Guilherme Bianco quer reaproximar as pessoas do Poder Legislativo

‚ÄúDarei todo meu apoio para as pol√≠ticas que considero positivas para nossa cidade, mas tamb√©m n√£o me furtarei de criticar e cobrar quando necess√°rio‚ÄĚ, diz o vereador do Partido Comunista do Brasil

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José Augusto Chrispim

O vereador Guilherme Bianco, considera a primeira elei√ß√£o de um membro do partido Comunista do Brasil (PCdoB) como um fato hist√≥rico para a pol√≠tica araraquarense. Com 25 anos, ele √© um dos tr√™s vereadores mais jovens da atual legislatura da C√Ęmara Municipal de Araraquara, junto de Thainara Faria e Emanoel Sponton, ambos da mesma idade dele. Guilherme, que √© cientista social e ex-diretor da Uni√£o Nacional dos Estudantes (UNE), se elegeu para seu primeiro mandato como vereador em Araraquara com 1.065 votos. O jovem pol√≠tico, que √© um dos representantes da renova√ß√£o ocorrida no Legislativo araraquarense nas √ļltimas elei√ß√Ķes, acredita que o recado dado nas urnas pelos eleitores foi de que a C√Ęmara precisava de uma renova√ß√£o, n√£o s√≥ no tempo de verean√ßa dos edis, mas, sobretudo nas pr√°ticas pol√≠ticas.

Veja a entrevista na íntegra:

O Imparcial: Quais s√£o suas expectativas para seu primeiro mandato como vereador?

Guilherme: ‚ÄúAcredito que meu mandato tem que ser uma ferramenta que reaproxime as pessoas do Poder Legislativo, da tomada de decis√£o na nossa cidade. Durante as elei√ß√Ķes, apresentei um programa muito claro para Araraquara, que abrange v√°rias quest√Ķes que julgo serem indispens√°veis para constru√ß√£o de uma cidade mais justa e igualit√°ria, como a defesa do SUS, da Educa√ß√£o P√ļblica e da gera√ß√£o de emprego. Durante o primeiro mandato, temos muito que aprender ainda, √© tudo muito novo, mas vou trabalhar muito para colocar em pr√°tica essa plataforma de campanha. Al√©m disso, acredito que nos √ļltimos anos o Legislativo se desligou das quest√Ķes pol√≠ticas mais profundas, reduzindo o papel dos vereadores.

O Brasil tem enfrentado a crise mais grave de sua hist√≥ria, em v√°rios setores e ao mesmo tempo. Uma crise sanit√°ria com a pandemia da COVID-19 que j√° fez mais de 210 mil v√≠timas em nosso pa√≠s e com autoridades do Minist√©rio da Sa√ļde que t√™m questionado a Ci√™ncia e a vacina. Vivemos um aprofundamento e uma acelera√ß√£o da crise econ√īmica, com 14 milh√Ķes de desempregados e com v√°rias empresas fechando as portas, veja o caso da Ford. A situa√ß√£o ficar√° mais grave com o fim do aux√≠lio emergencial. E para deixar a coisa mais dif√≠cil, uma crise pol√≠tica ser√≠ssima, liderada pelo Presidente da Rep√ļblica, com ataques di√°rios √† democracia, √† liberdade de imprensa, √†s institui√ß√Ķes e √† ci√™ncia. Al√©m de fiscalizar as a√ß√Ķes do Executivo e legislar, eu penso que o vereador, que √© o elo mais pr√≥ximo da popula√ß√£o, deve se posicionar e ser um representante de opini√Ķes pol√≠ticas que existem na cidade. Vou me esfor√ßar muito para que meu mandato possa reencantar nossa popula√ß√£o com a pol√≠tica, mostrando que a Democracia e o debate s√£o o caminho para transforma√ß√£o social. Vivemos em tempos em que as Fake News, o √≥dio e a intoler√Ęncia t√™m se propagado muito, e ganhado terreno na vida p√ļblica, inclusive elegendo representantes. Mas penso que n√£o posso me furtar a esse debate em um momento t√£o dif√≠cil que vivemos, nosso mandato tem que servir como uma trincheira de resist√™ncia democr√°tica, do movimento popular e social, do di√°logo com a popula√ß√£o e da constru√ß√£o de uma sociedade melhor‚ÄĚ.

