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Chico Santoro, o arquiteto de todas as bossas

Prestes a completar 70 anos, Santoro diz que ainda é uma criança e continua na ativa

Célia Pires

O porte alto, a voz encorpada, gostosa de se ouvir, o papo inteligente, a cultura musical, cujo apreço maior é pela Bossa Nova fazem de Francisco José Santoro um cara notável e merecedor de inúmeros adjetivos.
E os elogios se ampliam quando ficamos sabendo que Santoro é arquiteto e urbanista e que muitas obras da cidade, como a restauração da Casa da Cultura ‘Luiz Antônio Martinez Corrêa’ e o Teatro Municipal “Clodoaldo Medina” têm seu traço, passamos a admirá-lo ainda mais. Lógico que há controvérsias, pois como diria Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra!
Parafraseando Oscar Niemeyer, por quem sempre teve imensa admiração, Santoro cita uma frase do grande mestre. “A arquitetura não vai mudar o mundo, pois quem precisa mudar o mundo somos nós”.
O palmeirense, diz que o que o faz levantar a cada manhã é a família, os amigos que teve essa felicidade de ter. “Dentro do universo somos uma coisa ínfima. Pretendo continuar o que faço. Não me vejo acabando. Quero trabalhar até morrer”.

Marcos e mudanças
O grupo escolar foi feito no Antônio Joaquim de Carvalho, Anjoca; ginásio e Científico no IEBA, onde se recorda da professora Dona Cândida, cujas aulas de educação artística o iriam ajudá-lo na profissão escolhida.
Quando completou 18 anos foi fazer cursinho em São Paulo, pois pretendia fazer arquitetura. Para ele foi uma mudança radical, pois estava sem o aparato familiar. Isso fez com que percebesse melhor a vida e entendesse o sacrifício de seu pai em bancar os estudos. Morava no república Bexiga, perto do Teatro Oficina com mais três amigos: Bruninho, Doca e John.
Quanto à escolha por arquitetura sofreu forte influência do primo arquiteto René Antônio Nusdeu e das matérias das revistas como: Manchete que traziam Brasília, cujo poderoso ‘traço’ era de Oscar Niemeyer.
Santoro foi para Curitiba onde se formou no Curso da Escola de Engenharia e Urbanismo da Escola de Engenharia da Universidade Federal do Paraná CAUEEUFPR, em 1969.”Morei numa república com outros três estudantes de arquitetura de Araraquara: Edson Chediek, o saudoso Ronald e Antônio Cortez. Gostei de lá, apesar do frio e da escola ser longe. Foi uma mudança importante no aspecto físico, urbano”.
Um grande marco em Curitiba para Santoro foi a política. Para se ter uma ideia, a aula inaugural foi com Darci Ribeiro no dia 8 de março de 1964. No dia 31 foi a Revolução Redentora que cassou Darci. Nessa aula inaugural estava o reitor Flávio Suplicy de Lacerda que foi um dos ministros da ditadura.
Na universidade, Santoro participou do Grêmio de Arquitetura. Depois foi um comandado na política estudantil. Ali, um de seus mentores foi o saudoso araraquarense Jurandir Rios Garçone, que, inclusive, morava na mesma república que ele e havia sido do diretório central dos estudantes, depois preso em Ibiúna na ditadura. Ficou clandestino. ”Esse era o cabeça nosso que nos ensinou a verdadeira política”.
Nessa república recebiam visitas famosas, como a de outro araraquarense, o Arantes que foi seu contemporâneo no IEBA, que estudou no ITA e foi vice-presidente da UNE, morto pela Operação Bandeirantes. “Ele era um cara procurado pela Ditadura”.
Tão próximo de pessoas como Arantes que lutavam contra a ditadura, Santoro diz que chegou bem perto de ser um deles. “Se eu tivesse me formado em 70,talvez tivesse sido diferente. Mas eu me formei, tinha e queria trabalhar, ter vida própria. Era até uma contradição estar lutando por algo…se eu estivesse em meio aos cabeças não sei onde estaria hoje. Isso foi a minha única participação política. Nunca me envolvi em partido político nenhum”.
E tendo que trabalhar, uma das opções foi voltar para Araraquara, ainda mais que estava fazendo junto com o amigo Roberto Massafera que conhecia desde 1956 o projeto do Clube Náutico. Haviam estudado no IEBA e jogado basquete e se separaram quando Santoro foi para Curitiba estudar arquitetura e Massafera, engenharia em São Carlos. “Tive essa oportunidade que foi importantíssima para mim. Vou fazer 45 anos de formado e no Náutico estou praticamente há 47 anos”.
Santoro teme citar nomes de amigos para não correr o risco de esquecer algum, mas Roberto Massafera ele conta com voz de gratidão que seu primeiro escritório foi uma salinha que ele cedeu na rua 4.

