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Atlética: Do apogeu do café à derrocada política

Atlética: Do apogeu do café à derrocada política

Suze Timpani

 

No auge dos cafezais, em 1896, as instalações da Estrada de Ferro Araraquara (EFA) estavam prontas em Araraquara, empregados contratados e a ferrovia começou a operar a todo vapor. Passando-se os anos, o futebol já era uma loucura entre os brasileiros que sempre formavam novos times e a febre acabou se instalando entre os operários até chegar ao corpo administrativo da ferrovia. Em 1927, o retorno de Plínio de Carvalho à prefeitura possibilitou o nascimento da Associação Atlética Ferroviária, primeiro clube na cidade, tendo como presidente Teodoreto Barbosa. O corpo diretivo era formado por Domingos Acetozzi (também colaborador do jornal O Popular), Justino de Carvalho e Félix Lopes Castro, gerente da Farmácia Raia, com sede na Rua São Bento.

Em 1928, a Atlética enfrentou um combinado uruguaio, que continha jogadores profissionais e amadores, intitulado Penãrol-Universitário, sem qualquer ligação com o tradicional Peñarol de Montevidéu. A intenção uruguaia era arrecadar dinheiro e dividi-lo entre os atletas, uma espécie de renda, excursionando por todo o Brasil. Em duas partidas realizadas em Araraquara, o resultado foi de empates em 1 a 1.
Mas somente em 1945, através de ata oficializada pelo advogado e presidente do Sindicato dos Ferroviários de Araraquara, João Ferreira da Silva, é que oficialmente foi registrada, com sede na Rua Dr. Antônio Picaroni, s/n°, próximo à Igreja Santo Antônio na Vila Xavier, onde até hoje ainda resiste.

Três anos mais tarde, a sede ganharia um campo renomado, no qual a Atlética poderia mandar seus jogos contra os adversários da época, como Paulista e São Paulo F.C., denominado Dr. Campos Pereira de Barros.
Em 1946, a Atlética passou a fazer parte da vida do América de Rio Preto. A equipe araraquarense foi convidada a participar do jogo inaugural diante do Mecão em partida realizada em Mirassol. O Rio Preto, novo rival, se recusou a ceder o campo para a agremiação naquele dia. Contudo, a equipe rio-pretense saiu vitoriosa com o placar de 3 a 1.
Figurada como time de destaque no cenário amador araraquarense, a Atlética sofreu um grande assédio da Associação Ferroviária de Esportes. A diretoria grená estava disposta a comprar o estádio atleticano para ser a sua sede, porém as tratativas não avançaram e o negócio não se concretizou. Mais tarde, surgiria o Estádio Adhemar Pereira de Barros, a Fonte Luminosa.
Próximo à sede da Atlética, havia as colônias nas quais os ferroviários residiam e saíam logo cedo, em caminhada, para entrar às 8 horas no trabalho e sair às 18 horas diariamente, caso não houvesse uma hora extra a ser cumprida nos finais de semana. Não importava, os ferroviários trabalhavam muito e o tempo que lhes restava se divertiam com a bola.
Pércio Damázio, de 87 anos, foi treinador da equipe por vários anos, tendo João Ferreira da Silva, presidente, ao seu lado. Os treinamentos eram realizados nos finais de semana, ou em algumas ocasiões, até anoitecer. “Fazíamos o seguinte treinamento: Combinávamos de nos encontrar em certo ponto da colônia e, para aquecer, marchávamos na rua. Eu ditava o ritmo no “1, 2, 3, 4. 4, 3, 2, 1”. Sempre dava certo. Depois trabalhávamos com bola no estádio (risos)”, disse o treinador.

Dos campeonatos internos em que a Atlética disputava com outros ferroviários espalhados pelo Estado, Damázio guarda um chaveiro que marca uma de suas conquistas com o time.

Por longo tempo, a Atlética teve como presidente João Ferreira da Silva, que acabou sendo eleito vereador em vários mandatos. Embora afastada das competições amadoras, a Atlética ainda mantém um belo patrimônio em região privilegiada na Vila Xavier, que hoje pertence a Prefeitura de Araraquara.

