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Você faz a história – Mjrthis de Angelo da Silva

Mjrthis, uma brava guerreira. Quando se recorda das coisas do passado, diz que seu coração chega a arder

Célia Pires

Ainda hoje depois de tantos anos, Mjirthis Angelo da Silva, é carinhosamente reconhecida pelos alunos que estudaram no SESI 158 onde trabalhou durante 35 anos, primeiro como merendeira e depois como inspetora. Nascida em 4 de julho de 1937 em Américo Brasiliense. Filha dos saudosos Francisco de Angelo e de Mariana Firmiano de Angela e irmã de Venceslau de Angelo.
Ela conta que teve uma infância pobre, uma menina criada quase sem nada. “Meu pai era um homem bonito e educado, mas doente e quase não podia trabalhar direito. Meu irmão trabalhava com meu tio num armazém e minha mãe lavava roupa para uma tia e me levava junto. Era uma vida difícil, mas benquista”.
Antes se de mudar para Américo, a família morava numa fazenda, a Recreio (próximo a Usina Santa Cruz), onde a mãe escolhia café e o pai trabalhava na roça. Depois mudaram-se para a cidade em busca de uma vida melhor.
Seu pai alugou uma casinha no cortiço do Manoel Carneiro. Tinha um quarto que vivia fechado, pois a mulher do proprietário tinha intenção de fazer uma fossa e acabou desistindo, mas o buraco ficou. Foi fechado com umas tabuas grandes, mas a proprietária não avisou o novo inquilino do perigo.

Poço profundo
Certo dia Mjrthis, ainda criança, estava no referido quarto fazendo suas necessidades em seu ‘piniquinho’-, pois a mãe tinha medo que ela e o irmão usassem o banheiro que era comum a todos do cortiço-, cismou com o quarto, pois havia sonhado com seus pais subindo e descendo numa espécie de buraco. E ao observar o chão viu uma fileira de tijolos. Contou para a mãe que mandou chamar seu pai na fábrica em que este trabalhava. “Ele veio e com um machado começou a tirar as tábuas do tal quarto, pois a filha havia dito que tinha visto uma coisa estranha. De repente aquilo caiu e meu pai quase foi junto. O buraco, um poço, tinha uns 80 metros de profundidade. Poderia ter morrido a família inteira”.
Quando um pedreiro veio para aterrar o poço, Mjrthis estava perto e o este ao encontrar um pente sugeriu que a menina penteasse os cachinhos. Ela assim o fez. Depois daquele dia os cabelos da menina começaram a cair”.
O cabelo da então menina, caia, mas estranhamente não se encontrava os fios nem no travesseiro e nem no pente. O pai a levou para vários lugares, curandeiros, farmácias para fazer raio laser. “Ele ficou triste e a minha mães escondia as partes sem, como podia. Até os 18 anos eu tinha cabelo. Uma senhora chamada Patrocínia que tinha um instituto de beleza fazia coques para mim com os cabelos que ela cortava. Enquanto, deu para cobrir eu cobri. Depois tive que usar peruca. Tive lupécia que faz cair todos os pelos do corpo”.
Seu pai faleceu aos 55 anos de colite, na Beneficência Portuguesa. “Eu tinha 18 anos. Nessa época já morava em Araraquara, na Vila Xavier. Quem fez o enterro do meu pai foi meu tio Benedito Nicolau que era prefeito de Américo. Quem cuidou do meu pai foi Frederico de Marco, o cientista que fazia chover”.