Rádio
Rádio sempre foi uma coisa que Santoro era e é fanático. Ficava ouvindo todos os programas de música na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Seu gosto tornou-se variado.
Quando ouviu o baiano João Gilberto seu conceito mudou. Um dado interessante contado por Santoro é que cantores como Edu Lobos, Marcos Valle, Gilberto Gil, entre outros sabem hora, data e local que ouviram ‘Chega de saudade’ de João Gilberto. Ele também. Depois disso sua opção sempre foi a música brasileira. “Sem João Gilberto acredito que a Bossa Nova não existiria. Para mim a maior figura na música”.
Santoro começou a cantar por conta do IEBA quando ele e os amigos Doca (Aparecido Motta) e Marco Antonio Scabello por conta das serenatas que faziam para as meninas. Chegavam a pular dentro do estádio municipal para ensaiar.
Ele se recorda do amigo Marinho Galera que queria cantar, (mas eles não deixavam) e que acabou se tornando um grande compositor.
“Quantas vezes, quando foi novamente morar em São Paulo, não ia aos bares com os amigos e como não tinham dinheiro ficavam enrolando com um copo de ‘cuba libre’ para ficar mais tempo ouvindo artistas Claudete Soares, Pedrinho Mattar Dick Farney. Os caras da Bossa Nova de São Paulo”. Santoro volta no tempo e conta que em Curitiba também por conta da política começaram a promover alguns shows como o de Geraldo Vandré.
Em Araraquara, surgiu o Paulo Ferrante, Didinho era bem novinho, o Gina, entre outros. “Paulão Ferrante me forçou a tocar flauta. Como eu não sabia tocar ele me pedia que desse a flauta para ele”.
Participou do Grupo Manifesto por duas vezes; do primeiro grupo Expedito e Amigos, onde cantava e tocava flauta. “Depois formamos Chicos em 2007, grupo amador, que divulga grandes compositores por Francisco Santoro (voz, flauta e escaleta); Fran, Francisco Vieira Jr (voz, violão,viola e cavaquinho);. Chiquito, Luiz Fernando Vieira (Francisco Santoro e mais tarde convidamos o José Noé (bateria e percussão) mas ai não dava mais para mudar o nome do grupo para Três Chicos e um Noé ou Não é”, ri ele.

Família
O araraquarense Francisco José Santoro nasceu em 30 de novembro de 1944. O pai, Joaquim Bento Santoro, era bancário e a mãe, de Orlanda Nusdeu Santoro, que por não apreciar o nome de batismo preferia ser chamada de Yolanda era excelente costureira. Tem duas irmãs: Neuza Therezinha e Maria Isabel.
A infância para ele que cresceu na Rua Carlos Gomes, na área central, é palco de boas recordações. Ele se lembra das imensas toras de madeira que eram descarregadas na serraria do Smirne cuja calçada era uma das únicas de terra; das ruas serem mais arborizadas, como a Dom Pedro; calçadas de arenito, ruas de paralelepípedos. “Era uma maravilha. A gente jogava bola na rua, bolinha de gude na calçada. Nosso playground eram as árvores. À noite era um festival de brincadeiras, como mamãe da rua com aquela luz mais fraca, não tão potente quanto hoje”.
Hoje é casado com Cristina, mãe de Ana Cláudia e Daniela e dos relacionamentos anteriores: Rejane, Rinaldo, Guilherme, Caio, Carolina. Santoro conta que tem netinhos e está curtindo os mesmos por demais.

A todo vapor
São cerca de 800 estudos e projetos em todas as áreas, além das obras.
Uma das obras de Santoro que sofreu intervenção foi a da praça Pedro de Toledo que sofreu radicais mudanças e até hoje tem gente que e comenta que brincava na chamada pracinha onde ficavam um tanque de areia e túnel onde as crianças podiam frequentar.O arquiteto lamenta que não haja consulta quando realizam essas alterações.
Uma coisa interessante é a logomarca do Rodoviário Morada Sol. Ainda não se falava em @(arroba) e Santoro estava à frente de seu tempo: se prestarmos atenção poderemos verificar que é igual a do Itaú.
Náutico cujo projeto participou é um de seus cartões de visita: é considerado o maior clube da América do Sul. “Participei do Plano diretor e obras.É um projeto que qualquer arquiteto gostaria de fazer”, diz ele acrescentando que se pudesse escolher participar de um projeto seria o da construção de Brasília.
No Clube Araraquarense, fez parte da entrada e administrativa e Teatro Municipal junto com Arnaldo Lepre Palamone.
Santoro ainda não se aposentou e está a todo vapor em seu escritório que fica localizado na Avenida Quinze de Novembro. Trabalhou com Nelson Barbieri. Nos governos Medina, De Santi, Massafera. Sempre trabalhando paralelamente em seu escritório que funciona até hoje.

Pela janela
A ‘Araraquara Repórter a Voz das Esplanadas’ funcionava em frente a uma casa em cima do banco onde o pai de Chico trabalhava e lugar onde a família de Santoro foi morar. Com o tempo Santoro ainda menino, fascinando por rádio, só de olhar pela janela aprendeu todo mecanismo. O operador de som era Adilson JoãoTelarolli.Um dia o locutor se atrasou e Adilson chamou o menino. Foram minutos de êxtase para ambos, pois logo o locutor chegou. E a partir dai o bichinho do rádio se instalou e nunca mais o largou.
Santoro apresentou na Rádio Brasil FM de 2002 a 2004 o ‘Brasil de todas as bossas’.Na USP de São Carlos apresentou de 2006 a 2007 o programa ‘Chega de saudade’. E na Uniara a partir de 2005 até agora, o Bossa Brasileira.
Ressalta que também tem uma vertente, a da escrita. Escreveu durante muito tempo no jornal O Imparcial sobre vários temas, principalmente música.

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