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Conselheiros tutelares fazem balanço de atividades e relatam dificuldades



Zona Norte da cidade concentra maior parte dos atendimentos devido à desestruturação familiar

Conselheiros tutelares fazem balanço  de atividades e relatam dificuldades

Da redação

A situação vivida por boa parte da juventude araraquarense atualmente vem chamando a atenção dos órgãos públicos envolvidos com as questões ligadas a criminalidade, ao uso de drogas lícitas e ilícitas, a gravidez precoce e às doenças sexualmente transmissíveis, que estão sendo contraídas cada vez mais cedo pelos adolescentes. Para falar sobre esse assunto tão importante, o jornal O Imparcial ouviu os conselheiros tutelares Márcio Servino e Cleuza Toloi, que representam as 1ª e 2ª Sessões de do Conselho Tutelar de Araraquara – órgão este que trabalha paralelamente à Vara da Infância e Juventude da cidade.

Para a conselheira Cleuza Toloi, que trabalha na Sessão1, que abrange toda a Zona Norte da cidade, onde estão localizados os novos conjuntos habitacionais da região do Jardim Roberto Selmi Dei, com a migração de moradores de outros bairros de Araraquara para a região, a demanda de serviços públicos cresceu muito e os órgãos não estão conseguindo acompanhar. “O público alvo atendido pelo Conselho Tutelar geralmente vem de uma família desestruturada e com situação financeira difícil, onde não são raros os relatos de maus tratos, negligência da família e a falta do pai o que acarreta um sobrecarga de responsabilidades sobre as mulheres. Isso acaba gerando problemas graves como a evasão escolar e o consumo de drogas lícitas e ilícitas, entre outros. O papel do conselheiro é entender as necessidades dessa pessoa e dar o encaminhamento ideal ao caso”, ressaltou Cleuza.

Já para Márcio Servino, a falta de abrigo dentro da própria casa do jovem atendido pelo Conselho Tutelar é um dos motivos que o levam à rebeldia e ao consumo de drogas. “A nossa casa é o lugar aonde nos sentimos abrigados, quando existe a negligência dos pais em relação à criação dos filhos, esse adolescente se sente sozinho e acaba trilhando caminhos negativos. Outro fator que colabora com isso, em minha opinião, é a falta de políticas públicas mais eficientes, principalmente nos bairros mais carentes, onde o jovem não tem acesso à cultura, ao esporte e ao lazer de qualidade. Essa falta de boas opções leva o indivíduo muitas vezes ao vício e até mesmo a se envolver com o tráfico de drogas. Já quanto ao elevado número de crianças e adolescentes fora da escola em Araraquara, penso que a qualidade escolar conta muito, pois vemos muitas escolas que apresentam números muito positivos e onde a evasão escolar é quase zero. Porém, existem casos de escolas que não conseguem manter os alunos na sala de aula, muitas vezes, por falta de atrativos”, resumiu o conselheiro.

Capacitação

Para Márcio Servino, projetos como o Jovem Aprendiz são muito importantes e bem estruturados, porém, quando um jovem atendido pelo Conselho é encaminhado, os conselheiros não sabem se ele chega até o final da qualificação e se consegue alguma colocação profissional, pois outro problema levantado pelo conselheiro é que o perfil desse jovem nem sempre se enquadra no procurado pelas empresas, e, em alguns casos, é notado que há preconceito.

Baile Funk

Outro assunto relatado pelos conselheiros que chama a atenção foi a realização de um baile funk com o apoio da Secretaria de Cultura do município, nas dependências do Parque Pinheirinho, que reuniu quase mil jovens. “Não tenho nada contra a diversidade cultural, mas nesse tipo de baile que atrai adolescentes de todas as classes sociais, são relatados casos de consumo de bebidas alcoólicas e drogas livremente, sem falar do sexo praticado sem proteção por menores de idade. Nós não fomos acionados no local, mas ouvimos relatos de consumo de maconha, lança perfume e bebidas alcoólicas por menores de idade. O evento, que não teve nenhum tipo de controle por parte da Polícia Militar e nem pela Guarda Municipal, tinha entrada livre para qualquer idade e o Pinheirinho ficou de portões abertos até a noite, o que não é costumeiro. Fomos acionados posteriormente na UPA para averiguar um caso de suspeita de abuso de uma menina, de 15 anos, durante o baile. Isso é uma situação muito séria que não pode se transformar em algo comum”, reclamou Márcio.

Conceito deturpado

Já Cleuza levantou a questão sobre o conceito atual de desvalorização da mulher através desse tipo de evento que promove músicas com letras que ressaltam o consumo de drogas e a banalização do abuso sexual, por exemplo. “Qual é o tipo de conceito que uma jovem que participa de um evento como esse tem sobre a vida? Uma mulher que concorda com abusos sexuais e com o que isso pode acarretar para ela, como contrair doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez precoce, o que ela espera do futuro? Muitos casos decorrem pela emancipação familiar, onde as mães assumem as responsabilidades da criação dos filhos sozinhas e acabam não acompanhando a vida desses adolescentes que, muitas vezes, entram em um caminho sem volta”, ressaltou.

Falta de efetivo

Os dois conselheiros concordam que o número de profissionais em Araraquara está muito aquém do necessário e, por isso, em casos graves como o envolvimento de menores com o tráfico de drogas e com a prostituição infantil, o Conselho não consegue atuar. “Araraquara precisa se preparar para o futuro, hoje não estamos dando conta da demanda, além disso, o conselheiro não passa por nenhum curso específico para o cargo, temos que agir conforme o nosso bom senso. Precisamos de oficinas profissionalizantes, além de ações para os jovens, porém, não existem espaços públicos nos bairros. Onde estão as organizações religiosas que possuem espaços para a prática dessas ações, mas não as disponibilizam? Não adianta ficar só reclamando da prefeitura, cada um tem que fazer sua parte”, concluiu Servino.

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