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Um araraquarense de ouro

Renato Russomanno comemora conquista com a seleção brasileira de vôlei nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara

Carlos André de Souzaandre@jornaloimparcial.com.br
No último dia 29 de outubro, a seleção brasileira masculina de vôlei conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos disputados na cidade de Guadalajara, no México. Na final, o Brasil não tomou conhecimento de Cuba, bateu o adversário por 3 a 1 (25/11, 24/26, 25/18 e 25/19) e a partir daí foi só comemorar o feito. No pódio, os atletas fizeram a festa com o quarto título brasileiro na competição (já havia vencido em São Paulo 1963, Caracas 1983 e Rio 2007).Uma das medalhas douradas exibidas no pódio veio diretamente para Araraquara.

O atleta Renato Russomanno, que participou da heróica conquista, passou alguns dias na casa dos pais Sérgio Álvares e Sueli Russomanno, que esbanjavam orgulho. O atleta retornou ontem para Florianópolis, onde retoma a preparação com a equipe do Cimed para a disputa da Superliga Masculina de Vôlei, que terá início no mês de dezembro.Em entrevista ao jornal O Imparcial, o jogador falou da alegria que cercou o título. “Foi uma conquista maravilhosa, uma experiência única em minha carreira, pois todos os atletas sonham em representar a seleção brasileira em um torneio desse porte. Agradeço todas as pessoas que sempre torceram por mim e acredito que foi também uma vitória de Araraquara, pois eu procurei colocar o nome da cidade na frente para fazer o meu melhor”, explicou o jogador.Segundo ele, ouvir o hino brasileiro depois de conquistar uma medalha de ouro é indescritível. “A sensação de ganhar um ouro pelo Brasil em uma competição como essa só me faz querer trabalhar ainda mais para voltar a ter outros momentos como esse”, acrescentou.Foi o terceiro título de Renato no ano, já que conquistou o campeonato catarinense pelo Cimed e a medalha de ouro pelo Brasil nos Jogos Mundiais Militares. Nesta última, o atleta precisou fazer um curso de sargento para integrar a seleção.

Araraquarense de coração

Renato Russomanno dos Santos nasceu no dia 5 de janeiro de 1983 na cidade de Santos, mas foi em Araraquara que ele cresceu e se apaixonou pelo esporte, ainda criança. No início chegou a optar pelo basquete, mas suas primeiras experiências com o voleibol o fizeram mudar de idéia. Começou a jogar na escola e integrou a equipe pré-mirim da cidade, formada por garotos com idade entre 9 e 10 anos. Renato relembrou das primeiras estratégias de motivação que foram usadas em sua vida. “Primeiro comecei a disputar os jogos internos do colégio, depois os Jogos da Primavera. Aí o pessoal adorava porque matava aula. Quanto mais ganhava, mais matava. O diretor da escola dava cachorro quente se a gente ganhasse”, conta sorrindo o atleta, que na época estudava no Objetivo.Passou a representar a cidade nos campeonatos da Associação Pró-Voleibol (APV) e aos 15 anos foi para São Paulo fazer um teste no Pinheiros. “Até passei, mas naquele ano minha mãe não queria muito que eu fosse. Falou para eu ficar mais um ano em Araraquara”, afirma Renato, que sonhava em jogar por uma outra equipe da capital paulista. “Eu sempre quis ir para o Banespa, que era onde tinha peneira e era muito badalado na época. Infelizmente hoje não tem mais aquela equipe, mas naquela época era um time muito comentado”, salienta.Por isso, quando tinha 16 anos, ficou sabendo de uma peneira que teria naquele clube e não titubeou. Como possui família em Santos, Renato foi com o pai para o litoral e diariamente se dirigia a São Paulo, nos testes que seriam realizados em três dias, de segunda a quarta-feira. “Participei do primeiro dia, do segundo, do terceiro e então pediram para eu voltar na quinta. Meu pai precisava trabalhar e não dava para ficar lá, por isso ele conversou com os técnicos e eles falaram que eu tinha chance. Aí ficamos na quinta e também tivemos que ficar na sexta”, descreve o jogador.O teste contava com a participação de aproximadamente mil candidatos, dos quais apenas oito seriam escolhidos. “E depois de tudo isso eu não passei, pois fiquei em nono. Não entrei por um, mas me deixaram de sobreaviso. Voltei para Araraquara e continuei treinando. Alguns dias depois, me ligou uma pessoa do Banespa e falou para eu arrumar minhas coisas porque um dos atletas havia desistido”, conta.Naquele momento, Renato viu que não tinha mais como voltar atrás e que o vôlei seria a sua profissão. A primeira dificuldade seria conseguir ficar longe dos pais. “Não sei quem mais chorou. Foi complicado. Até para mim, quando parei ali e falei ‘já era’, estava sozinho e foi um baque. Mas deu tudo certo. Meus pais me levaram e lá eu passei por muitas coisas. Morei em uma casinha do Banespa com outros 12 atletas. Foi uma experiência muito boa. Posso dizer que foi um vestibular para mim. Foram quatro anos treinando muito dos 16 aos 20 anos”, observa.

