Criação da CEI da pandemia pode ter decretado o fim do G6

Para o vereador Rafael de Angeli (PSDB), diferenças de opiniões e interferências de membros de partidos podem ter “exterminado" o grupo que faz oposição ao Executivo na Câmara

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O pedido de abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para apurar os contratos firmados pela Prefeitura de Araraquara no enfrentamento da pandemia da Covid-19, protocolado na Câmara dos Vereadores na última quinta-feira (8), movimentou os bastidores políticos de Araraquara. O documento, que foi assinado por todos os vereadores da base governista, também conta com o apoio do vereador Rafael de Angeli (PSDB), líder do G6, grupo que faz oposição ao prefeito Edinho Silva na Câmara. Além do tucano, o grupo hoje conta com os vereadores Carlão do Joia (Patriota), Lineu WL (Podemos), Marcos Garrido (Patriota), João Clemente (PSDB) e Marchese da Rádio (Patriota). A vereadora Luna Meyer (PDT) fez parte da primeira formação, mas acabou deixando o então G7, por discordar de algumas opiniões de outros membros.

O endosso do tucano à CEI gerou protestos de pares políticos que acreditam que a criação da Comissão pelos vereadores da base de Edinho Silva (PT) seria apenas uma forma de atrasar os trabalhos de investigação do uso de recursos públicos na pandemia do novo coronavírus pelo Executivo. Os próprios companheiros de G6 emitiram uma nota de repúdio na noite da quinta-feira (8) e se recusaram a assinar o documento.

Até essa terça-feira (13), a CEI havia sido assinada pelo presidente da Câmara Aluísio Boi (MDB), além de Gerson da Farmácia (MDB), Paulo Landim (PT), Thainara Faria (PT), Fabi Virgílio (PT), Emanoel Sponton (Progressista), Edson Hel (Cidadania), Filipa Brunelli (PT), Guilherme Bianco (PCdoB), Rafael de Angeli (PSDB) e João Clemente (PSDB).

A reportagem conversou com o vereador Rafael de Angeli que falou sobre seu posicionamento sobre a instauração da CEI e também sobre o futuro do G6.

Veja a entrevista na íntegra:

O Imparcial: Qual foi o principal motivo da criação do antigo G7, hoje G6?
Rafael: “Primeiramente eu gostaria de ressaltar que nunca gostei do nome. Nem de G6 e nem de G7. Eu prefiro chamar de Grupo de Oposição. Numerar a quantidade de participantes é excludente. Fica parecendo que somente aqueles vereadores podem participar. A intenção foi criar um grupo de oposição, não necessariamente para votar tudo em conjunto, mas para analisar os projetos em grupo, assim mais cabeças pensantes poderiam enxergar problemas que individualmente não identificamos. Gostaria de ressaltar que a primeira condição que impus aos demais colegas foi que líderes partidários não tivessem posição no grupo. Sempre deixei claras as minhas ressalvas aos membros do PATRIOTA, por exemplo, e infelizmente esse pacto foi descumprido, razão pela qual, ao meu entendimento, exterminou com o grupo”.

O Imparcial: Apesar de votarem juntos, você ainda vê uma unicidade de opiniões na oposição ao Executivo entre os membros do G6?

Rafael: “Nunca tivemos unicidade de opiniões. As trajetórias políticas são diferentes. Tínhamos a Luna, de centro-esquerda, o Clemente e a mim, que somos de centro, e o pessoal do PODEMOS e do PATRIOTA, de direita. Como dito, o grupo foi feito para aprofundar o debate e não para que todos votassem em conjunto”.

O Imparcial: Você acredita que a sua assinatura na CEI da Pandemia pode ter decretado o fim do G6 ou a sua saída dele?

Rafael: “Eu continuarei a ser da oposição. Uma oposição verdadeira e coerente. Não aceitarei jamais a política do “quanto pior, melhor”. Quem quiser me acompanhar, será bem-vindo. Espero, realmente, que possamos continuar a analisar em conjunto os projetos, pois faço política de grupo.
A acusação que eu me juntei ao governo é absolutamente leviana. Os vereadores Garrido e Carlão votaram com o governo no projeto da venda do CT do Pinheirinho e jamais eu afirmei que eles tinham se pendido para o outro lado. Algumas vezes, concordar com o governo é parte da democracia. Até relógio quebrado acerta uma vez ao dia. No meu caso, eu não conseguiria dormir à noite se assinasse uma CEI que poderia atrapalhar o andamento da vacinação na cidade. Não conseguiria colocar a cabeça no travesseiro e imaginar que algumas pessoas poderiam morrer por culpa de uma assinatura minha. A prioridade agora precisa e deve ser a vacinação. A CEI vai acontecer, precisa acontecer, mas no momento certo, após a vacinação”.

O Imparcial: Você acredita que hoje existe uma polarização da direita e da esquerda no Brasil?

