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Valesca Mendonça, uma semeadora de conhecimento

Uma das características mais marcantes da jornalista Valesca Mendonça é sem dúvida a gentileza, mas a sua forma carinhosa e educada de ser nunca a deixa na mão e não raro quando precisa de carona não é difícil vê-la amigavelmente dentro dos carros das empresas concorrentes ou até mesmo dentro de alguma viatura do Corpo de Bombeiros ou da Polícia.
Recentemente, mais precisamente na última sexta-feira, 29, Valesca foi uma das dez mulheres negras homenageadas com o Prêmio “Dra. Rita de Cássia (Dia da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha), comemorado no dia 25 de julho. O objetivo da comemoração em Araraquara é reconhecer o trabalho dessas mulheres que lutam arduamente por visibilidade e respeito.

A escolha
Valesca conta que Alessandra de Cassia Laurindo disse a ela que uma Comissão a escolheu como uma das homenageadas. “Recebi com muito carinho, principalmente por levar o nome da advogada Dra. Rita Ferreira, o que aumenta a responsabilidade, pois ela foi um exemplo de trabalho dedicado às mulheres. Além disso, receber uma homenagem desse porte em um lugar que leva o nome do jornalista Paulo Silva, uma das referências do jornalismo e que foi um dos diretores do jornal mais antigo da cidade, O Imparcial, é uma honra”.
A jornalista não se esquece de citar as mulheres desbravadoras, pois se não fosse por elas, as mulheres não teriam chegado até aqui. “Claro que falta muito, mas devemos sempre levar informações. Ser ponte”.
Valesca é uma semeadora de conhecimento. “Essa informação alguém vai transformar em ações para facilitar para as novas gerações”.
Ela agradece as amizades que fez por conta da profissão e diz que sempre foi bem recebida. Revela que não é muito ambiciosa, mas tem o sonho de deixar seus familiares bem.
Seu lema é: ‘Nunca desista’. E quanto ao racismo, ela diz: “Dane-se para quem não nos aceitar. Se alguém for me atacar por conta da minha cor ou religião ou qualquer coisa que seja, ao invés de criticar, vá conhecer”.
Ela confessa, ainda está em busca de um príncipe, mas não encantado, pois são inexistentes. “Pode ser enlatado”, brinca ela, acrescentando uma casinha e um violão.

Um pouco de Valesca
Valesca Cristina Mendonça nasceu em São Paulo no dia 14 de fevereiro de 1977. Seu nome foi uma homenagem a uma criança da qual sua mãe foi babá.
É filha de Dirceu Daniel de Mendonça e Maria de Jesus de Brito, e irmã de Maria Cecília, Daniela, Marcelo, Gilson, Linalvo e Everalda.
Quando criança morava com seus pais, alguns irmãos e com sua avó e tios paternos em São Paulo, (Vila Nossa Senhora das Mercês – Ipiranga) depois durante um período antes de mudar para Araraquara, passava junto com seu irmão (Marcelo) longos períodos no serviço de sua tia (Marcilia Gomes) no Morumbi, e por conta de seu problema de saúde (bronquite), ficou morando com uma tia no serviço dela (em Araraquara) até a vinda de sua família para a cidade.
A cidade foi escolhida por terem parentes por parte do seu pai (tios, tias, primos e primas), chegamos à cidade de trem, na antiga estação no Centro – hoje Museu ferroviário.
Valesca acredita que a influência no gosto pela literatura, noticiários e culturas diversas vem dos contatos que teve no período em que ficou morando no serviço de sua tia, já que a patroa dela (Maria do Carmo Mofreita) era educadora.
Estudou a princípio no Externato Santa Terezinha, por causa da patroa de sua tia que gostava bastante de Valesca e de quem ela também gostava muito. “Morei com ela por 2 anos depois ela retornou para São Paulo. Depois com a família já instalada na cidade, no Santa Angelina, estudei na antiga escola Yamada e posteriormente na também extinta Escola Francisco de Salles Colturato e fiz ensino médio junto com o profissionalizante na ‘ETEC Anna de Oliveira Ferraz’ (técnico em secretariado)”.
Depois de tentar vestibular em faculdades públicas, por incentivo de sua prima Jaqueline Mendonça, prestou Jornalismo na Uniara e no ano de 2005 se formou. “Fiquei muito feliz por ser a primeira de casa a ter uma graduação e acredito que meus pais ficaram orgulhosos disso, pois sempre estiveram comigo. Meu pai faleceu em 2002 devido a um câncer, mas incentivou que eu continuasse estudando e minha mãe, guerreira, além de incentivar que eu continuasse estudando também me ajudou a pagar a faculdade, indo trabalhar em São Paulo para me ajudar. Meus irmãos também me incentivaram a continuar os estudos e a todos que me ajudaram hoje agradeço de coração, principalmente a minha família”.

