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“A universidade precisa sair da concha”



Professora Bernardete Gatti analisa o estado da pesquisa em formação de professores e a importância de a universidade dar projeção para essa produção

“A universidade precisa sair da concha”

Por Marcos Jorge

 

Atual presidente do Conselho Estadual de Educação (CEE), Bernardete Angelina Gatti mi­nistrou um dos seis minicursos do primeiro dia de atividades do IV Congresso Nacional de Formação de Professores e XIV Congresso Estadual Paulista Sobre Formação de Educado­res, tradicional evento organi­zado anualmente pela Unesp.

Desde a década de 1960, o tema da formação docente é o principal objeto de pesquisa de Bernardete, que, aos 75 anos de idade, terá um livro analisando a aplicação das po­líticas educacionais da última década publicado em 2019. Nesta entrevista, a professora comenta a necessidade de a Universidade dar projeção às pesquisas que são produzidas na área e aponta para a neces­sidade de conjugar a formação adequada de professores com a valorização da carreira.

Jornal Unesp: A senhora or­ganizou uma das seis oficinas que abriram as atividades dos Congressos. Sobre o que foi a oficina?

Bernardete Angelina Gatti: Eu falei sobre pesquisa em educação e, particularmente, sobre pesquisa em formação de professores. Além disso, fiz uma apresentação sucinta de algumas modalidades de pesquisa, os métodos quantitativos, suas demandas e seus limites. Finalizei falando sobre alguns problemas na formação do professor.

JU: A senhora poderia apontar alguns desses problemas?

Bernardete: Acredito que nós não cuidamos bem dessa formação. Ela não se faz apenas pelos manuais, embora os muitos deles, com seus métodos consolidados, sejam importantes. Mas, além disso, o pesquisador precisa ser uma pessoa culta, leitora, que tenha um repertório de cultura geral e especializada nas áreas que tangenciam essa formação. Formar um pesquisador não é simples. Há uma estimativa que você leva 15 anos para que isso ocorra de fato. Fora dos manuais, você se forma pesquisador também trabalhando em grupos de pesquisa. Nós dizemos que temos um grupo de pesquisa, mas ele não funciona coletivamente como um grupo. Não há uma questão macro, um projeto guarda-chuva do qual você extrai problemáticas específicas que são estudadas por todos os integrantes. Claro que existem grupos assim, mas não tantos quantos seria necessário.

JU: E a aplicação dessas pesquisas na escola ou em uma política pública, isso tem sido feito?

Bernardete: É feito quando alguém da universidade ocupa um cargo em uma rede de ensino e experimenta novos projetos. Não há um grupo de pesquisa que se debruce sobre, por exemplo, o que foi produzido sobre trabalho docente em sala de aula e use isso para fazer informes para jornais, revistas ou secretarias de educação. A universidade precisa sair da concha. Ela fica esperando que as pessoas venham buscar a informação dentro dela. Publicações que abordam o “estado da arte” nos permitem um olhar mais amplo e sinalizam conhecimentos confiáveis que a gente criou sobre determinada questão. Nos anos 1990, a professora Magda Soares fez uma publicação sobre o estado da arte da alfabetização. Nós publicamos um estado da arte sobre a formação do professor, que gerou dois volumes publicados pela Unesco, em 2011, e agora estamos lançando mais um.

JU: Eu fiquei com uma im­pressão pessimista sobre a sua visão da área, mas ao mesmo tempo estamos falando de algo muito recente…

Bernardete: É uma visão pessimista, pois temos a oportunidade de expor certos problemas que poderiam ser solucionados, mas você não percebe a comunidade acadêmica querendo solucioná-los. Ninguém quer mudar muito a estrutura das licenciaturas, por exemplo. Essa estrutura foi montada nos anos 1930 e até hoje é mais ou menos a mesma: oferece-se o conteúdo e coloca-se uma tintura de educação. As pessoas que chegaram na escola mudaram, a nossa história caminhou, sociologicamente, a nossa sociedade sofreu transformações enormes, assim como as formas que a gente tem que chegar na escola. A gente sente que nem sempre existe a disposição em discutir abertamente o que está sendo feito, mas estamos chegando lá. O debate acadêmico sobre o currículo de professores, de fato, começou em 2010. Essa produção forte ainda é muito recente e, em meio a muitas coisas, com problemas, encontramos contribuições sérias e consistentes.

JU: A senhora comentou que existe uma falta de pesquisas na área de financiamento da educação. De que forma isso afeta a área?

Bernardete: Existe uma falta de produção na área de financiamento da educação, e esse tema está diretamente ligado à profissionalização docente. Qual o destino do dinheiro da educação, que no Estado de São Paulo representa 30% do orçamento e no Brasil 7,1% do PIB? Para onde vai esse dinheiro, já que o professor ganha tão mal? Como municípios e estados poderiam ser ajudados de forma a remunerar melhor o professor? Esse nosso estudo que vai ser publicado em fevereiro aponta essas distorções do emprego do dinheiro da educação e chama a atenção para pensar em mudar a carreira do professor, oferecendo um salário inicial maior e fazendo uma progressão mais lenta. A ideia é que esse salário estimularia as pessoas a seguirem na carreira. Por que não separar o salário de professor dos salários de supervisores e de diretores? Por que um supervisor precisa ganhar mais que um professor? Nós estamos em um sistema hierárquico e não conseguimos tirar isso da cabeça das pessoas.

JU: O que é esse estudo exata­mente?

Bernardete: É um livro que escrevi com as professoras Elba Barreto e Patrícia Albieri, da Fundação Carlos Chagas, e Marli André, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). A gente procurou estudar o que aconteceu de fato e não de discurso nas políticas educacionais de 2010 para cá e as novas propostas que surgiram em 2015, que estão com dificuldade de encontrar eco nas faculdades. Abordamos as distorções de financiamento, questionamos quem está formando esses professores. Uma das conclusões do trabalho é que a maioria desses professores não tem a formação necessária. Ela precisaria ser mais específica, mas, desde o concurso, seleciona-se o profissional só pela produção em pesquisa, sem discutir a experiência de ensino.

JU: Recentemente, foi publi­cada uma pesquisa em que apontou o aumento do desin­teresse pela carreira de magis­tério. Como a senhora vê essa constatação?

Bernardete: Há dois motivos para isso: primeiro o professor demora para chegar em um salário digno. E, segundo, nós falamos muito mal da carreira. Quando a gente entrevista os professores, eles reconhecem o sacrifício, mas se sentem felizes. Acredito que o Ministério da Educação, alinhado com estados e municípios, precisa criar políticas integradas de formação e carreira que contem com a adesão das universidades, fato que atualmente está difícil de acontecer.

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