Selecione a página

Bar do João Turco: onde a simplicidade é o cardápio principal

O polo aglutinador do bar se chama João Gossain, mais conhecido como João Turco, que tem 50 anos de trabalho/comerciante na antiga Mercearia Gossain

Célia Pires
“Nada a declarar. Essa foi a frase final escrita por um homem avesso a ostentação, que sempre se recusou a aparecer na mídia ao ser convidado para uma entrevista. Seu nome é João Gossain, mais conhecido como João Turco e, embora tenha ficado um pouco ‘bravo’ com o autor da proposta da entrevista, o poeta do Carmo, Pedrinho Renzi, com certeza vai perdoá-lo por esta publicação, pois a reportagem resolveu prosseguir quando percebeu que não somente Renzi, mas uma legião de amigos, frequentadores do bar que fica no bairro do Carmo e foi fundado há mais de 90 anos, queriam também homenageá-lo, pois ele está à frente do estabelecimento há 50 anos.
A reportagem percebeu que João aprecia levar uma vida simples sem os atrativos oferecidos pelo mundo atual, por isso insistiu, implorou, chorou (risos) para que João desse alguma declaração, mas não adiantou. Até a mulher Célia com quem é casado há 44 anos e é mãe de seus três filhos, dois meninos e uma menina, questionou a razão dele não dar entrevista, pois seria um motivo de orgulho para os filhos, para os netos. Ele, um homem que havia trabalhado tanto.
Naquele momento, mesmo ele estando com a cabeça baixa percebi que seus olhos marejaram de lágrimas. Seu silêncio tornou-se ainda maior. Naquele momento percebi que ele não precisava declarar nada. Desisti da matéria. Entendi tudo. Tem pessoas cujas atitudes contam a história, não as palavras.
Uma missão
Mas com a missão de fazer uma homenagem ao João sem que ele ‘traísse’ as outras mídias por ter dado uma entrevista ao jornal O Imparcial, nossa reportagem ignorou seu ‘Não quero’. ‘Não aceito’, ‘Não autorizo’ e buscou informações com os amigos para compor um ‘quadro’ sobre ele.
O que foi pintado é muito bonito, pois ele é uma pessoa muito querida.
A grande preocupação de João Gossain era a reportagem identificar frequentadores do bar. Não identificaremos, colocaremos somente os depoimentos.
Alguém contou que ele foi gráfico na Gráfica Sgall, uma das mais modernas de Araraquara e que trabalhou com o tipógrafo Benedito Lazaro Viviane. A principal coisa que ele oferece é a sua amizade. Não tem nada de sofisticado. É amendoim, queijo caseiro, biscoito. “Ele mesmo fala não sei por que o pessoal vem no meu bar, talvez seja por amizade, pois meu bar não tem nada. Ele senta lá fora, bate papo, recorda dos tempos de gráfica. É uma pessoa querida, popular, se dá bem no quarteirão. O Pemba fez ponto muitos anos ali na frente dele, guardava as coisas do morador de rua. Fui lá várias vezes”, diz esse amigo que não identificaremos.
Cara camarada
Outra pessoa, essa somente conhecida, se recorda de quando era menino e ainda morava no bairro do São José, quando ia assistir aos jogos de futebol no estádio Municipal passava defronte a mercearia e sempre via o João ajudando o pai dele na venda.
Já um frequentador, hoje esporádico, mas amigo há 50 anos, conta que o João tem 3 filhos. “Ele tem um filho que é delegado em São Luiz do Maranhão. O João é um cara camarada, que deve ter herdado o lugar dos avós. Ele sempre soube tratar a freguesia formada em sua maioria por amigos. Ali sempre foi um lugar gostoso. Uma vendinha gostosa. Um lugar cuja característica principal é a de reunir os amigos”.
Outro frequentador conta que é do bairro e um dia veio até o bar do João trazer alguns amigos para comer um queijo e um dos frequentadores disse para que sentassem com ele. “E assim comecei a participar”.
