Epidemiologista ressalta a importância do isolamento social no combate à pandemia do coronavírus

“Se não realizarmos a redução da mobilidade, continuaremos tendo transmissão; continuaremos com UTIs ocupadas”, diz médico que viveu pandemia da Covid na Espanha

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Em entrevista ao programa Prefeitura em Foco, produzido pela Secretaria Municipal de Comunicação, o médico de família e comunidade Alexandre Medeiros de Figueiredo explica a importância de alcançar um bom índice de isolamento social para conter a epidemia de Covid-19. Segundo ele, com isso, os casos começariam a diminuir após cerca de duas semanas.

Figueiredo é mestre em Epidemiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor da Universidade Federal da Paraíba. Esteve na Espanha no começo da pandemia e agora está de volta ao Brasil.

Para ele, o isolamento social se mostra a medida mais efetiva para controlar o aumento dos casos e das mortes decorrentes de Covid. “E isso foi visto na China, no primeiro surto, que aconteceu em Hubei. Conseguiu-se lá uma redução de mobilidade de 93% e houve uma redução de casos importantes duas semanas depois. Na Europa também aconteceu a mesma coisa na primeira e na segunda onda. Quando a gente conseguiu reduzir na Europa, na primeira e na segunda onda, a mobilidade acima de 70%, você tem uma queda importante no número de casos”, conta.

Professor Figueiredo explica, ainda, que quanto maior a adesão ao isolamento restrito, mais efetivo ele será e, por consequência, menos duradouro. “Os dados da cidade de São Paulo mostram que no início da pandemia, quando se conseguiu uma redução na mobilidade de um pouco menos de 60%, houve uma redução da contaminação e do número de casos e internações. Entretanto, como essa redução de mobilidade não foi tão alta, porque o ideal é que seja acima de 70%, e porque ela durou pouco tempo, houve um novo crescimento do número de casos”, afirma.

De acordo com o médico, para frear a epidemia, o ideal seria que o isolamento atingisse o índice de 70% por quatro semanas, conforme mostram os exemplos de outros países. “Avaliando todos os dados que nós temos, fica claro que se a gente mantém uma redução de mobilidade pequena, de cerca de 50%, a gente não consegue nem resolver o problema da economia, nem consegue resolver o problema da pressão sobre o sistema, da lotação das UTIs e, consequentemente, da perda de vidas, que é a maior preocupação de todos nós”, pontua.

Figueiredo explica que os reflexos do isolamento mais rigoroso, chamado de lockdown, começam, de fato, a aparecer depois de, aproximadamente, duas semanas. “Um dos elementos centrais que a gente precisa compreender é a dinâmica da transmissão de Covid e como as coisas acontecem ao longo do tempo. Essa é uma doença nova, é o maior desafio que a gente tem no último século em relação a doenças infecciosas. E ela tem um comportamento que, primeiro, tudo o que a gente vê de ocupação, de internação em UTI que a gente está vendo hoje é fruto do que aconteceu há, pelo menos, duas semanas atrás. Isso quer dizer que, com os estudos que a gente fez na China, que a gente fez na Espanha, que qualquer alteração na mobilidade só tem resposta depois de duas semanas”, esclarece.

Ter persistência, avaliar os dados dia a dia e compreender a dinâmica da epidemia são fundamentais para conter o avanço da doença, segundo o médico. “A gente precisa ter perseverança, avaliar dia a dia, monitorar dia a dia, tentar organizar arranjos produtivos dentro da economia que consigam, com outros cuidados, manter uma parte da economia aberta, mas sem prejudicar essa redução na mobilidade de 70%, porque, se não, a gente não vai conseguir deter a epidemia e vai ter um prolongamento de tudo o que a gente viu no ano de 2020”, defende.

“A redução da mobilidade é muito triste para as pessoas, gera sofrimento mental, gera transtornos para a economia, entretanto, sem ela nós vamos passar por um período de platô do número de casos e nós vamos continuar tendo transmissão e repetir tudo o que aconteceu em 2020, que foram meses sem resultado porque a nossa redução de mobilidade foi pequena”, explica Figueiredo.

Para ele, não há impasse entre o controle da economia e o controle da pandemia. “Não há oposição entre economia e proteção das vidas. As duas coisas andam juntas. E todos os países que conseguiram enfrentar adequadamente a Covid, como os países asiáticos, todos eles estão tendo bom crescimento econômico mesmo com muito menos perda de vidas”, diz.

O professor reforça os resultados positivos do isolamento, embora eles não sejam imediatos. “O isolamento tem efeitos positivos. Esses efeitos demoram um pouco para aparecer, mas eles aparecerão. E se a gente não realizar a redução da mobilidade, nós continuaremos tendo transmissão de casos, nós continuaremos com UTIs ocupadas em todo o país e a gente vai continuar tendo muitos óbitos”, enfatiza.

“Se a gente não age de forma enérgica, com a firmeza necessária neste momento, nós vamos ter um prolongamento da epidemia, uma dificuldade efetiva de garantir vacinação, porque a gente tem também a perda de profissionais que podem estar fazendo a vacinação, que estarão deslocados para ficar dando conta do colapso do sistema sanitário. E não é isso que a gente quer. A gente quer controlar a situação o mais rápido possível, voltar a ter condições de vacinar em massa e, assim, conseguir reduzir o número de mortes e reduzir o dano sobre a economia”, afirma Figueiredo.