Indalécio Nicolau, de 92 anos, que também passou a vida na ferrovia e hoje ainda mora onde era a antiga colônia,  também se aventurou nos gramados da Atlética e diz que, se “bobear”, daquele tempo vivo só há ele e mais uns três. Ele lembra com carinho do tempo em que eles tinham amor pelo futebol e diz que “tem que ter paixão no que faz”.

Foi através da Atlética, no final dos anos 80, que se formou mais um time de veteranos e uma grande amizade surgia para durar até hoje. “Quase não treinávamos antes das partidas. Era quase tudo na base da conversa para saber aonde cada um jogaria no campo. Não tínhamos uma posição fixa. Sempre jogamos por pura diversão e amizade”, conta Estéfano Keller Netto, ex-jogador da Atlética.

Em bate-papo com os jogadores reunidos na sala de troféus na sede do clube, muitas histórias foram contadas e grandes momentos relembrados. Dentre as principais recordações estão os jogos contra o Clube Atlético Taquaritinga (CAT) e Benfica. “Em Araraquara, o nosso rival foi o Benfica, todos éramos amigos, mas quando a bola rolava, cada um defendia seu lado”, conta Adail Aparecido Francisco, o Traíra.
O ex-atacante Cláudio Luis Ribeiro, o Claudinho, que assumiu a presidência em 2006, diz ter feito mais de 600 gols com a camisa atleticana.
Com a mesma dedicação de João Ferreira da Silva,  Adair Pavanelli se dedicou a dar continuidade a trajetória da Atlética Ferroviária. Em meados dos anos 90, após a morte do irmão, Cidinha Pavanelli, que até hoje sente um amor incondicional pelo clube, assumiu a presidência da Atlética, onde permaneceu até 2005 e se afastou de afazeres da Associação em 2007 por motivos médicos. Lá ela implantou um trabalho social, entre eles uma escolinha de futebol, onde os professores eram Dinho e Zé Lemão, hoje falecidos.
Atualmente, o clube é administrado por Edson Aparecido de Souza, o Legui, que é presidente desde 2009, e recebe nos finais de semana o Campeonato Interbairros da cidade, além do treinamento das Guerreiras Grenás e do time sub-15 da Ferroviária. Em 11 de setembro de 2017, o prefeito Edinho Silva baixou um decreto, transferindo a posse da Associação Atlética Ferroviária para a Prefeitura.
Os áureos tempos esfriaram como o café e atualmente a Prefeitura, que é detentora da entidade, quer a venda do espaço e Cidinha volta a campo, juntamente com Estéfano Keller, para tentar barrar o maquinista do trem que insiste em dar o apito final.
Mas a velha guarda atleticana tem consciência de que os problemas são muitos. Hoje o clube não é mais considerado uma Associação, não há concessão de uso, já que é um espaço público, o estatuto foi mudado completamente em 2009 pelo atual administrador, não tem CNPJ, nenhuma ata foi registrada desde 2009 em cartório, sendo que o estatuto reza que as reuniões de prestação de contas deveriam acontecer a cada três meses, porém isso não ocorreu desde o início da gestão do último presidente, impostos atrasados, não tem alvará de bombeiros, laudo de vigilância sanitária, quatro refletores que Cidinha deixou em campo quando saiu da presidência desapareceram, o salão de festas vem sendo usado indevidamente, a conta de luz do salão está em nome de pessoa física, que por sinal vem se utilizando do salão, e para completar existe a venda de bebida alcoólica, que é proibido nesses locais. Para os veteranos, que falaram com a reportagem do O Imparcial, o clube vem sendo usado politicamente ano após ano e, assim sendo, a ex-presidente ingressou com um processo na Justiça, pedindo para se tornar gestora administrativa provisória da associação, pois acredita que tem o direito de manter a tradição viva e não somente as fotos penduradas em uma parede fria.
“Se perdermos a batalha, perco sabendo que lutei com a arma do coração e não com o punhal da ambição”, finalizou Cidinha.

Força de vontade e persistência não faltam à Cidinha e Stefano para a luta, inglória ou não, mas nesse momento depende apenas da caneta de Edinho Silva, para que saibam em que estação desembarca os remanescentes da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Fonte histórica – Lembranças com pé no chão – Revista Comércio Indústria e Agronegócio, de 2016

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