Profissão repórter
A primeira experiência profissional de Valesca foi na Igreja de São Geraldo (na secretaria), onde teve o prazer de conviver com uma figura muito especial, o professor Jorge Cury, que a incentivou bastante a continuar a ler. “Acredito que ele deu uma ajuda para seguir na área da Comunicação. Ele estava sempre lendo e aquilo que me fascinava. Ele sempre me dizia para nunca parar de ler e de estudar e que para ler e escrever bem: Machado de Assis”.
A experiência no jornalismo, teve início na Folha da Cidade, em 2007, onde começou com algumas pautas e aos poucos foi conquistando espaço, hoje (2016) trabalha na edição do jornal diário. “Quem me recebeu muito bem na Folha foram os saudosos Juliano Fuzatti e a Cidinha. Agradeço a receptividade de colegas de profissão que no início da carreira me receberam bem, e até ajudaram no início da carreira, acredito que fui sortuda”.

Preconceito
Sobre preconceito, ela conta que quando era pequena ouvia aqueles apelidos e provocações, mas ignorava e tentava superar usando isso a seu favor, não tentando deixar se abater, muitas vezes machucava, mas sempre conseguia dar a volta por cima. “Acho importante não se deixar abater mediante as provocações, já que nos dias atuais temos várias formas de combater este tipo de preconceito. E hoje com o fácil acesso à informação ninguém pode alegar desconhecimento mediante os atos de preconceito, até porque há punições quando comprovada. Acredito que sempre fui CDF por causa disso”.

Pai e mãe
O pai de Valesca sempre foi brincadeira e sua mãe coisa séria. “Do meu pai o que marca muito minha infância é que ele era muito brincalhão. Sério, mas quando brincava era outra criança no meio da gente, as brincadeiras com o futebol. Imagine um senhor subindo em árvores, dando piruetas. Lembro que ele nos levava para passear de bicicleta. Eu ia no guidão. Íamos visitar os parentes. Ai era uma zoeira com os primos”.
O pai de Valesca era um ótimo pintor e muito devoto dos Britos. Quase todo final de semana ele ia ao cemitério e os coveiros Dirceu, Bigode mais antigos nos levavam. Assim, todo final de ano, com as tintas que sobravam dos serviços que fazia, ele ia até o cemitério dos Britos e pintava a capela. “Era como se fosse uma promessa que ele pagava”.
Infelizmente esse pai tão cheio de incontida alegria foi vencido por um câncer que o levou aos 58 anos. “Foram quase três anos de muita batalha. Perdemos uma das pilastras. Foi-se um pouco daquelas brincadeiras, pois meu pai era um moleque crescido. Minha mãe também era mãe dele,às vezes”
Já para Valesca, sua mãe é um exemplo. “Quero um dia vir a ser como ela que sempre foi batalhadora, trabalhadeira. “Meu pai era trabalhador, mas sabe quando você se lembra da sua mãe sempre trabalhando? Meu pai que era autônomo, muitas vezes, chegou a ficar com a gente para ela ir trabalhar. Ela foi babá, cuidou de pessoas doentes, de idosos, trabalhou em buffets, lavou e passou roupas, enfim sempre cuidando e zelando pela família e, se deixar, até hoje ela coloca a mão na massa, além de ser muito preocupada com os filhos, principalmente comigo”.
No dia de sua formatura a mãe de Valesca não pode estar presente e este vazio não foi preenchido pela dor, mas por uma imensa gratidão e um sentimento de orgulho por essa mulher tão querida que só não estava ali, pois estava trabalhando em São Paulo. Seu pai já era falecido. “Eu fui a única de casa que teve graduação. Acredito que foi um orgulho para eles e eu fiquei feliz de poder proporcionar isso”.

(BOX)
Araraquara
Araraquara é o segundo lar de Valesca. “Muita gente quando chega considera a cidade estranha, pois as pessoas parecem fechadas a princípio, mas depois que você a conhece é um ritmo diferente do que tem em São Paulo. Mas, a princípio Araraquara para mim, foi bacana. Tem muita cultura, áreas verdes, fazendas, enfim muita coisa e facilidade de acesso a tudo isso. É uma cidade que tem muita coisa boa a oferecer, tem muito potencial”.
Já sofreu racismo. “A pretinha nerd. Sempre foi cdf. Pois sempre se cobrou. Quando as pessoas falavam eu ignorava. Não que isso não machucasse. Sempre fui mirradinha e nunca fui boa de briga descontava tudo isso nos estudos. Sempre usei essas questões como uma forma de me superar”.

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