Conhecendo o amor
Depois de algum tempo num passeio com uma amiga a um parque de diversões , o Havai, na praça Pedro Toledo, conheceu aquele que viria ser seu marido, João Antonio da Silva, que era o responsável pela referido parque. “Era um moço muito bonito. Ele resolveu nos acompanhar até a Vila Xavier e não desistiu quando avisaram que não poderia passar do pontilhão para cima, pois quem era da cidade era da cidade e quem era da Vila era da Vila”.
Quando chegaram no pontilhão tinha uma turma esperando para atacá-lo, mas João, armado de uma faca que sempre carregava enfrentou a todos e passou. Ai começou a história de amor de Mjirthis e João.
Como se sentia presa em casa pelo excesso de zelo, principalmente por parte do irmão Venceslau, fugiu e foi embora com João. “Quando o parque foi embora eu fui junto. Eu dormia dentro do trem fantasma. Levei minha cama e minhas roupas numa cômoda”.
O casal teve dois filhos: Fátima e o saudoso Ulisses, que morreu em seus braços aos 39 anos em consequencia de uma parada cardíaca. “Quando meu filho morreu, imediatamente minha filha foi até a nossa casa e disse a ele: meu irmão não posso te dar meu coração, mas te dou esse. “Ela tirou um cordão em forma de coração do pescoço e colocou no irmão”.

Tragédia
Com o nascimento da filha, Mjrthis pediu para que o marido viesse morar em Araraquara. Assim ele largou o parque. As dificuldades não eram poucas, e como estava difícil conseguir emprego na cidade, o marido partiu para São Paulo, mas depois de quase um ano retornou.
Myrthes não ficou parada e durante o tempo em que o marido esteve fora, trabalhou.
Quando ele voltou para Araraquara, Mjrthis conseguiu um emprego para que trabalhasse como eletricista na Usina Maringá, onde tempos depois sofreria um grave acidente: levou uma descarga de 11.400 volts. Aquele belo moço perdeu as duas pernas e o braço esquerdo. Teve que no resto de sua vida se utilizar de muletas e de um triciclo para poder se locomover. O triciclo foi feito pelo conhecido Tabu. E esse mesmo tipo de carrinho, um triciclo, adaptado com motor de lambreta o levou a morte depois de um acidente onde o motor do carrinho bateu na cabeça dele provocando traumatismo craniano.
Ela conta que o marido vendia bilhete e ficou conhecido como Chicão. Sobre si mesma diz que trabalhou durante 35 anos no Lar Juvenil ‘Domingos Sávio’. Vendeu absolutamente de tudo que tinha direito para que nada faltasse aos filhos: reclame de melancia, do Gessy Lever; frigideira que fritava sem óleo, entre outros produtos. “Vestia o que os outros me dava e hoje tenho para dar. Não me falta nada, mas se você perde a mãe, um filho, você perde muito, pois apesar das dificuldades minha mãe preferia morar comigo, pois tinha adoração por mim”, diz acrescentando que uma de suas maiores dores foi ver a mãe na hora da morte chamando por um dos netos e este mandou falar que não estava.

Afetos
Como tinha habilidades, João chegou a fabricar um desses triciclos para um conhecido do atual vice- prefeito, Coca Ferraz, amigo até hoje. “Eu e o Coca somos parceiros de longa data. Lembro dos livros que escreveu e Rincão eu fui receber em nome do Chicão. Sou grata por você existir na minha vida”, diz citando outras pessoas que muito considerava e considera como, o conêgo Clodomiro Storniollo, que considera um dos maiores padres que a cidade já teve; a amiga, Marta Bussadori e Ercules Piovan, padrinho do seu filho, entre outros. Ela não esconde o grande orgulho dos netos, a pedagoga Mariana e o jornalista Geraldo Armando Cardoso Neto e também dos bisnetos Pedro e Raul.

Brava
Mjrthis nunca deixou de ajudar a quem dela precisa, embora tenha passado por privações em casas onde trabalhou, onde somente comia se sobrava.
Ela diz que não é brava, só não admite que a humilhem. Por conta disso já teve alguns problemas nas proximidades onde mora. “Não mereço ser chamada de p… e nem de vagabunda, pois trabalhei a minha inteira. Nunca fiz mal a ninguém. O que me entristece é chegar no fim de uma vida que construi e colaborando até vizinhos e em troca receber humilhação e indiferença, mas Deus vê os atos de cada um”.
Mjrthys não é uma celebridade, mas é exemplo de uma mulher batalhadora, determinada, algumas vezes brava, mas sempre uma brava mulher.

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