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Edna Martins,uma guerreira nas trincheiras políticas

A menina tímida teve que dar vez a uma mulher desbravadora, guerreira e que ainda sonha, depois de muitos anos com um mundo melhor 

Célia Pires

Edna Martins nasceu em Nhandeara, próxima a São José do Rio Preto. Ali os pais José Martins e Antônio Rivera Martins eram trabalhadores rurais numa fazenda da região e vieram para Araraquara em busca de oportunidades e para que os filhos pudessem estudar e a cidade, na época, tinha uma migração daquela região. Tanto que o pai trabalhou na construção do Gigantão, Assim, a menina nem ficou na cidade em que nasceu crescendo na Vila Velosa
Ela se lembra que na infância, o bairro era de periferia, sem asfalto, com muita mata e eram poucos moradores, poucas famílias e com isso havia muita solidariedade. “Não tinha água que a gente buscava no poço perto da Luiz Alberto,Era meio fazendo ainda naquela época”.
Edna estudou no Leticia de Godoy, depois Duque de Caxias(colegial) onde fez Processamento de Dados, pois trabalhava na Lupo e havia passado num concurso interno e como pertencia ao Departamento Pessoal. Os computadores, enormes, estavam sendo implantados e ela queria entender como funcionava tudo aquilo. “Dali sai para o curso de Ciência Sociais na Unesp.
Ela explica que escolheu ’Sociais’, pois desde a adolescência participava de um grupo de jovens da igreja Nossa Senhora Auxiliadora. “Naquela época havia a Teologia da Libertação e uma grande discussão dentro da igreja sobre os problemas sociais do país. A gente discutia muito sobre a questão de como a sociedade era organizada e como a gente podia ter uma intervenção a partir da fé e da igreja que mudasse o mundo. Por isso me interessei pelo curso para entender como funciona a sociedade”.

A politica

E foi nesse grupo de jovens da igreja que Edna começou a tomar consciência da importância de uma intervenção social, de se organizar para conseguir seus direitos. Tanto que, embora jovenzinhos fizeram vários movimentos para conseguir melhorias para o bairro, como asfalto. “ Depois que surgiu o Selmi Dei, que pertencia a mesma paróquia, a gente ia para lá fazer trabalho de comunidade, conversar e conscientizar as pessoas.Eu era professora de Crisma.Todo mundo se envolvia muito, então foi natural a discussão sobre a questão da política”.
A política então foi acontecendo para o grupo, cujo orientador era Rubens Miranda que os iniciou na leitura de Marx, da importância do partido político na intervenção social. Assim foram observando os partidos e o PT ,que tinha muita ligação com a igreja,foi o que mais ‘casou’ com os anseios do grupo que montou um núcleo do referido partido no bairro onde moravam.”Eramos do grupo dos igrejeiros do PT.Ai começamos a participar do PT na cidade, onde havia o Carnesseca Neto, o Flávio Haddad.
Edna conta que na sua família ninguém faz parte da vida política, por isso no começo teve alguma dificuldade para entenderem o que estava fazendo, mas o pai sempre foi extraordinário e que prestava atenção na política e conversava com a jovem, principalmente, por ter vivido a questão da ditadura militar no país. “Ele me apoiou , eu tinha mais atrito com a minha mãe que ficava no controle e queria saber o que eu estava fazendo”, ri, acrescentando que sempre houve muitos questionamentos sobre isso, de se dedicar aos outros e que precisava cuidar da vida dela. “Mas sempre consegui conciliar.Trabalhava desde muito jovem, sempre estudei e militava.Isso faz parte da minha vida há muito tempo”.