O Imparcial: Qual é a linha política que você pretende seguir?

Guilherme: ‚ÄúSou militante de esquerda, e assim como foi durante toda minha vida, seguirei na luta por um mundo mais justo, em defesa dos direitos sociais, dos trabalhadores e de uma vida digna para todos. Meu mandato ser√° guiado pelo programa do Partido Comunista do Brasil, que aponta um projeto de na√ß√£o, um projeto de Brasil soberano e independente, desenvolvido economicamente, com justi√ßa social, que cuide do meio ambiente e que seja profundamente democr√°tico. Quando observamos a organiza√ß√£o do mundo, fica claro que existem poucos pa√≠ses ricos, que s√£o detentores do poder pol√≠tico, militar e econ√īmico, e uma centena de pa√≠ses subdesenvolvidos, com √≠ndices de mis√©ria e pobreza gritantes. O Brasil est√° entre eles, temos milh√Ķes de pessoas que n√£o t√™m teto, saneamento b√°sico e nem acesso a √°gua pot√°vel. N√£o me parece ser razo√°vel, nem racional acharmos justo vivermos sob um sistema em que duas mil pessoas t√™m mais riquezas que as outras quatro bilh√Ķes somadas (dados da Oxfam). O lucro e os interesses privados n√£o podem estar acima da vida e¬† dignidade humana. √Č urgente que lutemos por um mundo e por uma cidade mais justas, menos desiguais, com justi√ßa e democracia. Ainda mais em um momento que o Brasil passa. √Č importante ter lado na pol√≠tica‚ÄĚ.

O Imparcial: Fale um pouco sobre os projetos que você deseja implementar durante o seu mandato.

Guilherme: ‚ÄúQuero atender o m√°ximo de demandas poss√≠veis que estejam de acordo com o nosso programa e com o desenvolvimento de Araraquara. Compreendo que existem necessidades urgentes em nossa cidade, na qual vou dar prioridade, como educa√ß√£o, gera√ß√£o de emprego e sa√ļde.¬†Tenho uma liga√ß√£o muito pr√≥xima com a educa√ß√£o e com a juventude, sou professor, fui bolsista dos nossos cursinhos populares, e vi de perto que a garantia de uma educa√ß√£o p√ļblica, gratuita, inclusiva e de qualidade, garante que a juventude mais carente possa ter oportunidade de ingressar na universidade e transformar a vida da sua fam√≠lia. Por isso, entendendo que a garantia do Passe Livre, da educa√ß√£o em tempo integral, a expans√£o dos cursinhos populares e uma profunda revis√£o curricular e estrutural de nossas escolas, sejam essenciais. A secretaria de Educa√ß√£o precisa continuar com a expans√£o da rede b√°sica de ensino, para zerar a fila das creches, que √© quase um problema end√™mico de Araraquara. Garantir acesso √† educa√ß√£o √© direito constitucional, e devemos cumpri-lo.¬†A pandemia nos mostrou que a exist√™ncia do SUS √© essencial para a esmagadora maioria da popula√ß√£o. Temos diversos problemas de financiamento e lutarei para trazer emendas e verbas para nossa sa√ļde. Contudo, compreendo que devemos universalizar a Estrat√©gia da Sa√ļde da Fam√≠lia para toda nossa cidade, como maneira mais eficiente de cuidar da popula√ß√£o, bem como continuar no processo de moderniza√ß√£o e informatiza√ß√£o da rede b√°sica de sa√ļde. Propostas como essas nos ajudaram a reduzir as filas e otimizar o servi√ßo, com baixo custo aos cofres p√ļblicos. Quando falamos em sa√ļde, o tempo √© elemento crucial. N√£o poderia deixar de mencionar a liga√ß√£o emocional que tenho com o SUS. Sou filho de enfermeira, servidora da Gota de Leite, que teve todo seu tratamento do c√Ęncer feito pelo SUS. Por fim, compreendo que a crise econ√īmica que o Brasil e nossa regi√£o passam √© extremamente grave. Em 2020 o desemprego cresceu muito e Araraquara vive um r√°pido empobrecimento, com o fechamento dos empreendimentos e cortes nos postos de trabalho, sobretudo o dos bairros. Sessenta e cinco mil araraquarenses receberam o aux√≠lio emergencial, que acabar√° agora em fevereiro. Acredito que ser√° exigido de todos n√≥s um amplo pacto pelo emprego, que envolva o Legislativo, o Executivo, o setor produtivo, investidores, trabalhadores e a Academia, para formularmos em conjunto uma agenda regional de desenvolvimento, que abranja todos os setores econ√īmicos. Cr√©dito e microcr√©dito para os micro e pequenos empres√°rios, isen√ß√£o fiscal e outras maneiras de incentivar o reaquecimento da economia s√£o importantes. Temos ferramentas para reverter esse processo, e o estado tem que ser esse indutor do desenvolvimento‚ÄĚ.

