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Araraquara precisa avançar em ações de desenvolvimento sustentável

O tema “Desenvolvimento Sustentável: desafios e limites” foi debatido em mesa redonda realizada no plenário da Câmara nessa sexta-feira, dia 29, dentro da Semana Rodolpho Telarolli promovida pela Escola do Legislativo de Araraquara. Com mediação da vereadora Edna Martins (PV), participaram os palestrantes Profa. Dra. Dulce Helena Siqueira Silva, professora adjunta no Instituto de Química da Unesp de Araraquara e o geólogo e professor Julio Cessar Arantes Perroni, mestre em Hidráulica e Saneamento pela Escola de Engenharia da USP de São Carlos. Perroni é professor de Geotecnia Ambiental, Manejo de Bacias Hidrográficas e Recuperação de Áreas Degradadas no curso de Graduação em Engenharia Ambiental das Faculdades Logatti de Araraquara.
Em sua palestra, Perroni enfocou o desenvolvimento sustentável em Araraquara e apontou questões nas quais o município precisa avançar. “Tivemos uma revisão inovadora do Plano Diretor, mas é preciso avançar. Faltam leis complementares e regulamentação do Plano Diretor. Está em processo de elaboração o Plano Municipal de Saneamento, que inclui o Plano de Gestão Integrado de Resíduos Sólidos. A Lei exige a realização de audiências públicas, mas a participação tem sido muito pequena para uma cidade do porte de Araraquara”, comentou.
Ele explicou que na geologia local os recursos minerais existentes são aqueles usados em materiais de construção e água mineral. “Temos solos bem drenados e férteis, com relevo que facilita a agricultura. O sistema do Aquífero Guarani é um recurso mineral, cuja reserva tem cerca de 5.500 anos, medida esta feita por meio de processo de datação de carbono 14. Recurso mineral é diferente de recurso hídrico, o qual é renovável. Na região Sudeste de Araraquara, há uma área de recarga natural do Aquífero Guarani com cerca de 80 quilômetros quadrados. Há cálculos que apontam que a recarga natural atende apenas 1 mês do consumo de água em Araraquara, que teve um crescimento acentuado a partir dos anos 90. Nesse período, em alguns poços foi registrada uma redução de 40 metros no nível do aquífero”, alertou Perroni.
O geólogo disse que Araraquara está entre os municípios mais desmatados no estado de São Paulo, com solo ocupado pela agricultura de cana, laranja e soja. “Atualmente, as queimadas superam as iniciativas de reflorestamento. Na demanda geral de água são 38% na agricultura, 32% na área urbana e 30% no setor industrial. A estimativa populacional de Araraquara para 2030, segundo o Seade, é para 236 mil pessoas e há 27 mil terrenos vagos na cidade, de acordo com dados da Prefeitura. É preciso ter políticas de uso e ocupação do solo para reduzir essa especulação imobiliária”, defendeu.
Ele lembra que os recursos hídricos de superfície no município estão entre as bacias dos rios Mogi Guaçu e Tietê-Jacaré. “O manancial do ribeirão das Cruzes está em vias de ser abandonado por degradação causada pela ocupação inadequada do solo. Falharam nos últimos 40 anos as tentativas de proteger a bacia das Cruzes, que não tem mais muitas condições de produzir água. Mesmo assim, esta bacia ainda tem condição de atender uma demanda de 30 a 40 mil pessoas, mas a preocupação é a qualidade dessa água, pois o tratamento de água não evita metais pesados e muitos elementos oriundos de produtos químicos. Para se ter uma ideia, atualmente são cerca de 3 mil produtos químicos usados nas residências, que acabam chegando diluídos aos cursos de água”, ponderou.
Perroni apontou alguns desafios para o município na área de saneamento, como evitar a contaminação dos mananciais com as águas das chuvas, que lavam telhados, quintais, ruas antes de chegar aos cursos de água. “Apesar de ser renovável mais rápido, a água de superfície tem menor confiabilidade de qualidade em comparação com a água subterrânea, a qual tem a desvantagem de demandar longos períodos para sua renovação. A necessidade de água potável para consumo nas residências é de 20% do que é disponibilizado na rede, o restante é usado para limpeza, higiene e irrigação de plantas. Devíamos dar um destino mais nobre à água subterrânea do Aquífero Guarani (água mineral) que completa a alimentação suprindo necessidades de sais minerais do corpo. Há experiências em alguns lugares da instalação de uma segunda rede apenas para água potável. É uma possibilidade a ser pensada”.
O geólogo defende também que é preciso considerar água da chuva como recurso hídrico que pode substituir 50% da água que usamos nas residências, além de poder ser utilizada, depois de tratada, para fazer a recarga artificial dos aquíferos. “É preciso melhorar as condições de produção de água e a gestão da demanda, diferenciando as finalidades de uso”.
Para Perroni, planejamento é a palavra chave para avançar no desenvolvimento sustentável. Ele ressaltou a importância de dar sequência às regulamentações do Plano Diretor incluindo o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais, Política Municipal de Recursos Hídricos, Centralidades Lineares, Cinturão Verde, Avenida Parque das Cruzes, Parque dos Trilhos, Programa de Edificações Sustentáveis, Programa de Parcelamento de Edificações de Utilização Compulsória, Plano Cicloviário e Estudos de Impacto Ambiental. “Se faz necessário planejamento não só da sede urbana do município, mas de outros aglomerados urbanos, área rural e também da região”, finalizou.

