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Dia da Consciência Negra, muito além do feriado!



A data é uma reflexão sobre a introdução dos negros na sociedade brasileira, após a Abolição da Escravatura

Dia da Consciência Negra, muito além do feriado!

Rita Alves

O dia 20 de novembro foi escolhido para comemorar o Dia da Consciência Negra homenageando o Zumbi dos Palmares, ícone da luta pela liberdade do seu povo no Brasil. Morto nesta mesma data, em 1695, foi um líder do Quilombo dos Palmares e dedicou sua vida lutando contra a escravatura no período do Brasil Colonial.

Em 2003, a lei 10.639 incluiu o Dia Nacional da Consciência Negra no calendário escolar, tornando obrigatório o ensino sobre diversas áreas da História e Cultura Afro-Brasileira.  Em 2011, a lei 12.519 foi sancionada criando a data, sendo feriado em 800 municípios brasileiros.

O Dia da Consciência Negra é um momento de reflexão sobre a introdução dos negros na sociedade brasileira desde a Abolição da Escravatura, onde são enfatizadas a busca da verdadeira liberdade, cultura, inserção do negro no mercado de trabalho e a discriminação.

Há 130 anos a Lei Áurea foi assinada, no entanto, os índices do contexto brasileiro mostram que ainda há muito o que se lutar para que a equidade seja realidade. De acordo com dados do IBGE 2017, considerando os 10% da população com os maiores rendimentos no Brasil, 8 a cada 10 são brancos. Já entre os 10% mais pobres, a proporção se inverte: 8 a cada 10 são negros.

Entre os índices de educação, os negros também estão abaixo. Apenas 8,8% da população negra, com mais de 25 anos, frequentou uma faculdade. Para a população branca, esse índice é de 22,2%.

É neste contexto que é importante destacar pessoas que escrevem o capítulo da igualdade. Nas entrelinhas de cada vida fica a marca de seres humanos que lutam, pública ou anonimamente, para que a história tenha momentos para celebrar.

Daniel Amadeu Martins Filho, o Costa, é o presidente do Baile do Carmo

Como forma de resistência e o fortalecimento da comunidade negra há na cidade o Baile do Carmo, reunindo mais de 5 mil pessoas em atividades durante toda semana comemorativa no mês de julho. Para o presidente do evento, Daniel Amadeu Martins Filho, o Costa, 62 anos, a festa começou logo após a Abolição da Escravatura.

No início do século 20, nas imediações da igreja do Carmo, grupos negros participavam ativamente de celebrações religiosas, tornando-se um dos poucos lugares que podiam frequentar.

De acordo com Costa, onde é o SESC havia um quilombo onde vivia o negro Damião e em um sonho, Nossa Senhora do Carmo disse para ele parar de sofrer e festejar. Assim, foi criada a celebração para os negros dançarem e cantarem, até que o capitão do mato descobriu e mandou cortar as pernas de Damião.

Costa ressalta que é importante um Dia da Consciência Negra para o “orgulho e empoderamento do povo negro. Dos 240 mil habitantes de Araraquara, quase 60% é população negra. Precisamos nos unir e termos um pensamento único para a igualdade que tanto buscamos. Precisamos seguir o fiel exemplo de Zumbi dos Palmares que foi um líder libertando e acolhendo muitos escravos.  E seguindo este exemplo, sermos os sujeitos de nossa própria história.”

Maria José Ferreira Gregório foi homenageada com o Prêmio Zumbi

 

Uma mulher de fibra com uma trajetória de vida de lutas e vitórias, Maria José Ferreira Gregório, 65 anos, funcionária pública, costuma dizer que é araraquarense de coração, pois nasceu em Ibitinga e veio para a cidade ainda criança. Foi a homenageada neste ano recebendo o Prêmio Zumbi, como atividade de destaque da programação do mês da Consciência Negra.

O motivo da homenagem é sua própria história. Maria José é viúva e sempre buscou o melhor para seus dois filhos. “Eu sempre fui muito resolvida com minha cor. Tenho orgulho de ser negra e nunca passei por momentos de discriminação. Tenho dois filhos e um já foi vítima de racismo e é por isso que sempre os criei explicando a importância do orgulho de sermos negros. Por nossa história e porque somos seres humanos. Apenas isso!”

E buscando a memória dos séculos 19 e 20 de nossa cidade, há a história do, então, escravo Eduardo Lourenço que foi sepultado no cemitério São Bento em 1915, com 78 anos. De acordo com o que é divulgado era um escravo que tinha grande estima para o “seu senhor”, por isso a família que ele servia cedeu a sepultura no cemitério, pois na época os corpos dos escravos eram sepultados fora da cidade, como forma de discriminação.

Em seu túmulo, que é muito procurado por fumantes que desejam largar o vício, está escrito “Aqui jaz o preto Eduardo, que nasceu escravo em 1837 e alcançou por sua honradez e fidelidade a Carta de Liberdade em 1889 e faleceu em 1915, cercado de estima e respeito”.

Aqui estão três exemplos de resistência, cada um com seu jeito e a seu tempo. Da época do fim da escravidão institucionalizada aos dias de hoje, podemos comemorar algumas vitórias, no entanto, o Dia da Consciência Negra é importante para conscientização e busca de uma história mais justa para o povo negro.

No Brasil, a população negra é mais atingida pela violência, desemprego e falta de representatividade. De acordo com o Atlas da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de cada 100 pessoas assassinadas no País, 71 são negras. Os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

Por isso, e por muito mais, a importância do dia 20 de novembro está além do feriado!

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