60 anos do curso de Química em Araraquara

Patrimônio cultural, científico e de educação de Araraquara

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*Sidney J.L. Ribeiro/Colaboração

Patrimônio cultural, científico e de educação de Araraquara, o Instituto de Química se localiza no bairro Quitandinha, às bordas da Rodovia Washington Luiz.

Para relembrar suas origens vamos voltar no tempo, cerca de 60 anos…

“Sartre no Brasil: A conferência de Araraquara”. Esse é o título de um famoso livro que transcreve a palestra proferida, no dia 4 de setembro de 1960, pelo filósofo Jean Paul Sartre, em visita à Morada do Sol. Na plateia estavam Simone de Beauvoir, Fausto Castilho (professor da Faculdade de Filosofia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo, que anos depois se tornaria presidente do Brasil), Ruth Cardoso, Jorge Amado (famoso escritor), José Celso Martinez Corrêa (famoso ator e dramaturgo, filho ilustre de Araraquara), entre outras personalidades.

Os araraquarenses têm muito orgulho ao contar a história real, que nesse mesmo dia, num jogo na Fonte Luminosa, o Santos de Pelé foi massacrado pela Ferroviária por 4 a 0!!

Eram tempos românticos. Araraquara, contam os moradores mais antigos, era uma pérola. Cidade fundamentalmente agrícola, mas com estudantes, cinema, teatro, movimentos culturais e artísticos. O Brasil respirava mudanças e reformas econômicas e sociais expandindo o setor industrial. Juscelino Kubitschek naquele mesmo ano, no dia 21 de abril, inaugurou Brasília. O prefeito de Araraquara era Benedito de Oliveira, “o Pai dos Pobres”, que entre outras coisas implementou o tratamento de água com flúor na cidade. Sua mãe Maria Antônia Camargo de Oliveira empresta o nome à importante avenida de Araraquara, mais conhecida como Via Expressa.

Em 16 de abril de 1957 foi criada em Araraquara, no prédio que hoje abriga a Casa da Cultura, a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Araraquara (FFCLA). A vinda de Sartre ressalta a importância dessa Faculdade e seu corpo docente à época. A Faculdade era então um dos Institutos isolados que constituíam o sistema estadual de ensino superior. A história de Araraquara está intimamente ligada à história desses Institutos que incluíam ainda a Faculdade de Farmácia e a Faculdade de Odontologia.

A mentalidade desenvolvimentista invadiu o país levando a necessidade de ampliação do conhecimento e acesso ao conhecimento.

Uma semana antes da palestra de Sartre, Paulo Guimarães da Fonseca conseguiu a autorização do governo do Estado para criar o curso de Química na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras.

No ano seguinte, em 1961, começa a funcionar o curso de Química com Paulo Guimarães da Fonseca sendo seu primeiro diretor no prédio da FFCLA. Ali funcionou de 1961 a 1964, se mudando depois para o bairro Quitandinha. Da primeira turma de sete estudantes, três se tornaram professores do futuro Instituto de Química fazendo carreira ali: Aerovaldo Del’Aqua, Cecília Laluce e Joaquim Theodoro de Souza Campos. Tive o prazer de ter aulas com os três.

“Desenvolver ciência, qualificar a indústria numa região predominantemente agrícola e formar professores”. Esses objetivos parecem ter sido tirados de um plano de desenvolvimento econômico e social de 2021! Mas esses eram os objetivos da criação do curso de Química, 60 anos atrás, comprovando o pioneirismo daqueles visionários que realizaram esta obra como Paulo Guimarães da Fonseca, já citado, Waldemar Saffioti, Cirano Rocha Leite, Jean Pierre Gastmans, entre outros. É preciso manter esses mesmos objetivos. Sabemos que países fortes e independentes só são fortes e independentes porque têm uma ciência forte.

Voltando à história, em 1976 o Governo do Estado resolveu agrupar os Instituto isolados numa única Universidade. A UNESP hoje está presente em todo o Estado, em 24 cidades. O impacto econômico e social da UNESP é inegável, mostrando a importância dos serviços prestados à comunidade que a sustenta!

O Departamento de Química da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras na nova Universidade passou a se chamar “Instituto de Química” ocupando a área no bairro Quitandinha, onde está até hoje e também o campus de Araraquara.

O IQ, como carinhosamente nos referimos ao Instituto, é hoje referência na formação de pesquisadores e professores e tem uma história de relevante contribuição à ciência no Brasil.

Milhares de estudantes já passaram pelos cursos de graduação oferecidos pelo IQ (Bacharelado em Química, Bacharelado em Química Tecnológica, Licenciatura em Química e Engenharia Química) além dos programas de pós-graduação em Química e Biotecnologia, ambos classificados como dos melhores do país.

Merecem destaque aqui dois projetos importantes desenvolvidos no IQ em contato direto com a comunidade.

O Centro de Monitoramento e Pesquisa da Qualidade de Combustíveis, Biocombustíveis, Petróleo e Derivados (CEMPEQC) tem atuado há 20 anos para garantir a qualidade e a segurança dos combustíveis para o consumidor final. Aplicativos como o “Posto Fiel” auxiliam os araraquarenses a encontrar combustível de qualidade.

O Centro de Ciências de Araraquara, ali no Jardim Santa Lúcia, se constitui num Museu de Ciências, um dos projetos de extensão do IQ levando ciência à comunidade e às Escolas do Ensino Fundamental. Você já visitou o CCA? Estão visite!! É importantíssimo levarmos educação científica às escolas. Afinal de contas, em pleno Século 21, quando estamos explorando o planeta Marte, ainda temos que convencer algumas pessoas que a terra é redonda e que ciência e vacinas salvam vidas! O Brasil precisa de mais engenheiros e cientistas.

O caminho nesses 60 anos tem sido tortuoso e cheio de pedras e o sucesso se deve ao trabalho árduo de docentes, servidores técnicos e administrativos e estudantes. O futuro promete ser luminoso.

Parabéns IQ-UNESP! O Brasil precisa de você!

*Sidney J.L. Ribeiro é diretor do Instituto de Química-UNESP