      

O Imparcial: Você foi autor da Moção de Apoio à Santa Casa de Araraquara, referente ao corte de 12% na verba a ser repassada a instituição pelo Governo do Estado. Como você acredita que o Legislativo pode ajudar em uma situação como esta?

Guilherme: ‚ÄúAcredito que o Legislativo tem um poder de transforma√ß√£o muito grande em suas m√£os, mas que √© pouco explorado. Levantar quest√Ķes como essa da Santa Casa, evidencia a situa√ß√£o, traz o debate para a sociedade e d√° notoriedade para as autoridades competentes reavaliarem algumas de suas decis√Ķes. O Legislativo n√£o tem poder legal de barrar qualquer decreto seja de √Ęmbito municipal, estadual ou federal, mas temos o dever de nos pronunciar sobre esses assuntos, e nos posicionar fortemente quanto a decis√Ķes que ir√£o prejudicar a popula√ß√£o, como √© o caso do corte de verba da Santa Casa. Espero sinceramente que isso seja solucionado r√°pido, tirar verba da sa√ļde √© grave em qualquer circunst√Ęncia, ainda mais em meio a pandemia‚ÄĚ.

O Imparcial: Para voc√™, qual √© a import√Ęncia do PCdoB ter conseguido eleger seu primeiro vereador em Araraquara?

Guilherme: ‚ÄúAcredito que nossa elei√ß√£o foi um feito hist√≥rico para o PCdoB. Em quase cem anos de exist√™ncia do partido, foi a primeira vez em que elegemos um vereador em Araraquara. Foi fruto de um grande trabalho coletivo, de todos os filiados e dirigentes, que constru√≠ram uma chapa plural e competitiva, resultado de muita constru√ß√£o. O PCdoB √© um partido com programa e princ√≠pios, √© indispens√°vel para nossa democracia. Em meio a essa forte turbul√™ncia que o Brasil enfrenta, apresentamos como sa√≠da a constru√ß√£o de uma Frente Ampla Democr√°tica, que unifique todas as for√ßas vivas da na√ß√£o para defender a democracia, a vida e os direitos. Consideramos que impedir que se concretizem as inten√ß√Ķes de Bolsonaro, que s√£o os ataques a institui√ß√Ķes, as liberdades pol√≠ticas e individuais, o retorno da ditadura, da viol√™ncia, a barb√°rie anti-ci√™ncia, junto de um programa econ√īmico anti-nacional de desmonte da nossa ind√ļstria e do Estado, √© a tarefa de todos que t√™m responsabilidade com o Brasil e com as futuras gera√ß√Ķes. Al√©m de ajudarmos a construir essa Frente Ampla em Araraquara, acredito que o programa que apresentamos nas elei√ß√Ķes tem muito a contribuir na constru√ß√£o da cidade que queremos‚ÄĚ.

O Imparcial: Fale um pouco sobre a sua trajetória na política.