Segundo um dos amigos, tudo começou com o Segundo Ungari que mora bem pertinho do bar. “Aqui se reúnem amigos que conhecem os problemas da cidade, é uma confraria, uma vanguarda araraquarense, onde se fala da cidade, os presentes conhecem tudo”.
A característica do grupo é majoritariamente masculino. Um verdadeiro Clube do Bolinha. Na verdade, as mulheres respeitam uma certa liberdade da gente se reunir rotineiramente.
Para esses amigos, o bar é democrático, uma tradição aonde eles se encontram há tempos.
Eles dizem que a figura do João é carismática e que, inclusive, sugeriu uma festa espontânea de final de ano: a Festa do Bar do João Turco que acontece em dezembro.
Quel, que também frequenta o bar, não dá importância ao tempo de casa, mas a importância que se dá ao lugar. Tem gente que frequenta há seis meses e tem gente que frequenta há 50 anos. O que fala mais alto é a amizade, a empatia que se tem com o lugar.
Quando estão sentados ali naquela roda de amigos não existe profissão, nem classe social, são amigos. Diferentes opiniões se miscigenam na maioria das vezes em conversas agradáveis. Há um resgate e ao mesmo tempo uma manutenção das coisas simples. Mas a inegável característica é a cerveja gelada! Cantores como Expedito e artistas eventuais que também passam por ali e também há um churrasquinho de vez em quando. Uma confraternização que você sabe que tem um amigo sentado. Os frequentadores do Bar permitem uma troca de conhecimento. A vocação do Bar do João é também de adquirir conhecimento.
Outro frequentador ressaltou que o Bar do Turco é marcado por uma identidade única. “Trata-se de um bar onde a divergência ideológica convive pacificamente em uma única mesa. Outra característica é o encontro das diferentes classes sociais sem que haja exibicionismo daqueles que gozam de uma classe econômica mais elevada. Por fim, a frequência é tão fragmentada que nunca conseguiu apoiar aquele que vence uma eleição”.
O João Turco relembra caso do burro Brioso
Na década de 1970, em Araraquara, a coleta de lixo era feita com carroças puxadas por burros, que circulavam com os chamados lixeiros, recolhendo a sujeira da cidade. Os animais eram mantidos pela Prefeitura e, após um período de prestação de serviços, eram “aposentados”. Proprietário de um bar na esquina da Avenida XV de Novembro com a Rua Nove, João Turco lembra que de tanto fazerem o percurso, os quadrúpedes sabiam exatamente onde tinham que parar, quando deviam seguir, em que local precisavam virar à esquerda ou direita. O sujeito que fazia a limpeza naquele trecho do bar há cerca de quarenta anos sempre parava para tomar uma cachaça no Bar do João Turco. Vinha com a carroça pela Rua Nove, subia a XV de Novembro (na época podia) e parava. Entrava no bar e pedia a pinga. Enquanto o trabalhador bebia, João Turco levava um pão para o burro. “Seu nome era Brioso. Era marrom. O lixeiro dizia que o burro era mais inteligente que ele”, comenta João Turco. “Toda vez ele virava a esquina, parava e ficava esperando eu dar o pedaço de pão”. (Texto: Luiz Zakaib).
Homenagem do Poeta Pedrinho Renzi
O bar do João Turco….
Está instalado no bairro do Carmo, em Araraquara, há mais de 80 anos…
João Gossain ou João Turco…aparece como amigo de todos, servindo lascas de queijo, armarinhos e birras…
seu diálogo internacional com a língua Árabe, traduzida pelo dr. Reginaldo Filpi ou Nati, formam a cultura do bar e principalmente as presenças de populares no bairro do Carmo ou Vila Poética do Carmo, na expressão do poeta do bairro: Pedrinho Renzi.
Ainda frequentam o bar: Alfredo Cefaly, Marinho Boschiero, Toninho, Augusto, Edelsio Tosetto, Marun e tantos outras personalidades da vida artística e comercial da cidade..

Últimos Vídeos

Carregando...

Charge

Publicidade

Publicidade

Arquivos

Publicidade