Mulheres da Acácia querem mais segurança

Elas relatam que são ameaçadas por homens que roubam seus materiais recicláveis e chegam até a serem agredidas fisicamente

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As mulheres da Cooperativa Acácia de Araraquara fizeram um manifesto em frente ao Paço Municipal na manhã dessa quinta-feira (23). Elas pediam mais segurança e apoio da população e dos órgãos públicos, pois vivem uma situação de insegurança.

A Cooperativa Acácia de Catadores, Coleta, Triagem e Beneficiamento de Materiais Recicláveis de Araraquara que vai completar 20 anos de sua criação no próximo mês de novembro, hoje conta com 190 cooperados que desempenham um importante papel na proteção do meio ambiente e na construção de uma cidade mais sustentável, além de gerar emprego e renda para muitas famílias. A cidade conta hoje com o serviço de coleta seletiva em todos os bairros e as pessoas já se acostumaram com o chamado das mulheres da Acácia: “Coooleeetaaa”.

Para Marta Joaquim que está na Acácia há 15 anos, a situação vivida pelas trabalhadoras da coleta seletiva na cidade é muito delicada, pois diariamente elas são ameaçadas e, em alguns casos, até agredidas fisicamente por pessoas que furtam e roubam os materiais recicláveis dos ‘bags’ que são usados para armazená-los.

Pedido de ajuda

“Nós chamamos a Guarda Municipal e até a Polícia Militar, mas eles acabam retornado depois para praticarem os furtos ou migram para outros setores onde a coleta está trabalhando. Muitas amigas já foram agredidas moralmente e até fisicamente, chegando ao extremo dos agressores usarem seus veículos como armas contra as cooperadas. Por esse motivo nós resolvemos fazer esse manifesto não só pela nossa segurança, mas também pelas donas de casa que muitas vezes querem coibir os furtos e acabam sendo ofendidas e ameaçadas também. Isso fora o prejuízo que pode chegar a 200 toneladas de material que não chega à cooperativa”, relata Marta.

Catadores autônomos

Ainda segundo Marta, os catadores avulsos já foram convidados para integrarem a Acácia, porém, não aceitaram porque não querem cumprir horário, além de preferirem vender diariamente o que coletam nos ferros velhos da cidade e a cooperativa tem datas certas para o rateio do lucro.

Na Acácia existe um teto de R$ 1.100,00 para cada cooperado, sendo rateado parte desse valor no dia 10 e outra parte no dia 20 de cada mês. Além disso, são somados dias extras (ferido ou domingo), mais horas-extras passando das 17h. Os cooperados também assumiram a manutenção dos maquinários, assim, quando tem sobra de valores no mês, ela é reservada para um rateio de 13° salário.

Leia o Manifesto das Mulheres da Acácia:

“Há vinte anos, com nosso trabalho, conservamos os recursos naturais, geramos trabalho e renda, empregos diretos e indiretos, contribuímos para limpeza da cidade evitando maior poluição do meio ambiente, desenvolvemos a consciência ambiental ao envolvermos a população no processo da Coleta Seletiva Solidária.

Por meio desse manifesto, nós, mulheres da Cooperativa Acácia, viemos pedir apoio e segurança para trabalharmos sem sofrermos violência durante a Coleta Seletiva Solidária. Sofremos diariamente ameaças físicas e verbais, ouvimos xingamentos, roubam e furtam nossos bags, saqueiam os produtos de melhor valor como latinhas de alumínio e como se não bastasse, ultimamente quando tentamos impedir os roubos dos bags com material já coletado jogão o carro para cima da gente, são pessoas que só se fazem de coitados, mas, na realidade são pessoas que estão se apropriando do trabalho que não fizeram.

Para evitar essa situação, contamos com o apoio da guarda municipal, da polícia militar, das donas de casa, mudança na logística com a ajuda dos caminhões para dar suporte no recolhimento dos recicláveis, mas todos esses esforços já não coíbem os roubos e furtos pois essas pessoas não respeitam o nosso trabalho. Sabemos que os ferros velhos colocam seus caminhões e empregados para cometerem novos furtos e roubos. Esses fatos acontecem também na usina de triagem, bolsões e ecoponto.

A lesão causada por essas pessoas, é maior do que se possa imaginar, para além de não atingirmos as metas do contrato, e de não atingirmos as nossas próprias metas, do prejuízo com o alto custo dos bags, temos o impacto emocional com tantas ameaças e violência que estamos submetidas.

Até o grito “cooleetaaa” é motivo de ameaça feitas por homens violentos, armados de facas facão e até armas de fogo. Alguns ficam sentados esperando encher os bags e muitas vezes temos que escutar “o serviço está lerdo vagabundas”.

Essa cultura de separar materiais recicláveis foi instaurada por nós, os trabalhadores da Cooperativa Acácia, e ela não pode parar. “Cooleetaaa” esse grito que deu certo em nossa cidade e que tanto contribui para a preservação do meio ambiente e para o desenvolvimento socioeconômico não pode se calar. Não pode calar porque a maioria de nós somos arrimo de família e necessitamos desse trabalho para o sustento de nossas famílias. Não podemos trabalhar estando expostos a tanta violência, por isso, pedimos apoio das autoridades e população”, diz a nota.

Márcia Lia prestou apoio à Acácia

“A manifestação pública por segurança realizada por cooperadas e cooperados da Acácia, em frente à Prefeitura de Araraquara, acende um alerta para uma situação que não é nova, mas que tem se agravado com a crise econômica. O inadmissível é que a insegurança dessas trabalhadoras e desses trabalhadores, que têm nas ruas o seu local de trabalho em boa parte da semana, coloque em risco não apenas seu trabalho, mas sua própria vida.
A Cooperativa Acácia dá dignidade a esse trabalho que é tão insalubre, mas extremamente necessário, e precisa do apoio da sociedade e das instituições para enfrentar esses desafios”, diz alguns trechos da nota da deputada.