliares cujas atividades têm impactado a comunidade em distintas áreas relacionadas à saúde física e mental da população. Na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), o Núcleo de Atendimento à Comunidade (NAC), que realiza milhares de exames laboratoriais de análises clínicas todos os anos, ocupa um papel central na resposta à pandemia no município. Na Faculdade de Ciências e Letras (FCLAr), o Centro de Pesquisas da Infância e da Adolescência “Dante Moreira Leite” (Cenpe) presta atendimentos a crianças e adolescentes com transtornos de aprendizagem e problemas de linguagem, comportamento e coordenação motora.

NAC e Cenpe integram um rol de unidades auxiliares da Unesp que prestam diversos tipos de assistências em saúde gratuitas aos cidadãos paulistas. Distribuídas por seis câmpus diferentes, essas unidades realizaram 633.867 assistências ou atendimentos em saúde ao longo do ano de 2019 e mantiveram o seu funcionamento mesmo em momentos críticos da emergência sanitária que pôs o mundo em alerta. Neste episódio da série Unesp Cuida, conheça os trabalhos realizados por essas duas unidades auxiliares localizadas em Araraquara, cidade média do interior paulista, a cerca de 275 quilômetros da capital.

O papel de destaque do NAC na pandemia

Quando a covid-19 chegou ao Brasil, os serviços de saúde do Núcleo de Atendimento à Comunidade foram colocados à prova e, após uma rápida reorganização, tornaram-se um pilar de sustentação à ampliação da testagem para a doença, agindo rapidamente para montar a estrutura necessária para oferecer exames de RT-PCR (padrão ouro) para detecção do Sars-CoV-2. Graças à estrutura preexistente e à experiência dos docentes, em cerca de um mês o núcleo já estava pronto para responder à demanda regional.

“Procuramos financiadores externos, como a Embraer, que se ofereceu para que fizéssemos exames de seus funcionários”, relata Ana Marisa Fusco Almeida, professora da FCF-Unesp e supervisora do NAC. “Com esses recursos obtidos por meio do convênio com a Embraer, foi possível comprar insumos para que pudéssemos oferecer o serviço para toda a comunidade.” Atualmente, os exames são feitos também por convênios com os municípios consorciados com a Secretaria Municipal de Saúde de Araraquara.

Enquanto a maioria dos laboratórios demorava até 72 horas para dar o resultado no início da pandemia, o NAC era capaz de soltar o resultado no dia seguinte. A testagem era rápida e o NAC atuou em parceria com órgãos públicos de vigilância epidemiológica responsáveis por tomar decisões sobre o controle da pandemia junto à prefeitura. “Araraquara foi o primeiro município do Brasil a fazer lockdown, provavelmente, porque as decisões eram pontuais e baseadas em dados confiáveis”, diz Ana Marisa Fusco Almeida.

O surgimento do NAC data da década de 1980, a partir de um projeto do Departamento de Análises Clínicas da FCF para fornecer exames laboratoriais gratuitamente para a população. Em seguida, a unidade incorporou o Hemonúcleo de Araraquara, que passaria a oferecer todo o serviço de banco de sangue e hemoterapia da região. “É um centro de referência para fornecer sangue para terapias sanguíneas. São produzidos aqui derivados do sangue, como plasma e plaquetas”, afirma a docente da FCF. O núcleo participa inclusive do desenvolvimento de um projeto sobre a utilização de plasma de pacientes que tiveram covid-19 para o tratamento da doença, em parceria com o Instituto Butantan.

Por meio de um convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS), o NAC atende a 24 municípios que compõem o DRS-II. Nos últimos cinco anos, o Centro de Referência Diagnóstica (CRD) “Professor Doutor Antonio Longo”, que faz parte do NAC, deu assistência para cerca de 340 mil pacientes, atingindo a marca de 2 milhões de exames laboratoriais de análises clínicas nesse período. No mesmo intervalo, o Hemonúcleo recebeu 62.040 candidatos à doação de sangue, com 44.213 bolsas coletadas e 116.840 hemocomponentes produzidos. A unidade forneceu aos hospitais conveniados 80.953 hemocomponentes, realizou 365.633 procedimentos imunohematológicos e 401.192 procedimentos sorológicos.

Recentemente, o NAC passou a contar com mais um laboratório, o Laboratório de Desenvolvimento e Validação de Métodos Alternativos para Avaliação de Segurança e Eficácia de Bioprodutos (LaMABio), que busca desenvolver métodos que reduzam o uso de animais em testes de produtos. Todas essas estruturas fazem parte da Coordenadoria de Análises Clínicas e Hemoterapia (CACH).

