Mesa redonda debate vivências no meio urbano, sustentabilidade e felicidade

A vereadora Fabi Virgílio (PT) mediou o debate intitulado “A felicidade no desenvolvimento da cidade é possível?”

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Você já ouviu falar sobre Felicidade Interna Bruta (FIB), um novo indicador da Organização das Nações Unidas (ONU)? Provavelmente não, mas deve ter imaginado que a pergunta estava relacionada ao Produto Interno Bruto (PIB). Isso porque estamos mais acostumados a falar sobre crescimento econômico do que bem-estar humano. E foi com a proposta de discutir os desafios da experiência humana frente ao desenvolvimento das cidades que a Câmara promoveu a mesa redonda “A felicidade no desenvolvimento da cidade é possível?”.

A conversa, que aconteceu de forma remota na noite da quinta-feira (20), foi mediada pela vereadora Fabi Virgílio (PT), presidenta da Frente Parlamentar pelo Direito à Cidade, e contou com a participação da jornalista Natália Fontes Garcia, do prefeito Edinho Silva (PT), do vereador Marcos Garrido (Patriota), da agente administrativa da Escola do Legislativo (EL) Bruna Brasil, além de interessados no tema, que acompanharam a transmissão pelos canais da TV Câmara de Araraquara.

Vivências na cidade

A partir de uma história de superação pessoal, Natália contou como a mudança de sua rotina, com a inclusão do hábito de ir de bicicleta para o trabalho, foi fundamental para alterar sua percepção da realidade. “Antes eu me relacionava com a cidade como uma enorme superfície de passagem que eu tinha que atravessar o mais rápido possível; depois ela passou a ser fonte de inspiração. Um espaço que tinha muitos problemas dos quais eu me protegia, mas inúmeras potencialidades”, explicou.

A partir de então, Natália criou projetos voltados para a ocupação da cidade, dentre eles o “Cidades para Pessoas”, e traçou passos que resultaram, posteriormente, na escrita do livro “Sete dias no Butão”. Durante o percurso, a profunda experiência pessoal de ter acompanhado a mãe na luta contra um câncer severo até a morte foi importante para que percebesse que “o recurso mais valioso que temos é o tempo de vida humana e, nas nossas cidades, a gente pega esse recurso que é o mais valioso e desperdiça; desperdiça no trânsito, em empregos que não têm sentido, desperdiça mesmo”, argumentou.

Se viver nas cidades pode esgotar a preciosidade da vida e até mesmo a felicidade, por outro lado, as projeções apontam que em 2050, 75% da população mundial viverá em cidades. Diante de um cenário tão paradoxal, é urgente repensar os modos de vida e a ocupação do espaço urbano. E foi em busca de entender se é possível viver de forma harmônica e sustentável que Natália viajou até o Butão, para investigar como viviam os habitantes do pequeno país escondido pelas montanhas do Himalaia.

O país mais feliz do mundo

A fama de felicidade na cultura butanesa é popular e para alcançá-la foi preciso construir parâmetros que não estão necessariamente atrelados ao crescimento econômico, sendo este apenas parte de um todo. “O que chamamos de FIB é uma régua, reconhecível pelo ocidente, para expandir aquilo que consideramos como desenvolvimento. No Butão, além de crescimento econômico, importam o bem-estar psicológico das pessoas, a qualidade do uso do tempo, a vitalidade comunitária (o quanto os vizinhos podem contar uns com os outros), educação, saúde, dentre outros”, explicou Natália.

Realidade no Brasil e em Araraquara

Para Edinho, a sociedade civil, descontente e inquieta, tem buscado caminhos, mas não tem encontrado. Por isso, a democracia representativa brasileira vive uma crise.  “Nós temos uma crise de organização política e econômica, e a pandemia de Covid-19 aprofunda tudo isso e coloca a vida e a valorização dela no centro de tudo. Se a cidade é o centro, e nós queremos a vida humana no centro, significa que o carro não seja o centro, que a mais-valia do solo urbano não seja o centro, que a verticalização da cidade seja questionada”, ponderou o prefeito, que ainda alertou os vereadores que o desafio também está nas legislações municipais. Nesse sentido, o vereador Garrido reiterou a dificuldade do modelo de pacto federativo brasileiro, que é hierárquico, concedendo pouca autonomia aos municípios.

Caminhos a serem trilhados

Foi consenso entre os participantes da mesa redonda que aplicar a régua do FIB no Brasil é um desafio, pois há várias variantes que diferem o nosso país do Butão. A começar pelo tamanho; a população brasileira corresponde a mais de 250 vezes à população butanesa. Dimensões, modelo político, cultura, dentre outras diferenças tornam incomparáveis os modos de experimentar a cidade desses dois países. Porém, se quisermos superar o paradoxo entre morar nas cidades e viver com qualidade de vida, precisamos começar a trilhar políticas públicas diferentes.

Para Edinho, é preciso repensar toda a normatização da cidade, o plano diretor de mobilidade, ocupação de espaços culturais, o transporte público e, também, a educação. “Precisamos enfatizar a responsabilidade na legislação de cuidado com as matas ciliares, com os espaços de cultura, esportes e lazer, os espaços de convívio e educacionais. A escola não pode ser um lugar árido, pois é lá que se inicia a transformação”, defendeu.

“Precisamos ocupar a cidade, estabelecer relações de afeto, afetá-la e nos deixarmos afetar por ela, por suas potencialidades, por suas relações. A cidade pulsa e é necessário senti-la”, finalizou Fabi.

Participação coletiva

Se a cidade é reflexo da sociedade, você é peça chave nessa transformação. Assista ao debate na íntegra e veja como contribuir nesse processo:

https://www.youtube.com/watch?v=19MO3lj6t4A

Por fim, algumas dicas: ande mais a pé, conheça seus vizinhos, preste atenção nos detalhes e viva a cidade. Somente juntos construiremos um espaço urbano melhor.