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José Carlos Bedran, um doutor das águas



“Eu quero ajudar as pessoas e que elas tenham uma consciência melhor delas mesmas, do que são capazes de melhorar para si e para a comunidade onde vivem”

Durante longo tempo o médico José Carlos Bedran foi ateu, depois agnóstico, mas suas experiências médicas com diversas comunidades carentes dentro de programas como o ‘Doutores das Águas’ e o ‘Barco Hospital’ o fizeram ter uma crença maior. “Esse algo maior existe, porém eu acredito mais nas pessoas, pois é nelas que a gente vê o que têm de melhor e de pior. Por isso, acho que o caminho é acreditar nas pessoas, ajuda-las da melhor maneira possível, mas também tem um grande problema de que muitas vezes você quer ajudar, mas a pessoa não quer ser ajudada. O importante é estar ali e ouvir o que ela precisa antes de querer ajudar por ajudar”.
Questionado sobre sua vida, Bedran conta que nasceu em Araraquara no dia 10 de outubro de 1980. É filho de Luiz Carlos Bedran e de Sônia Maria Bionde Bedran e irmão de Jorge Luiz e de Giovana, e vive um relacionamento estável com a companheira Josiane Massimino.
Grande parte da vida foi passada no bairro do Carmo, pertinho do Clube Araraquarense, em um tempo em que ainda se podia ganhar as ruas para as brincadeiras típicas  da infância como jogar futebol.
E José se lembra dos LPs, das fitas cassetes e também, embora bem criança ainda, não deixou de ficar ao pé do rádio para gravar as músicas preferidas.
E questionado se tem saudade de algo desse tempo, Jorge ressalta que tem saudade da época em si e, que na verdade, viveu um tempo de transição, onde foi conhecendo a Internet aos poucos, onde teve o primeiro e-mail aos 17 anos.
Quanto a escola e cursos passou pelo Colégio Progresso, fez inglês no Núcleo que ainda existe, alemão na Wizard que aprendeu, mas esqueceu por falta de prática.
Na fase de escolher uma carreira, no terceiro colegial, prestou Direito sem muita convicção. Pegou uma boa colocação, segundo lugar na Uniara, mas assim que o curso começou, largou. Não era definitivamente aquilo que queria. Resolveu fazer cursinho no COC, em Ribeirão Preto. Seu foco era medicina. Passou e fez o curso em Santos. “Escolhi cirurgia geral. Depois a sub especialidade coloproctologia que foi escolhida ao longo do tempo devido a alguns professores com os quais eu me identificava e que eram justamente dessa especialidade!

Grande lição

José se formou em 2005. No ano seguinte fez serviço militar, onde serviu a Força Aérea como médico, no Asp, em São Paulo. “Foi excelente. Conheci muitas pessoas e o mais interessante era que quanto mais alta a patente, como a dos generais, mais humilde a pessoa era. Lógico que havia respeito, mas eram as pessoas mais tranquilas para se conversar, diferentes de outros com patentes menores”.
Em 2007, José retornou para Araraquara onde fez PSF, hoje ESF(estratégia Saúde da Família) em Bueno de Andrada. “Foi uma grande mudança, mas ao mesmo tempo eu gostei muito porque virei um médico da família daquela comunidade”.
E essa experiência trouxe uma grande lição para o médico: colocar os pés no chão, que era um médico e que estava ali para ajudar. “Entrar na casa das pessoas, primeiro pedindo licença, e sentir o prazer de vê-los oferecer aquilo que eles têm, como um cafezinho feito na hora, sentar à mesa, conversar. Coisas de interior, mas coisas de ser humano”.
E paralelamente ao seu trabalho em Bueno, Jorge estudava para residência médica para se especializar. Acabou prestando concurso em alguns lugares e acabou retornando para Santos onde permaneceu durante dois anos fazendo cirurgia geral na Santa Casa da cidade. Ele se recorda que a participação na primeira cirurgia em Santos foi logo após ser chamado, ou seja, mal tinha entregado a documentação e no mesmo dia foi escalado para o plantão. A ‘estreia’ foi a participação em uma cirurgia na apendicite. E dali em diante a lição foi que treino é treino e que jogo é jogo. “Você vê e cai na realidade. A coisa muda”.
E quando estava terminando a residência para cirurgia geral, no final de quase dois anos já estava estudando para a outra especialidade, a coloproctologia, e depois de algum tempo prestou concurso e passou em São Paulo, no Hospital Santa Marcelina, Itaquera, onde permaneceu por dois anos. Depois disso fiquei ainda alguns meses em São Paulo onde fiz o chamado ‘Fellow’ através de uma bolsa AB que passou, da Angelita e Joaquim, do Instituto Angelita Harber e Gama e Joaquim Gama.
Lembrando que em sua área esse acompanhamento é considerado top e Angelita Harber é mundialmente famosa na área de ‘coloprocto’. “Fiquei alguns meses acompanhando o serviço dela em hospitais como Osvaldo Cruz, Sírio Libanês e Nove de Julho. “Você vê o que há de mais novo e moderno  na especialidade. É muito interessante e ela recebe estagiários do mundo todo”.

