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Casa do Maestro Tescari poderá ser tombada e virar patrimônio histórico

Célia Pires
Depois que a história estiver destruída nada mais poderá ser feito. Por conta disso familiares residentes em Araraquara entraram com um pedido de tombamento da casa onde residiu o Maestro José Tescari.
Segundo o arquivo histórico municipal, a casa que fica localizada na Rua Carlos Gomes, 1116, entre a Avenida 15 de Novembro e Sete de Setembro foi construída em 1920 com reforma realizada no ano de 1957.
Maestro Tescari foi compositor, arranjador, regente, multi-instrumentista (piano, violino e viola) e professor de música.
Nossa reportagem conversou com José Delfini, neto do maestro e seu filho Paulo Delfini que contam que eles mesmos viveram uma imensidão de coisas. Ambos viveram todas as emoções que se pode viver desde criança até a fase adulta.
Eles se recordam que na casa tinha uma empregada, a Maria, que trabalhou na residência durante muitos anos. Quando ela completou 50 anos de casa, fizeram uma festa de bodas de ouro de trabalhar na casa. Na verdade, era mais um membro da família, pois onde as irmãs, filhas do Maestro Tescari iam ela ia junto. Era a sétima tia, a sétima filha.
José Delfini explica que depois que Tescari veio para Araraquara, todos os filhos do Maestro nasceram na referida casa e uma boa parte da família viveu dentro da residência que ficou conhecida como a Casa das Tias, pois com exceção da mãe de José que se casou, todas as outras seis eram solteiras. “Elas dedicaram a vida inteira à educação e à igreja, pois ajudavam muito na Sociedade São Vicente de Paula com cestas básicas para os necessitados, principalmente pelo pai ter sido um dos fundadores da instituição”.
Motivação
Mas José e Paulo ressaltam que a motivação não é somente emocional, mas pelo valor histórico que representa. Daí a importância de se transformar a casa num memorial. “Tem várias coisas do maestro na casa como pinturas, piano, partituras, elementos dele e das próprias filhas que não tiveram o reconhecimento que ele teve, mas não deixam de ter importância no cenário musical, pois depois que ele morreu se dedicaram mais 50 anos ao Conservatório”, explica Paulo que cuidou da restauração de inúmeras partituras.
Paulo também lembra que, embora não tenha assinado, foi o próprio maestro que desenhou a casa.
No interior da residência, o piano é o maior símbolo, além de fotos, documentos, partituras escritas à nanquim, muitas de quase cem anos, com sua inconfundível assinatura;a mesa onde o Maestro José Tescari fazia as refeições diárias, quadros pintados por ele, pois tinha costume de desenhar enquanto almoçava. “Ele também costumava frequentemente escrever crônicas para o jornal O Imparcial”.
Vende-se
Cada cômodo conta uma história, inclusive o quintal com sua jabuticabeira centenária. Toda porta tinha um santo para que se entrasse ladrão caísse na cabeça dele. E o interessante é que o quarto das filhas ainda conserva o oratório e recipientes onde se colocava água benta pendurados na parede. Dessa forma, as marcas de Ula (Lurdes), Margô (Margarida), Memé (Salomé), Maria, Lena e Cia (Cecilia) estão impressas em toda parte.
Delfini diz que seu amigo Beto Caloni, assim como muitos outros amigos diziam que era muito gostoso o ambiente que se sentia na casa.
Questionado sobre a razão das filhas do Maestro Tescari devido a importância do pai não terem pensado em deixar a casa como um legado histórico, como um bem patrimonial tombado, ele explica que falar de morte era para elas um tabu e que apenas uma vez o fato veio à baila com um dos tios, mas que acabou no esquecimento.
Mas agora pai e filho não sabem o destino que a casa vai ter, pois a mesma tem várias placas de ‘Vende-se’. Eles que respiraram o ar da casa quando as irmãs viviam e fizeram parte da vida delas e vice versa sabem a importância de se transformar o local num memorial. Da outra parte da família eles não sabem, mas do fundo do coração, apostam todas as fichas na preservação de um patrimônio que pode vir a ser um memorial para não deixar morrer a história. Para que o Maestro continue regendo…
BREVE HISTÓRICO
José Tescari nasceu em Legnado, província de Verona, norte da Itália, no dia 5 de julho de 1882.
Desde pequeno apresentou talento para a música, influenciado pelo pai, seu primeiro professor de violino e harmonia no Conservatório de Genova.
