Selecione a página

A falência do setor sucroalcooleiro no estado de São Paulo

Fechamento de usinas de açúcar e álcool afetou vários segmentos da economia de Araraquara e região

José Augusto Chrispim
Dos 50 municípios com maior produção de cana-de-açúcar no país, 34 estão localizados no estado de São Paulo, que foi responsável por 56,3% da produção total da cultura em 2012/2013. Por isso, vale ressaltar que o setor sucroalcooleiro ainda é um dos mais importantes segmentos da economia do estado. Mas, o setor está cada vez mais concentrado nas mãos de multinacionais, que devem controlar 90% do mercado até o final desta safra 2015/2016. Por outro lado, as empresas familiares – que até 2012 representavam 25% do market share -, perdem cada vez mais espaço, caminhando progressivamente para a extinção. Cerca de 98% dos pequenos grupos familiares estão estrangulados pelo alto nível de endividamento e pela reduzida capacidade de contrair crédito, que prejudicam suas possibilidades de investimento.
De acordo com especialistas, as empresas do setor vivem esse dilema de boas perspectivas a longo prazo, mas um retrato contraditório no curto prazo, já que a porta de saída da crise depende da diversificação nos negócios e dos investimentos em novas tecnologias e inovação que demandam capital intensivo.
Quem detém condições de investir na geração de energia por biomassa, etanol de segunda geração e em tecnologias agrícolas que permitem produzir mais gastando menos, são os grupos de maior porte como a Bunge, Cargill e Louis Dreyfuss, que são altamente capitalizados e têm poder de fogo para destinar recursos para novos negócios que vão dar retorno no longo prazo.
A crise financeira mundial atuou como uma espécie de seleção natural entre as usinas e destilarias brasileiras. Até 2007, a atividade era altamente rentável o que permitia que os grupos familiares conseguissem manter os seus lucros, a despeito da falta de profissionalização na gestão.
Contudo, na safra 2007/2008 veio a crise do subprime, que provocou a queda geral dos preços das commodities, secando o fluxo de caixa dessas empresas. A partir daí, os investimentos em produtividade despencaram, porque o crédito ficou mais caro. Se essas empresas tivessem partido para a profissionalização da gestão, teriam sentido o impacto da crise, mas não nessa proporção catastrófica — mais de 60 usinas fecharam as portas de 2007 para cá.
Desemprego e dívidas
Em Araraquara, a Usina Maringá encerrou suas atividades deixando centenas de funcionários desempregados e possui uma dívida que gira em torno de R$ 1 bilhão somente com o governo, fora os demais credores. Além da dívida bilionária e o desemprego causado pelo fechamento da Maringá, outro problema muito mais grave foi gerado com a criação pelos ex-funcionários e com o apoio do ‘Movimento dos Sem Terra’, de um enorme acampamento onde cerca de 400 famílias moram sem as condições básicas de saúde e higiene, como água encanada, energia elétrica, rede de esgoto e escolas para as crianças.
Região
Com toda a crise que o setor vem enfrentando, o país perde em arrecadação de impostos atuais e potenciais, e principalmente desperdiça o potencial de geração de empregos e de geração e distribuição de renda com novas usinas. Passou-se por uma perda de 60 mil empregos diretos nos últimos dois anos no setor produtivo; nesse ano, 44 usinas fecharam na região Centro-Sul do país. Está se destruindo o setor de bens de capital na área, líder mundial em tecnologia.
Em Sertãozinho, que fica na região de Ribeirão Preto, uma das áreas mais importantes em metalurgia para o setor sucroenergético, em 2007 havia 15 mil metalúrgicos, com potencial para 20 mil, e hoje não passam de 10 mil metalúrgicos.
Setor está nas mãos do capital estrangeiro
De fato, os grandes investimentos que vêm sendo realizados na diversificação de negócios no setor sucroalcooleiro foram empreendidos pelos grupos mais capitalizados.
A produção de etanol de segunda geração, a partir do bagaço e palha da cana-de-açúcar, vem sendo desenvolvido por empresas como a Raízen (fruto de uma parceria entre a Shell e a Cosan) e pela GranBio (que conta com participação societária de 85% da família Gradin e mais 15% do BNDESPar). Gigantes como Louis Dreyfuss, Cargill e Bunge também estão investindo nessa área, com tecnologias desenvolvidas nos EUA e Europa.
Na nossa região, o grupo Raízen hoje administra praticamente todas as grandes usinas. Fazem parte desse grupo a Usina Zanin e Tamoio, em Araraquara, além da Usina da Serra, em Ibaté e a Usina Corona, em Guariba. A usina Santa Cruz hoje pertence ao Grupo São Martinho e a Usina Maringá está em processo de falência.
Comerciantes de Araraquara pedem socorro