Breve histórico

Antes de trabalhar na Lupo, Edna trabalhou no comércio da cidade,uma de venda de roupas e outra de calçados.
Dentro do movimento da igreja havia a Pastoral Operária e como trabalhava na fábrica Lupo começou a freqüentar o lugar. “Na Lupo não havia organização sindical,começamos a conversar com um grupo de trabalhadores para organizar o sindicato, ocasião em que conheci o ex-vereador Carlos Nascimento. Como a gente já havia organizado um grupo antes dele, a primeira presidente do Sindicato Têxtil da Lupo foi a Maria e depois o Nascimento. A gente trabalhou nessa primeira organização do sindicato da Lupo já pensando já em formar o pessoal da diretoria já pensando na questão das mulheres, pois o Lupo era majoritariamente composta de mão- de- obra feminino”.
Em 1994 fundou a Ong Cedro Mulher que foi pioneira em Araraquara e região no acolhimento, assessoria jurídica, tratamento psicológico e encaminhamento para as mulheres vitimas de violência.”Ainda na época em que eu participava da comunidade da igreja já havia começado a problematizar a situação das mulheres, pois ouvíamos e conversávamos sobre os problemas; mulheres tristes que iam à igreja em busca de aconchego, de solução para esses problemas. Eu sempre muito observadora. A gente fez’ missa-fêmea’, a mulherada participava, a gente fazia entrada com panelas na homilia para mostrar a realidade das mulheres e na Pastoral Operária isso teve muito mais ênfase, pois a diferença de tratamento no mercado de trabalho entre mulheres e homens era muito gritante. “ Passei a participar da CUT e lá discutia-se o movimento da mulher trabalhadora”.
Em2001foi eleita vereadora, assumindo a Comissão de Obras.Em 2004 é reeleita sendo a vereadora mais votada da cidade e de 2007ª 2008 passa a ser a primeira mulher na história da cidade a assumir o cargo de presidente da Câmara Municipal de Araraquara.
Em201/2012 foi presidente do Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Mulher e desde 2009 é secretária Estadual da Mulher do Partido Verde e integrante da executiva estadual do PV/São Paulo.
Em 2012 assumiu a presidência da Comissão de Tributação,Finanças e Orçamento e Comissão de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Urbano Ambiental.Também presidiu a Comissão Especial de Estudos que elaborou a lei que deu origem à Escola do Legislativo e a CEE sobre o Parto Humanizado.É presidente da Escola do Legislativo. Em 2013 foi eleita presidente do PV em Araraquara.
Entre todos os fatos o que elege como um dos mais marcantes é a disputa para a prefeitura em 2008. “Uma eleição onde me dei conta que não dá para ter somente boas intenções, precisa de muita articulação e se fortalecer muito para conseguir esse espaço”.
Fazer política é uma coisa muito difícil e que coloca muitos desafios e ela critica consigo mesma e acredita que a forma de organização da política ainda é muito masculina.
Ela como mulher no cenário política, já houve momentos em que recebeu muitas criticas, como o de ser perua ou simplesinha. “Mas como ser as duas coisas ao mesmo tempo?Hoje estou muito tranqüila em relação ao que sou. A questão da imagem é importante, mas não me preocupo muito com isso não”.
Seu maior aprendizado foi na época em que criou o Cedro Mulher que foi muito criticado.As mulheres do grupo foram chamadas de vadias e até expulso da Câmara Municipal quando foi em busca de apoio para o projeto do Edinho para a criação da casa abrigo. “Quem nos apoiou foi a radialista Zeze Bellini. Isso hoje é muito engraçado, pois temos a Frente Parlamentar das Mulheres”.
A vereadora traz em si o sentimento de justiça em relação à vida das mulheres.Ela conta que na época em que orientava as mulheres no Cedro, buscou terapia para lidar com as suas questões e lidar com os problemas das outras mulheres, para não se confundir com as vitimas.
Essa terapia a fortaleceu também nas relações pessoais, pois o fato de ser ex-companheira de Edinho Silva também acabou por gerar algumas questões impertinentes, mas que fortalecida emocionalmente sempre tirou de letra.

Familia

Edna é a caçula de sete: irmãos Gabriela,Helio, Odete,,Edson,Aparecida e Eder.
Edna tem um filho do relacionamento com Edinho Silva, o Pedro e Ariadne, filha de José dos Reis.Atualmente está cada com Fernando Câmara, o Galo.
Para Edna seu saudoso pai, José Martins, era um homem correto e muito justo e ensinou que teve uma vida muito difícil e sempre se deveria ter respeito com as pessoas e ter palavra.”Não era um discurso que ele fazia. Ele era assim.Um pai democrático e muito apoiador dos filhos, conversava e nos ouvia, coisa que não era comum dos pais naquela época. Já minha mãe era mais brava, mais exigente, aquela coisa da gente ter que estudar, correr atrás se esforçar.Acho que eles compunham uma coisa bacana”.
Edna ressalta que acredita em Deus, mas num Deus do Amor. “Naquele que pode nos faz sentir irmãos, não naquele que nos penaliza O que faz a levantar toda manhã é o trabalho. “Estou sempre animada.Exageradamente animada, eu acho”, conta rindo.
Famosa na cozinha,faz doces,mas uma de suas especialidades é a sopa de mandioca com calabresa .”A nossa casa é um espaço muito descontraído, o clima.O Pedro e a Ariadne são duas pessoas extraordinárias.Fui presenteada.Em casa é uma farra quando eles chegam.Fiz parto normal dos dois e amamentei ambos.Sempre fui muito mãezona”.

Imagem

Edna sempre foi muito tímida. Nas reuniões partidárias não gostava de falar ou de tomar a frente. Sempre apoiava, mas a questão das mulheres a foi colocando nas trincheiras e ela foi enfrentando aos poucos e teve que superar a timidez.Já na escola era liderança nas relações pessoais, pois apesar de ser tímida era brincalhona.
Hoje, passados mais de 20 anos, já se sente muito à vontade em relação ao jeito que é. “Atualmente as figuras são muito construídas, mas eu ando do jeito que gosto. Eu sou mais afeita a conteúdo, mas a imagem cuidado é um dado importante, mas não me preocupo com isso não”.
Quanto a criticas em relação a sua pessoa e inverdades ela conta que já sofreu muito com isso, mas que hoje é muito tranqüila em relação a isso.
Ela conta que a questão da violência de uma forma geral,mas principalmente, contra as mulheres e crianças, sempre a inquietou demais e a mobiliza até hoje. “Nos momentos em que tive que enfrentar isso sempre fui movida pelo sentimento de justiça”.

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