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Lampião continua aceso



Da redação No dia 27 de julho de 1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Por volta das 5h15 do […]

Da redação

As cabeças de Lampião e de seus companheiros dispostas no adro da igreja de Sant’ana do IpanemaNo dia 27 de julho de 1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe, esconderijo tido por Lampião como o de maior segurança. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. A volante chegou tão de mansinho que nem os cães pressentiram. Por volta das 5h15 do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o oficio e se preparavam para tomar café; quando um cangaceiro deu o alarme, já era tarde demais.

Não se sabe ao certo quem os traiu. Entretanto, naquele lugar mais seguro, o bando foi pego totalmente desprevenido. Quando os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

A morte de Lampião foi encenada, e seus adversários recorreram a todo tipo de simbólica religiosa: transportaram as cabeças de Lampião e de seus companheiros de cidade em cidade, de vila em vila, numa espécie de procissão macabra, misturando tradições solenes e manifestações de júbilo popular, o sagrado e o profano. Na cidade de Piranhas, festas, desfiles, manifestações de um entusiasmo mais ou menos espontâneo, fogos de artifício e banda de música acompanharam o cortejo macabro. Uma das primeiras preocupações dos organizadores e jornalistas presentes foi fotografar os diferentes momentos daquela cenografia sinistra e repassar as imagens para a imprensa. Uma das mais célebres, ilustrando a tragédia final, é incontestavelmente a que mostra as cabeças de Lampião e de seus companheiros dispostas no adro da igreja de Sant’Ana do Ipanema. Interessante lembrar que quando o Governo Federal esteve acossado pela Coluna Preste peregrinando pelo Nordeste, recorreu ao bando de Virgulino, inclusive dando-lhe a patente de capitão e armamentos, no intuito de barrar a pretensão de Prestes. Uma vez debelados os intentos da referida coluna paramilitar, começou novamente a caçada ao Rei do Cangaço. Com tantos roubos, corrupções, dilapidação do patrimônio e erário público dos governantes atuais, que falta faz Virgulino na atualidade. As cabeças dos 11 cangaceiros foram dispostas num pano branco estendido sobre os degraus da igreja. Em volta de todas essas cabeças foram distribuídos, com grande esmero na simetria, as armas, cartucheiras, embornais e chapéus dos cangaceiros, bem como duas máquinas de costura. A disposição das cabeças não foi aleatória: a de Lampião, o chefe, o instigador, o arquiteto, o “Rei do Cangaço”, foi isolada das dos outros, está no primeiro plano, na base da composição. Os símbolos da riqueza e da força guerreira dos cangaceiros estão ali, moldura e ao mesmo tempo cenário de uma espécie de natureza-morta macabra. Esses vestígios —bordados, ornamentos, moedas de ouro— de um brilho que nos dizem estar definitivamente perdido contrastam violentamente com as cabeças cortadas, remetendo infalivelmente aquele que observa ao ato de decapitação e profanação do cadáver. Entretanto, a despeito da vontade de perenizar a morte física e a destruição de Lampião mediante imagens irrefutáveis, o mito da imortalidade desse herói persiste, expandindo-se ainda nos dias de hoje: mesmo diante das cabeças dos cangaceiros mortos, alguns sertanejos não acreditaram na morte de Lampião.

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