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Valéria Pirola: a felicidade pode ter sabor de licor de figo



Por conta da doença da mãe, Valéria parou com o trabalho de restauro de obras, mas continua, através de seus licores, resgatando e conservando a arte do bom sabor

Valéria Pirola: a felicidade pode ter sabor de licor de figo

Da redação

A restauradora Valéria Pirola estudou Conservação e Restauro FAOP, Fundação de Artes de Ouro Preto, em Minas Gerais. E lá, não aprendeu somente a sua arte, pois como a maioria dos mineiros também aprendeu a arte de fabricar licor. O primeiro foi o de jabuticaba.
Em 2005, a araraquarense retornou a terra natal e teve a oportunidade de colocar em prática seu trabalho de conservadora e restauradora contribuindo com a manutenção da história de Araraquara realizando trabalhos na cidade, como o restauro do Cristo Crucificado, obra do século XVIII e o Senhor dos Passos, uma representação do Cristo a caminho do calvário, peça em madeira policromada, obras que estão expostas no Museu Histórico Pedagógico Voluntários da Pátria;

O trabalho desenvolvido pela restauradora repercutiu de forma amplamente positiva, sendo pauta de várias matérias de jornais e revistas e uma grande surpresa quando o renomado escritor Ignácio de Loyola Brandão escreveu a crônica ‘Valéria cuidando do Senhor’.

o segredo do meu Licor de figo está aqui, é com a folha do figo que se faz a bebida

O interessante é que o escritor escreveu sem saber que tinha laços de amizade com muitos de seus familiares, como sua mãe Nanci e seu saudoso bisavô, o mecânico Pirola.
Lisonjeada e agradecida, Valéria entrou em contato com o escritor e se identificou o que muito o alegrou.
Assim, quando lançou o premiado livro intitulado ‘Se for para chorar’ que seja de alegria’ a convidou para o lançamento. “No dia levei de presente um de meus licores de jabuticaba. Na hora não consegui falar direito com ele, mas depois ele me enviou um e-mail elogiando o licor dizendo que era muito gostoso ao mesmo tempo quem que perguntava se eu fazia licor de figo, pois tinha andado por muitos  lugares do Brasil e nunca havia encontrado e que era algo que tinha muito a ver com sua memória de infância, pois sua vizinha sempre dava a ele um pouquinho e aquilo era uma transgressão, pois ele era criança”.
Valéria não fazia licor de figo. Ainda. Prometeu a Ignácio se soubesse de alguém que preparava o avisaria. Mas eis que depois de algumas pesquisas a  restauradora descobriu que as folhas de figo eram a melhor forma para se preparar a bebida. Assim, sete meses depois ela entrou em contato o avisando de que tinha feito o licor para ele e que tinha ficado bom.
Depois de alguns malabarismos o licor chegou às mãos do ávido homem que queria alegrar aquele menino que havia dentro de si e que ansiava novamente alimentar sua memória afetiva, degustar o sabor da transgressão infantil que atendia pelo nome de licor de figo.
E na vida cada um retribui quando pode com aquilo que tem ou faz de melhor e Ignácio escreveu para Valéria uma crônica em agradecimento pelo empenho. “Fiquei muito feliz. Publiquei a crônica no facebook e muitas pessoas perguntavam se eu vendia. Não. Ainda não”.

Valéria Pirola um brinde ao escritor que fez seu licor virar crônica

Folha da fruta

Posteriormente a isso, sua mãe adoeceu gravemente ficando entre a vida e a morte. Vem de Ribeirão Preto e como a situação financeira não estava às mil maravilhas e ela tinha que cuidar da mãe integralmente, pensou em vender o licor para gerar alguma renda e solicitou ao escritor a permissão para usar a crônica. “Ele disse, usa a crônica, meu nome e tomara que venda que nem as coxinhas de Bueno. Ele foi muito generoso e sou muito grata a ele, pois ele disse que hoje  as pessoas dão valor às coisas feitas de maneira artesanal e sem conservantes. Surgiu assim os ‘Licores Valéria’. O segredo do meu licor o é que o mesmo é feito com a folha da fruta agregando sabor e aroma legítimo do figo. Dá para fazer o ano todo. Já os sabores como  jabuticaba e amora são sazonais, ou seja, dependem da época em que frutificam”.
A produção é artesanal e para consumo familiar, mas quem quiser mais informações pode entrar em contato pelo WhatsApp (16)982448110. Facebook: Valéria Pirola.

(BOX)

Foto-trecho

 

O licor de figo daquela tarde

Na crônica em que o escritor Ignácio de Loyola Brandão fala do e-mail que recebeu de Valéria Pirola contando que tinha feito o licor de figo especialmente para ele e ele escreve lindamente que acabava de ter um momento feliz. Uma coisa de nada, mas só ele sabia o que significava e que a felicidade pode vir trazida por uma brisa, um cheiro, uma palavra, um grito, uma peça de roupa perdida no fundo de uma gaveta, mas que foi usada por aquela pessoa que tanto significou e saiu de nossa vida há tempos.

E ele conta sua paixão pelo licor de figo. “Um dia, na casa de Sebastiana Gurgel, boleira excepcional, minha mãe me deixou provar licor de figo. Ela tinha coisas muito boas. Uma iluminação. A cor suave, o cheiro, o sabor. Figo líquido com algum álcool. Bebida inocente. Nectar. Seria aquilo o hidromel citado por Monteiro Lobato em Os Trabalhos de Hercules? Aquela tarde está até hoje intacta. Vez ou outra passava pela casa de Sebastiana e se a via pedia um cálice, ela sorria cumplice, dava, aconselhava, não vá se acostumar. Acostumei, necessitei. Depois, perdi. Nunca mais encontrei licor de figo. Passaram décadas”.
Ele prossegue ressaltando que nas viagens como ao Acre, Pará, Santa Catarina, interior de São Paulo, Sergipe, Bahia, perguntava quem fazia licor de figo. E confessa que não sabem o que foi a abstinência este tempo todo, que era um pedaço dele perdido. Até chegar o e-mail de Valéria que contava que tinha boas notícias, ou seja, conseguido folhas de figo para fazer o licor através de um amigo que mora em Araxá e que havia  ficou muito bom.

Valéria dizia que havia feito com muito carinho e esperava que ele aprovasse e que quando estivesse em Araraquara que a avisasse para entregar a ele o licor.

Loyola termina a crônica assim: “Perceberam? isso é felicidade. Somente uma restauradora de arte teria tal sensibilidade”.
Vale ressaltar que Valéria conheceu pessoalmente Ignácio em 2014 durante o lançamento do livro do artista plástico Gino Savino, araraquarense que mora no Canadá, no qual o escritor fez o prefácio e a amizade criou sabor, igual ao seu licor de figo: de felicidade!

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