História no Lupo/Náutico

Em 2003, o jogador resolveu voltar a Araraquara. “Conversei com o pessoal do Lupo/Náutico e me chamaram para vir pra cá. Estava iniciando a Superliga 2002/2003 e o técnico era o Paulo Mori. Era uma equipe boa e nos classificamos entre os oito. Foi meu primeiro campeonato em um time adulto”, lembra.O satisfação do atleta e do time rendeu uma renovação de contrato para a temporada seguinte, quando disputou um Campeonato Paulista e outra Superliga sob o comando do técnico Paulo Reis, que foi um dos incentivadores de Renato na época em que participava dos Jogos da Primavera.Mas sua segunda Superliga foi marcada por muita dificuldade, pois o time havia perdido seu maior patrocinador. Com isso, os atletas passaram a se transferir para outros clubes e Renato, que havia dado sua palavra de que permaneceria, foi um dos ‘sobreviventes’, mesmo com propostas de muitos times, inclusive uma de Portugal.O Lupo/Náutico passou a se chamar Shopping Jaraguá/Náutico e o time começou a se reestruturar para a competição nacional. Além de ficar na equipe, Renato ajudou a montar o elenco, indicando jogadores com os quais já havia atuado. “Foi legal porque conseguimos montar um time. Não fizemos uma ótima campanha na Superliga, mas tinha muitos valores que hoje são campeões e alguns jogaram até pela seleção brasileira. A oportunidade de jogar aqui foi importante para a carreira deles, que foram crescendo a partir disso”, explica.

Sucesso em Floripa

Hoje, Renato defende o time do Cimed de Florianópolis, onde conquistou por três vezes consecutivas o título da Superliga, que é a maior competição do voleibol nacional. “A Superliga é o campeonato máximo do Brasil. Estou indo para a minha nona edição e cada ano tem atrações diferentes e atletas de alto nível que estavam na Europa voltando para cá. É um incentivo muito grande. Hoje, o voleibol está muito forte no Brasil e eu vejo que a evolução desse torneio é muito grande”, avalia.O araraquarense revela que a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) irá realizar a Superliga Masculina Série B, que será uma espécie de segunda divisão da modalidade. Na divisão principal, a novidade da próxima edição deve ser a transmissão ao vivo pela Globo nas manhãs de sábado.“A Superliga é com certeza um dos três maiores campeonatos do mundo. Nessa próxima edição, por exemplo, temos pelo menos oito equipes com chances de título. Antigamente eram três ou quatro. Com certeza será uma briga muito grande esse ano e muita pauleira vai rolar ali”, confirma.Os objetivos de Renato são planejados em um dia de cada vez, por isso espera fazer outro bom trabalho na Superliga para concretizar sua maior meta. “Meu sonho é chegar à seleção para disputar uma Olimpíada, principalmente depois que disputamos esses Jogos Pan-Americanos e vimos como é bom jogar pelo Brasil. Mas temos que pensar em cada trabalho que a gente faz. Quando eu estava lá em Saquarema eu vi várias frases e uma me chamou a atenção, que dizia: ‘O dia fácil foi ontem’. E é assim mesmo, cada dia você tem que estar evoluindo. Então a idéia é fazer uma boa Superliga. Se der convocação, ficarei muito feliz e se não der, continuarei trabalhando”, completa.

Fim do time

Renato lamenta o fato do time masculino de vôlei não existir mais em Araraquara. “É triste por que o Lupo/Náutico era uma equipe que já tinha tradição no voleibol. Na décima edição, o time ganhou até um prêmio, junto com o Suzano, como as duas únicas equipes que disputaram todas as edições da Superliga. Fiquei muito triste, pois Araraquara é uma cidade que gosta tanto de esporte e isso era comprovado naquela época, quando o ginásio vivia lotado e o pessoal nos incentivava muito”, analisa.Para ele, o fato de ter um time profissional em atividade é determinante, não apenas para levar o nome da cidade para todo o Brasil, mas também para incentivar os novos talentos locais. “Lembro que quando era garoto, eu frequentava todos os jogos e assistia os treinos do time. Queria estar junto, olhando e aprendendo. E hoje a cidade perdeu isso. Hoje, os garotos de Araraquara que sonham em ser jogadores não têm em quem se espelhar”, lamenta.

Vôlei feminino

Renato também admite que ficou muito triste ao saber que o time de vôlei feminino da Uniara/Julia Moraes foi obrigado a desistir de sua vaga na Superliga em razão da falta de apoio financeiro. “Recebi essa notícia com muita tristeza, pois sabemos da dificuldade que é para chegar a uma Superliga. Quantos sonhos vão se perder ali? É um trabalho feito por pessoas muito competentes, que conseguiram o objetivo, e que está sendo jogado fora. Torcemos para que um dia as pessoas pensem mais no profissional. Não são pessoas que jogam para brincar e sim que têm o vôlei como uma profissão”, finaliza o araraquarense.

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