O NAC também conta com a Coordenadoria de Fármacos e Medicamentos (CFM), que realiza projetos de desenvolvimento de novos medicamentos e formulações e é composta pelo Centro de Farmacometria e Análises Toxicológicas e pela Farmácia Universitária “Professor Doutor Antônio Alonso Martinez”. Além disso, faz parte do NAC a Coordenadoria de Alimentos e Análise Ambiental (CAAA), composta pelo Laboratório de Análise de Água, o Laboratório de Investigação da Paternidade, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Qualidade da Cachaça e a Unidade de Produção e Desenvolvimento de Derivados de Soja.

Os diferentes laboratórios que compõe o NAC, que englobam atividades de extensão em diferentes áreas da Farmácia, oferecem estágios para alunos de graduação e pós-graduação da FCF, contribuindo de maneira relevante para a formação dos estudantes, com vivências em fármacos e medicamentos, análises clínicas, genéticas, toxicológicas e de alimentos.

“A criação e a manutenção dos núcleos de competência presentes no NAC contribuem fundamentalmente no atendimento imediato à população, dando a resposta adequada da função da Universidade para o desenvolvimento social”, afirma Ana Marisa Fusco Almeida. “Quando aplicado na condição da indissociabilidade nas dimensões de ensino, pesquisa e extensão universitária, promove de forma rápida e eficaz o atendimento à sociedade e constrói habilitações profissionais de qualidade.”

Educação e pedagogia

No âmbito do Cenpe, a outra unidade auxiliar com atendimento em saúde localizada no câmpus de Araraquara, são prestados serviços psicossociais e pedagógicos para a comunidade. Criado em 1977 por professores do Departamento de Psicologia da Educação da FCLAr para atender a solicitações da comunidade acadêmica e também demandas das escolas públicas de Araraquara na área de educação e saúde mental, o Cenpe se tornou, ao longo das últimas décadas, referência no atendimento de crianças com dificuldades e transtornos de aprendizado e trabalha tanto em conjunto com instituições de ensino quanto diretamente com crianças de 4 a 12 anos de idade.

“Os atendimentos realizados são pautados em um modelo de intervenção que tem como base as mais recentes referências teóricas e estratégias adequadas à realidade social e educacional dos usuários, contribuindo para que as crianças recuperem o seu processo de aprendizagem”, afirma Ricardo Ribeiro, professor do Departamento de Ciências da Educação da FCLAr e supervisor do Cenpe.

Em 2019, antes da pandemia, os diferentes tipos de atendimento da unidade auxiliar alcançaram cerca de 5.000 beneficiários. Uma dessas atividades é o Programa de Formação Interdisciplinar na Área de Educação Escolar, em que alunos da FCLAr participam de grupos de estudos e atendem crianças com dificuldades escolares. O centro também oferece uma oficina de estimulação de habilidades para a alfabetização. “Essa oficina foi uma resposta que a equipe do Cenpe encontrou para oferecer algum tipo de atendimento às crianças que estão na fila de espera aguardando o atendimento especializado”, diz Ribeiro. Outra atividade é um Grupo de Orientação a Pais, além de orientações esporádicas a pais, funcionários, alunos e profissionais de escolas da comunidade.

O centro atende ainda alunos da própria Unesp. Estudantes das quatro unidades universitárias do câmpus de Araraquara que estejam passando por situações de emergência podem receber suporte emocional no Cenpe e encaminhamentos para outros atendimentos, quando necessário. Além disso, o centro desenvolve o Programa Qualidade de Vida e Acolhimento junto aos alunos locais. “Esse programa existe desde 2008 e vem se configurando ao longo dos anos como um espaço ímpar de atendimento na área de saúde mental e emocional aos alunos das unidades da Unesp em Araraquara”, afirma Ribeiro.

“Desde o início das atividades do Cenpe, acompanhamos as mudanças sócioeducacionais e institucionais, buscando uma atuação efetiva e de qualidade no ensino, na pesquisa e na extensão, com atividades vinculadas aos cursos de graduação em Pedagogia, da pós-graduação em Educação Escolar e da pós-graduação em Educação Sexual”, diz o docente.

Atualmente, o centro tem trabalhado em conjunto com os docentes do curso de Pedagogia para incluir a prática das atividades de extensão realizadas pelo centro como componente curricular nas disciplinas do curso, o que recentemente foi regulamentado na Universidade com a resolução que deu as diretrizes para a curricularização da extensão universitária.

A pandemia representou um grande desafio para o centro, que precisou suspender as atividades presenciais. “A sua superação só está sendo possível com o empenho de toda a comunidade acadêmica. Por meio da utilização dos recursos de informática, estamos desenvolvendo um conjunto de atividades remotas que tem apresentado resultados bem animadores”, diz Ribeiro. Entre as atividades que migraram para o ambiente online, estão o grupo de mães e pais, as oficinas com as crianças, os atendimentos em psicoterapia breve e o curso de saúde mental.

(Mariana Lenharo/Unesp)