Com a crise do setor sucroalcooleiro, Araraquara e região perderam um grande propulsor da economia regional. Comerciantes de peças de caminhão e tratores, borracheiros, mecânicos, torneiros mecânicos, revendedoras de veículos, entre outros segmentos, foram prejudicados pela crise.
Outro grave problema revelado foi a perda de espaço dos caminhoneiros particulares que foram substituídos por funcionários das usinas que utilizam frotas de caminhões novos, diminuindo assim, também, a mão-de-obra dos mecânicos de oficinas particulares.
O empresário Marinho Luis de Oliveira, de 50 anos, que trabalha no ramo de autopeças para caminhões desde 1980, contou para a reportagem do jornal O Imparcial que o setor vem diminuindo a cada ano desde o final da década de 1990, mas nos últimos anos a crise tem sido sentida com mais força. Ele conta que no ano de 2014, a Usina Santa Cruz que hoje é administrada pelo grupo São Martinho, dispensou todos os caminhões que prestavam serviços para ela e montou uma frota própria somente com veículos novos. “Isso agravou ainda mais a situação e fez as minhas vendas despencarem, pois a maioria dos meus clientes prestava serviços para a Santa Cruz”, disse Marinho.
Ele contou também que um empresário do ramo de transportes que é seu amigo, tinha 18 caminhões trabalhando para a usina Santa Cruz e teve todos eles dispensados. De acordo com Marinho, a dificuldade para recolocar esses caminhões no mercado está sendo muito grande, com isso, os motoristas também perderam seus empregos.
Produtores rurais também sofrem com a crise
Na opinião do produtor rural Aparecido Timpani, de 84 anos, a produção de cana sempre teve altos e baixos, mas a partir de 2012, não conseguiu mais recuperar as perdas. O principal motivo dessa queda é o preço do açúcar no mercado que a cada ano diminui mais, pode-se perceber isso também no mercado financeiro.
Hoje já há uma grande produção de cana-de-açúcar fora do país, veja o caso da Austrália, uma das maiores produtoras do mundo. Com isso, nosso preço caiu e não houve incentivo do governo, e o primeiro a sofrer com as perdas foi o produtor rural.
No caso do Etanol, que deveria ser valorizado, o produtor não recebe aumento há mais de 2 anos. Os Estados Unidos produzem etanol a partir do milho com um preço muito maior que o nosso, mas não abre mão de ajudar seus produtores. Eles não compram etanol brasileiro. Perceba que o álcool na bomba só sobe e o produtor não ganha R$1,00 a mais com isso.
“Depois da compra das usinas por grupos estrangeiros, nossa situação piorou muito. Quem tinha caminhão trabalhando para as usinas teve que mandar para fora do estado ou vendê-los, os meus estavam em Recife (PE) fazendo a safra por lá, mas a cana já não é mais lucrativa, madeira paga melhor, então investimos, compramos novas carretas e mudamos de ramo, hoje eles estão na Bahia no transporte de madeira”, disse Timpani.
“As perdas dos produtores de cana foram muito grandes, a maioria de nós não recebeu algumas safras, no caso da Usina Maringá entrei na justiça para tentar receber alguma coisa, mas não acredito que paguem. Várias usinas no estado fecharam, ninguém fecha uma empresa que dá lucro.
As usinas também tiveram um lucro muito baixo e não conseguiram pagar os fornecedores”, relatou o produtor rural.
Questionado se pensa em trocar de cultura, Timpani disse que é muito difícil mudar de cultivo quando se tem todo o maquinário e estrutura pronta para o plantio de cana. Seria um investimento muito alto para quem está ganhando pouco. “O que eu plantaria, soja ou milho? São culturas que também estão passando por um momento difícil. É hora do governo olhar para o homem do campo, aquele que investe, trabalha, alimenta e paga caro por isso”, concluiu.
Mudança de região
No caso dos caminhoneiros a situação foi tão ruim que muitos deles sem ter alternativa de trabalho na região, tiveram que se mudar para outros estados como Bahia e Goiás, para poderem encontrar emprego. “Na época boa em cada safra que eu fazia comprava outro caminhão”, relatou Paulo da Costa, que trabalhou por quase duas décadas puxando cana-de-açúcar das usinas da região de Araraquara e hoje mora em Salvador (BA).
Nos anos de 1990, Araraquara era cercada por enormes caminhões de cana que movimentavam a riqueza da região, mas hoje o que se vê são poucos caminhões e quase nenhum trabalhador rural, devido à mecanização da lavoura de cana-de-açúcar.
O problema maior é que mesmo com essa enorme perda de capitais e empregos ocorrida na cidade e região, não vemos nenhum político local tomando alguma atitude para tentar reverter este quadro tão negativo. O que parece é que se espera uma solução apenas do governo federal, mas os esforços têm que partir de todas as esferas, inclusive dos empresários.

Últimos Vídeos

Carregando...

Charge

Publicidade

Publicidade

Arquivos

Publicidade