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Nando Antunes: Clube dos Vitalícios

Irmão de Zico em entrevista ao jornal O Imparcial, falou de futebol e ditadura

José A C Silva
Esteve ontem visitando O Imparcial, o carioca da gema Fernando Antunes Coimbra, acompanhado pelo Antônio Pedroso Junior, Pedrinho Renzi e Antônio Lazaro Prado de Almeida. O motivo principal da sua vinda à Araraquara, foi a noite de autógrafos do seu novo livro “Clube dos Vitalícios” que aconteceu no Bar e Bola Café. O Nando, filho do seu Antunes e da Dona Matilde, como a maioria das crianças do bairro de Quintino – Rio de Janeiro, começou a jogar bola na rua com seus irmãos e amigos. Três dos irmãos foram jogadores de expressão no futebol brasileiro e internacional – Antunes, Edu e Zico. Aluno da Faculdade Nacional de Filosofia, Nando fez parte do PNA, o Plano Nacional de Alfabetização, de Paulo Freire. Por isso, foi considerado subversivo pelo regime militar, e a cada clube que chegava, recebia uma desculpa diferente para não ser escalado. Quando foi para o Belenenses, de Portugal, descobriu que estava sendo vigiado pela polícia de Salazar, e também pelos militares brasileiros. Então, decidiu voltar para o Brasil e encerrar a carreira, tentando preservar os irmãos Antunes e Edu, já consagrados, e a promessa Zico, que despontava no Flamengo.
Anos de chumbo
Em 1964 o Brasil vivia os primeiros momentos de uma ditadura militar que duraria 20 anos. Enquanto João Goulart era deposto e o marechal Humberto Castelo Branco assumia a Presidência da República, o centroavante Antunes já fazia sucesso no Fluminense. Nando, dois anos mais novo, estava dividido entre a bola e os livros. Cursava a Faculdade Nacional de Filosofia, e jogava na base do Tricolor das Laranjeiras.
“Eu e a minha irmã (Zezé) fizemos concurso para o PNA, o Plano Nacional de Alfabetização, do grande Paulo Freire. A Zezé era coordenadora e eu professor, mas foi muito rápido, porque aí entrou a ditadura e o primeiro ato no Rio de Janeiro foi extinguir o PNA e considerar todos subversivos”, disse Nando.
Fernando Antunes Coimbra começou na base do Flu, mas se profissionalizou no Santos de Vitória (ES). Depois, passou pelo América e pelo Madureira, até chegar ao Ceará, onde viveu o melhor momento da carreira, em 1968.
No Vozão, Nando recebeu uma proposta para jogar no Belenenses, de Portugal. A transferência para lá expôs o problema que acabaria com a sua carreira. O jogador vinha sendo vigiado pela ditadura militar desde quando estudava na faculdade de filosofia. A relação próxima com sua prima Cecília Coimbra fez dele um inimigo em potencial do regime. Hoje presidente do grupo Tortura Nunca Mais, Cecília foi colaboradora do MR-8, o Movimento Revolucionário Oito de Outubro.
Poucos meses após sua chegada em Portugal, Nando foi dispensado. E não pelo treinador, ou por um dirigente do clube onde jogava, mas pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado, da ditadura de Salazar, que comandava o país. Nando conta que foi aconselhado para voltar ao Brasil. Por ser filho de português, poderia ser convocado para as guerras na África que estavam acontecendo naquele período.
“Chegaram já demonstrando que o que eles queriam falar comigo não era nada de futebol. Eles disseram que tinham muita informação de outras atividades minhas no Brasil. Aí já veio na cabeça, um filme passou. No dia seguinte um diretor me pressionou, sabia que eles tinham ido. Então eu falei que tinha que vir embora”, contou Nando.
De novo no Brasil, Nando acabou preso pelo DOPS, o Departamento de Ordem e Política Social do regime militar. Ficou encarcerado por cinco dias, nos porões da Rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.
“Passamos dois dias com a cara na parede, com a mão na cabeça, e o braço começava a descer e eles vinham com aquele mosquetão nas tuas costas, e xingando. Toda hora levavam a gente pra sala de tortura, de interrogatório”, revelou Nando.
Seus irmãos Edu e Antunes foram para a porta da Polícia do Exército, pedindo para também serem presos.
Anistia
Depois desse episódio, Nando ainda tentou voltar ao futebol, no Gil Vicente, de Portugal. Mas logo desistiu da carreira, para preservar os irmãos. Inclusive o caçula Zico, que já despontava na base do Flamengo.
“Eu tinha que desistir, porque o meu pavor era prejudicar a carreira deles. Mas não adiantou, porque o Edu não foi à Copa de 70 com certeza porque eu e a Zezé éramos do PNA. E Zico também foi cortado das Olimpíadas de 72 porque eu fui preso”, explicou Nando.
Em 2003 entrou com um processo na comissão de anistia do Ministério da Justiça, e em dezembro de 2010 foi oficialmente considerado um perseguido político da ditadura brasileira –
Nando foi o 1º ex-jogador de futebol a ser anistiado no Brasil.
Maradona
O Imparcial, perguntou quem é o melhor Zico ou Maradona?
“O grande Ídolo de Maradona sempre foi o Zico, ele aprendeu muita coisa vendo o ‘Galinho’ jogar, inclusive bater falta. O filho do Zezé Moreira, estava trabalhando na Argentina e como Zico estava lá com Flamengo, pediu que ele olhasse o filho da roupeira jogar. Dieguinho sabendo seu ídolo estava analizando seu futebol fez o capeta com a bola. Zico disse, ele vai ser o melhor jogador do mundo. Para mim o meu irmão foi melhor”, finalizou Nando.

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