Rafael: “A discussão de esquerda ou direita está ultrapassada desde 1989 quando a Guerra Fria e a URSS acabaram. Ainda assim, insistem nessa divisão. Acho absolutamente desnecessária e contraproducente essa discussão. Há cinco anos, isso sequer estava na pauta. A polarização no país agora nos obriga a escolher um lado e um rótulo. Não se trata de ficar em cima do muro! Hoje em dia é necessário muito mais coragem para apontar que há pontos bons em ambos os lados e ficar inimigo tanto da esquerda quanto da direita do que escolher um “clube”, ali integrar e ser bajulado pelos que pensam igual e criticado pelos que pensam diferente. Existe uma linha tênue entre a direita, o centro-direita, o centro, o centro-esquerda e a esquerda, onde todo extremismo é potencialmente perigoso. Espero estar muito errado, mas o desenrolar dos fatos indica que as eleições do ano que vem serão completamente violentas, no sentimento literal da palavra mesmo. Como disse, espero estar errado”.
O Imparcial: Você disse que vem sofrendo perseguição depois que anunciou seu desejo de concorrer à prefeitura em 2024? Na sua opinião, quais seriam os motivos dessa perseguição?

Rafael: Os antigos já nos ensinavam que “só leva pedrada a árvore que dá frutos”. A população de Araraquara tem visto os frutos do nosso trabalho, com incentivo ao empreendedorismo, com as leis de transparência que fizemos e que estão em vigor, com a melhoria na mobilidade urbana com os aplicativos de transportes, com os atos tomados pela Prefeitura após denúncias e cobranças do nosso mandato e etc. É muito natural que outros que pleiteiam o cargo de prefeito se sintam ameaçados, já que eles não têm trabalho para mostrar, procurando desqualificar a concorrência. Minha política não é essa. Sempre que me atacam, procuro responder trabalhando ainda mais. Infelizmente não tenho sangue de barata e, algumas vezes, a resposta verbal é necessária”.

O Imparcial: Você reafirma seu desejo de concorrer à Prefeitura nas próximas eleições municipais?

Rafael: “Eu sempre digo que tudo está literalmente nas mãos de Deus para quem me pergunta sobre ser prefeito, principalmente digo que precisa ser no momento certo. Tenho vontade, estou ganhando experiência a cada dia, mas como a política é muito dinâmica, só tem como ter a certeza em 2024. Precisa passar, pelo menos, as eleições para deputado, governador, senador e presidente, no ano que vem, para vermos um pouco além. O meu desejo é construir uma proposta que case a Administração Pública com a modernidade e com a tecnologia. Peço desculpas aos candidatos de 2020, mas nenhum apresentou isso. As propostas, a cada quatro anos, são sempre as mesmas. Não sou personalista. Não preciso ser necessariamente o candidato, mas, até agora, não vejo ninguém com as ideias que quero propor. Quero reunir um time de especialistas de altíssimo nível, a serem escolhidos dentro das maiores universidades do país. Quero gente jovem, com capacidade técnica na posição de protagonistas do Executivo em nossa cidade. Quero ver um choque de gestão, que traga dinamismo na relação entre Poder Público e cidadão. Estou disposto a conversar com todos que se dispuserem a construir desta forma. Uma magnífica frase de Fernando Henrique Cardoso diz que “lutamos não para ganhar no dia seguinte, mas para construirmos um horizonte de alternativas”. E Araraquara, com toda a certeza, precisa de um horizonte de alternativas!”

O Imparcial: Você se vê como uma nova liderança política do PSDB na cidade? Acredita que o partido te apoiaria nessa candidatura?

Rafael: “Acredito que ter sido o vereador mais votado do partido e o terceiro mais votado da cidade, na última eleição, que teve mais de 400 pessoas concorrendo a uma vaga no Legislativo, traz uma posição natural de liderança. Nosso partido tem muitas lideranças importantes e conversamos sempre na busca de melhorias para Araraquara. Nossa executiva vem prestando um apoio aos vereadores com pareceres e riquíssimas discussões. As discordâncias são naturais em qualquer partido e, por isso mesmo, existe a democracia interna. Estou buscando, no partido, apresentar um pouco dessas minhas ideias para construirmos um bom projeto para 2024. Temos pessoas muito qualificadas que militam pelo PSDB e o fortalecimento da participação dos filiados nas decisões ativas do partido é uma das minhas bandeiras. Caso outros candidatos venham a se apresentar, as prévias surgem como um importante instrumento para que todos tenham sua voz ouvida”.

O Imparcial: Como você espera que transcorra a CEI da Pandemia em Araraquara?

Rafael: “Tenho a expectativa que será um momento importante de rigorosa investigação. Fui ao Ministério Público e também fui conversar com a Procuradoria do Município para que esclarecessem alguns pontos importantes. Os valores da compra dos respiradores não entregues precisam ser recuperados. De todo modo, precisamos esclarecer os motivos que levaram a uma compra com uma empresa que não era especialista em equipamentos de saúde. Aguardo a decisão do Boi, presidente da Câmara, nos próximos dias, sobre os vereadores que vão compor a comissão. Se eu estiver na comissão, espero ter importante participação na redação do relatório. Caso eu não esteja, continuarei as investigações e solicitarei aos colegas integrantes que levem meus questionamentos adiante”, finalizou o vereador.