Guilherme: ‚ÄúA minha trajet√≥ria na pol√≠tica come√ßou quando eu ainda era estudante do fundamental. Um pessoal do movimento estudantil passou na minha sala convidando a turma para participar do Gr√™mio da escola e eu topei. Desde ent√£o eu n√£o sa√≠ mais do movimento social. Fui do Gr√™mio da Escola, participei da UMESA (Uni√£o Municipal dos Estudantes Secundaristas de Araraquara) e quando estudava na UNESP fui de algumas gest√Ķes do CAFF (Centro Acad√™mico Florestan Fernandes), fui vice-presidente da Uni√£o Estadual dos Estudantes de S√£o Paulo. J√° em 2017 fui eleito Diretor de Universidades P√ļblicas da UNE (Uni√£o Nacional dos Estudantes), quando tive a oportunidade de viajar para os quatro cantos do Brasil, ajudando a organizar a luta em defesa da educa√ß√£o, que teve seu auge em maio de 2019, quando fomos milh√Ķes nas ruas contra os cortes de Bolsonaro. Participar do Movimento Estudantil me fez mais humano, me formou quanto pessoa e me apaixonou mais ainda pelo Brasil, pelo nosso povo e por essa grande mistura cultural que √© o nosso pa√≠s. Mas tamb√©m me abriu os olhos para as gritantes desigualdades que temos, e me motivou a encarar a luta pol√≠tica de forma mais s√©ria e comprometida. Ser diretor da UNE, que √© uma entidade popular hist√≥rica, √© de uma responsabilidade imensa, mas tamb√©m √© a melhor escola para aqueles que desejam um futuro melhor para o nosso povo. A UNE √© gigante!‚ÄĚ.

O Imparcial: Para voc√™, qual foi o recado que o eleitor deu com a renova√ß√£o ocorrida na C√Ęmara de Araraquara nestas elei√ß√Ķes?

Guilherme: ‚ÄúSe ampliarmos o recorte da an√°lise, j√° em 2016 a renova√ß√£o na C√Ęmara de Vereadores foi bem grande. Penso que as elei√ß√Ķes de 2020 significaram o fim de um ciclo pol√≠tico no Legislativo de Araraquara. T√≠nhamos vereadores com mais de 20 anos de mandato, o que √© muito ruim em v√°rios aspectos, talvez os principais deles seja a incapacidade de renovar a maneira de se fazer pol√≠tica e a n√£o representa√ß√£o real da popula√ß√£o no Legislativo. Na elei√ß√£o do ano passado o recado que as urnas nos deram foi muito forte: era urgente a renova√ß√£o na C√Ęmara, n√£o s√≥ de idade (uma vez que s√≥ havia uma vereadora com menos de 40 anos) ou na representa√ß√£o social dos v√°rios grupos sociais da cidade, mas, fundamentalmente, de pr√°tica pol√≠tica. √Č urgente que a C√Ęmara se reconecte com as pessoas, compreenda suas demandas e aproxime-as das suas decis√Ķes, que √© a Casa do Povo. Al√©m disso, no √ļltimo per√≠odo, Araraquara tinha um Legislativo extremamente ap√°tico no que se refere aos temas pol√≠ticos maiores, estruturais, n√£o haviam debates profundos sobre o que acontecia na nossa sociedade. As pessoas querem ver na C√Ęmara o seu protagonismo pol√≠tico, a formula√ß√£o de programas e pol√≠ticas p√ļblicas, com a capacidade de articula√ß√£o e mobiliza√ß√£o junto √† sociedade. O Legislativo n√£o pode reduzir seu papel apenas √† zeladoria e nomea√ß√£o de rua, ele deve ser o espa√ßo de debate sobre qual Araraquara n√≥s projetamos para o futuro, mas tamb√©m de resolu√ß√£o dos problemas do presente. Tenho certeza que essa nova leva de vereadores eleitos, t√£o diversa e plural, far√° bem para nossa cidade‚ÄĚ.

O Imparcial: Estando na base do governo municipal, o que você espera desse, que será o quarto mandato do prefeito Edinho Silva?

Guilherme: ‚ÄúPenso que o prefeito Edinho fez um bom governo nos √ļltimos quatro anos, resultado demonstrado nas urnas pela popula√ß√£o. Quero muito trabalhar com o governo, ajudando a construir uma Araraquara melhor para todos, ampliando os programas sociais e democratizando a gest√£o p√ļblica. Darei todo meu apoio para as pol√≠ticas que considero positivas para nossa cidade, farei um mandato independente e democr√°tico. N√£o irei minimizar esfor√ßos para a constru√ß√£o nem para o¬† debate, mas tamb√©m n√£o me furtarei de criticar e cobrar quando necess√°rio. Fui eleito para isso. Espero que nesse quarto mandato, o prefeito Edinho d√™ continuidade em seu bom trabalho, cuidando de Araraquara e de quem mais precisa, gerando oportunidades, criando emprego e renda e que coloque nossa cidade como modelo para a nossa regi√£o‚ÄĚ, finalizou o vereador.