Palmas marcantes

Desde 2013, José está em Araraquara onde atualmente faz parte da Unimed. Mas antes disso deu alguns plantões e passou pelo Samu, que segundo ele, é uma experiência de amor e ódio, pois se vê de tudo um pouco. Ele gostava porque  sempre apreciou urgência e emergência, mas era algo que envolvia muita burocracia e provocava um grande desgaste tanto físico quanto financeiro.
Mas nessa parte do livro de sua vida ele guarda um capítulo dessa época de Samu. “Em uma parada cardiorrespiratória que a gente foi chamado em uma das áreas mais distantes do Selmi Dei. O caso era de um senhor alcoólatra que havia caído e já estava em parada. Fizemos a reanimação, entubamos. E a comunidade que se fez presente ficou por ali dando apoio. E no final quando o colocamos na ambulância o pessoal bateu palmas. Isso eu achei fantástico. O senhor não sobreviveu por que não tinha que ser, mas foi uma coisa muito interessante”.

Depois de certo tempo, o médico conta que o trabalho foi caindo na rotina e buscando na Internet alguns assuntos que pudessem interessa-lo, descobriu o site do Doutores das águas e passou a enviar e-mails que nunca eram respondidos, mas não desistia e passou a entrar em contato com o coordenador que dizia a ele para continuar enviando e-mails. Foi realmente persistente. Até que conseguiu. “E depois que consegui o coordenador me disse que só pegavam pessoas que eram persistentes”.

Barco Hospital

Mas antes de participar dos Doutores das águas, José havia participado em 2006 através de alguns acadêmicos de medicina da Unimes, sua faculdade em Santos da primeira expedição ao Amazonas denominada Barco Hospital. “Era a primeira vez que estavam indo, alguns acadêmicos iriam, mas estavam precisando de médicos e assim participei dessa expedição cujo barco era de uma igreja metodista cujos integrantes realizam várias expedições com esse viés social. Fui e foi excelente”.
Essa experiência para José foi inédita e ele não sabia como iria ser. Ficou sabendo que a principio seria realizado um atendimento básico, mas cauteloso levou sua maleta com material par urgência e emergência. “A gente chegou ao aeroporto em Manaus e de lá a gente foi de barco. Foram 20 horas de viagem a noite até chegar à primeira comunidade e em cada dia íamos a uma comunidade tanto indígena como ribeirinha. Foram sete dias de grandes experiências. Para prevenção dos participantes foram levadas água mineral, principalmente pata beber e escovar os dentes. Essa expedição foi registrada pelo fotógrafo Lucas Tannuri de Araraquara com o objetivo de posteriormente angariar recursos para a sobrevivência do projeto que ainda continua, embora Bedran não tenha mais participado.
Mas a sua percepção diante de um outro universo ficou mais aguçada. O cronograma das comunidades por onde o grupo iria passar já haviam sido delimitado pelos membros da igreja que utilizavam salões das igrejas, quadras de esportes ou salas dessas comunidades para atendimento, mas as pessoas que não podiam ir, os membros da expedição iam até elas. A grande maioria das casas era de pau a pique, bem humildes. Eu perguntava quantas pessoas tinha na casa, como era a alimentação, se tinha água potável e em relação à higiene, onde era o banheiro Não tinham nada de nada. Tinha um fosso nos fundos, a água era a do rio, e não era filtrada, nem clorada e nem fervida. E quando a gente fala de ferver água parece algo muito fácil, mas eles não têm gás de cozinha, pois é muito caro e eles não têm esse costume. O que tem hoje em algumas regiões é a água clorada. A percepção era semelhante à de Bueno, só que a situação lá era bem mais precária”.

 

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