No ano de 1890, o jovem de apenas oito anos de idade e ainda iniciante demonstra habilidade musical muito notável. José toca violino acompanhado do pai e das duas irmãs na corte para o rei Humberto I da Itália.
Durante 1894, seu pai aceitou o convite para lecionar em um colégio Jesuíta no Interior do Brasil. Com a mulher e três filhos, José tinha apenas doze anos de idade. Domingos Tescari cruza o Atlântico para ensinar música no Colégio São Luiz em Itú, interior de São Paulo. Quatro anos mais tarde, José fica órfão de pai e sua mãe Suzana ruma para Araraquara.
Rumo ao Brasil
Com dezoito anos de idade, José recebe um convite para ensinar música no colégio dos jesuítas que trouxeram a família Tescari para o Brasil.
No ano de 1900, aceita o convite para trabalhar como professor de música em Nova Friburgo, interior do Rio de Janeiro.
José Tescari volta para Araraquara no ano de 1907 e casa-se com Zerbina Noêmia, no dia 12 de janeiro. O casal volta para Nova Friburgo onde nasce sua primeira filha, Maria. Em seguida, transferem-se para Itu, onde José ocupa a cadeira que fora do pai no Colégio São Luiz. Em Itu, nasceram mais três filhos. Em 1913, retornam definitivamente para Araraquara, onde tiveram mais sete filhos ocupando a casa que foi morada dele em Araraquara por toda a vida (referida casa que foi feito o pedido de tombamento).
Em Araraquara, José produziu música, assim como ministrou aulas, não só de música, mas de matérias escolares. Tocou no cinema na época dos filmes mudos, fundou grupos musicais, encenou peças de vários gêneros, harmonizou missas por mais de trinta anos na matriz de São Bento e Igreja Nossa Senhora do Carmo, fundou e presidiu a Sociedade São Vicente de Paula, sociedade esta dedicada ao amparo dos menos privilegiados.
Era um homem fabuloso e soube acomodar – ou domar – seu gênio criativo à realidade provinciana da cidade. Após dois anos de residência no Brasil, recebe um prêmio das mãos do presidente Prudente de Morais por falar e escrever fluentemente o Português. Acredita-se que esta fluência na língua adotada era devido a muita leitura de livros de Julio Verne, seu autor preferido, chegou até a compor “Uma Tempestade em Alto Mar” influenciado por esse autor francês.
Um cidadão comum
Era um homem generoso, alegre, rigoroso e não gostava de tratamentos formais, tinha consciência política do seu tempo, mas diplomaticamente evitava emitir opiniões sobre os coronéis e vivia como um cidadão comum.
Alguns feitos de José Tescari justificaram sua cidadania araraquarense. Em 1929, fundou o Conservatório Dramático e Musical de Araraquara, uma das primeiras escolas do gênero no Estado de São Paulo, sendo instalado onde hoje é o Palacete São Bento e depois foi para o Largo da Câmara, onde está atualmente o museu da cidade. No conservatório, o maestro ensinava violino, piano, teoria musical e harmonia.
Fundou também a Orquestra Sinfônica de Araraquara, que realizou seu primeiro recital em dezembro de 1943. Anos mais tarde criou um quarteto e um trio instrumental de cordas. Foi professor da maioria dos bons músicos que surgiram em Araraquara na primeira metade do século XX.
Todos os filhos do maestro estudaram música, porém dos onze apenas três concluíram os estudos (todas moraram na mesma casa que era do maestro), lecionaram e dirigiram o Conservatório após a morte do maestro.
Em meio a diversas atividades, ele ainda escrevia como cronista expondo suas “reminiscências” nas páginas do jornal “O Imparcial” de Araraquara.
Em toda sua obra fez presente sua vida. Foi um homem exemplo de dignidade produtiva, bom pai, bom marido, cidadão exemplar, interprete virtuoso, compositor genial. Deixou um legado de esperança que ainda hoje permanece adormecido pelo sono da indiferença.
No dia primeiro de janeiro de 1954, após duas tromboses cerebrais, José Tescari com 71 anos de idade vem a óbito, deixando uma herança com mais de trezentas e cinquenta obras, algumas ainda inéditas.
Desta forma com estes relatos apresentados, aguardo procedimento a seguir para dar andamento ao processo de tombamento histórico do imóvel.(Paulo Afonso Monteiro Delfini).

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