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Estudante de Medicina de Araraquara conhece realidade de ribeirinhos do Pantanal

Experiência como voluntária por 10 dias atendendo na beira do rio no Pantanal mudou a vida de Maria Cecília

Estudante de Medicina de Araraquara conhece realidade de ribeirinhos do Pantanal

Adriel Manente

“Uma viagem que mudou a minha forma de enxergar a vida”, palavras fortes, mas que resumem perfeitamente a experiência vivida pela estudante do 5º ano do curso de Medicina da Universidade de Araraquara (Uniara), Maria Cecília da Silva Valim. Aos 26 anos de idade, a jovem resolveu se inscrever para um programa de voluntariado que visava atender a população ribeirinha do Pantanal por um período de 10 dias. “10 dias que mudaram a minha forma de ver a medicina”, como ela mesmo relata.

Uma realidade diferente

A começar pela dificuldade em se chegar até lá. De Araraquara a viagem começou até São Paulo no dia 5 de fevereiro. De lá, onde se juntaram com outros cinco voluntários, os carros, carregados com alimentos, seguiram o destino até a cidade de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. A viagem levou aproximadamente 30 horas. Por fim, ao chegar à cidade Pantaneira, mais 2 horas e 20 de viagem de barco pelas margens do rio Paraguai até a base ribeirinha. “Pensava que aquela realidade estava em países como África do Sul e Bolívia, e estava longe de nossa realidade, do nosso Brasil, mas não”, relata a moça, em depoimento.

As casas eram de chão batido. Foto: Maria Cecília da Silva Valim

Durante o caminho, Maria Cecília avistava as populações ribeirinhas. E a pesca, principal atividade dos povoados às margens do Paraguai. Quando enfim chegaram ao seu destino, perceberam logo o árduo trabalho. Uma casa de madeira, em um calor de 40ºC em um clima extremamente úmido. Lá, ela foi apresentada à “Mutuca” – um mosquito da região que tinha aos montes no local. Um grande problema para quem ia dormir em uma rede à beira do rio.

“Assim que anoiteceu fui chamada para ver o pé de seu Benedito, um morador local que havia lesionado o pé com um ataque de uma piranha”, descreve Maria. “Fui até sua casa e, quando entrei nela, o choque de realidade. A casa era de taipa, de chão batido, pequena, com uma divisão que separava a “cozinha” do quarto, era sem janelas, sem telas de proteção, sem iluminação e muito quente. Improvisamos uma sala de curativos e lá mesmo, sob a luz da lanterna, limpei e fiz o curativo”.

Essa é apenas uma das muitas histórias acumuladas em 10 dias de viagem. Nesse período, a aprendiz de médica viu e ouviu de tudo. Pessoas contando seu cotidiano, sobrevivendo como podem, convivendo com todos os problemas, dos mais básicos aos mais complexos. “Seu Benedito Me contou que não comiam carne, não sabia o que era internet, não assistia televisão. No fim, disse que era feliz”, comenta.

Na escola, quase todas as crianças estavam doentes. Foto: Maria Cecília da Silva Valim

Corrupção até nos lugares onde menos se espera

Maria Cecília também passou pela escola e pela igreja. Na escola, aliás, o maior baque. “Praticamente todas as crianças eram portadoras de parasitoses e de anemia”, ressalta. Na igreja, culto uma vez por mês. “Quando entramos tivemos uma surpresa. A igreja estava cheia de roupas, sapatos, todas provenientes de doações. Porém, a pessoa que cuidava das roupas as vendia em vez de doar. E, quando as roupas ficavam velhas, a pessoa as queimava” indigna-se a jovem médica, lembrando que até mesmo na simplicidade, o coração humano é capaz de coisas dessa natureza.

Uma lição para a vida toda

Luana, 14 anos. “Pediria uma caixa de bombom”. Foto: Maria Cecília da Silva Valim

“Lá conheci uma adolescente, Luana. Não sabia o que era internet, luxo, nada. Mas disse que era feliz. Quando perguntei: -“Se você pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que você pediria? ” – Ela sorriu e disse: “Pode ser qualquer coisa mesmo? Pode ser caro? ” Eu disse: “Pode”. Eis que ela respondeu: “Uma caixa de bombom”.

Buraco no chão de banheiro e água direta do rio, sem ao menos ferver, nem filtrar. Essa é a realidade daquele povo. Um relato da estudante chama a atenção. “Eu estava com muita sede e pedi um copo de água. O ribeirinho então me trouxe um copo limpo, e uma água turva em uma jarra de plástico e me disse: “Doutora, nossa água não é como a do cês, não é limpinha igual, mais é a que nóis bêbe, nóis pega do rio, limpa ela e depois bêbe”, aquilo, segundo ela, uma das coisas que mais a comoveu.

Violência Oculta

“Percebi o quanto aquelas pessoas precisavam de ajuda”. Foto: Maria Cecília da Silva Valim

“De longe, avistei uma mulher em prantos, chorando muito. Fui até ela, e perguntei o que se passava, ela com a voz baixa me disse – “Sinto muita dor de cabeça, doutora, vomitei muito e não tenho forças para ficar em pé”, algo me dizia que aquele choro não era por isso”, desconfiou Maria.
Conversando com a mulher mais intimamente, a mulher confessou que apanhava de seu marido quase todos os dias. “Algo inimaginável nos dias de hoje”, diz a estudante de Medicina.

Conclusões
“Não acho que devemos nos sentir culpados por eles, pela situação miserável que vivem. Mas ver que, além de nós, existem pessoas que precisam da nossa ajuda, do nosso carinho e atenção, do nosso olhar. Não devemos ser conformados e devemos ter ambições na vida, na verdade isso é necessário porque nos faz crescer e nos faz correr atrás de nossos sonhos. Com essa missão pude ver e ter certeza de que a medicina não precisa de muita tecnologia e ferramentas. Bastam apenas quatro itens fundamentais e essenciais: Mãos e sensibilidade, olhos e atenção, ouvidos e muita paciência e compreensão”, finaliza a jovem, que levará para sempre a experiência para dentro de uma clínica ou consultório médico.

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