Produtos Naturais
A professora Dulce desenvolve pesquisas na área de Química dos Produtos Naturais e representou no evento a Profa. Dra. Vanderlan Bolzani, que não pode comparecer devido a outros compromissos. Ela destacou a importância de compartilhar com a sociedade o conhecimento produzido na universidade. “Há muitos grupos trabalhando em pesquisas de produtos naturais da rica biodiversidade brasileira para descobrir substâncias com potencial de agentes terapêuticos”, declarou. O Núcleo de Bioensaios, Biossíntese e Ecofisiologia de Produtos Naturais (NuBBE), no IQ/Unesp de Araraquara, desenvolve várias linhas de pesquisas que visam o uso sustentável da biodiversidade, aplicando conceitos da Química Verde que visa promover a saúde e a qualidade de vida, explica a pesquisadora.
Menos de 10% da superfície terrestre no mundo permanecem como paisagens com florestas intactas. “No estado de São Paulo restam cerca de 7% da estrutura vegetal natural de Cerrado e Mata Atlântica em pequenas reservas com bioma fragmentado. Queimar florestas é como queimar uma biblioteca viva. Os produtos da biodiversidade contêm substâncias de alto valor agregado. Precisamos buscar a exploração sustentável da biodiversidade. As pesquisas de produtos naturais estão gerando medicamentos muito importantes”. Destacou também a importância de substâncias com potencial antioxidante para a prevenção de doenças. “De forma sustentável podemos explorar a biodiversidade, por exemplo, desenvolvendo a quimioprevenção com substâncias naturais contra o estresse oxidativo, responsável por inúmeras doenças”, disse.
A pesquisadora também lembrou após a Eco 92 foi reconhecida a soberania nacional sobre a biodiversidade. “O patrimônio genético brasileiro é um bem da União, com legislação que regulamenta o acesso, transporte, pesquisa e exploração”, disse.

Plano de ação
A vereadora Edna Martins agradeceu aos palestrantes e as diretoras da Escola do Legislativo. Ela disse que esta terceira edição da Semana Rodolpho Telarolli vai dar bons frutos para o futuro de Araraquara. “Há um sentimento de urgência de planejamento. Como resultado deste debate, podemos propor a criação de um grupo de trabalho para o poder público agilizar e avançar nas iniciativas de desenvolvimento sustentável junto com ações de educação ambiental, pois a consciência sobre essas questões ainda é pequena no país. Precisamos de um plano de ação em que o Poder Público regule o que é bem público, comum a todos”, disse Edna.

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