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Pelo beijo da musa



Espetáculo que se será apresentado segunda-feira no Teatro Wallace é uma adaptação livre da peça “A morta”, de Oswald de Andrade

Pelo beijo da musa

O grupo teatral Catanza, da Unesp/Araraquara — após brilhante estreia na XXX Semana “Luís Antônio Martinez Corrêa” —, apresenta mais uma vez o espetáculo “Quatro lirismos: da ruína do clássico ao vigor do novo”, livremente adaptado da peça “A morta”, de Oswald de Andrade (1890-1954).O texto, fragmentário, aparenta aos desatentos uma desconexão intencionalmente aleatória;nada tem, porém, de alheio tanto à proposta original quanto à sua impressionante atualidade: sim, o elenco percorreu labirintos não somente para decorá-lo, mas também para pesquisar e, por consequência, conferir autenticidade à realização dessa salada de frutas tropicais que combina verso e drama num fantástico espetáculo. A intenção aleatória é, sim, uma escolha — poesia, portanto. Em seu sentido mais elementar.
A grande questão que forma essa grandiosa alegoria está na atávica disputa entre classicismo e vanguarda — pauta principal da “Querelledesanciens et desmodernes” da França seiscentista, diga-se de passagem —, dramatizada no contexto do Modernismo brasileiro e que essencialmente nos instiga a considerar: seria possível romper o cordão umbilical da tradição? Metalinguagem necessária nestes tempos em que se preza processos, refletindo o ser humano incompleto da atualidade, em detrimento de resultados, que apontariam para utopias. Não teriam aqueles recursos inovadores do autor — o abandono do realismo narrativo, a recusa do ilusionismo cênico, a demolição da quarta parede — se reconfigurado em lugar-comum? se elevado ao cânone? se transformado em tradição?Antipositivismo não é negativismo (com o perdão do joguinho verbal).
Voltemos ao espetáculo.Acompanhamos a jornada que perfaz o Poeta ao mundo dos mortos, em busca do beijo de sua Musa, Beatriz — referência evidente, ainda que satírica, à Divina Comédia, de Dante Alighieri —, perseguida (ou acompanhada?) esta, pela Outra: seu próprio alter-ego,anti-Beatriz, em que se manifestaria aquela grande questão. Mas acontece uma reviravolta ética: não somos nós, apenas, que consideraríamos perpetuar o culto aos mortos — morta, estaria a Musa realmente viva? As sutis referências simbólicas da montagem — no figurino, na maquiagem, na iluminação, na sonoplastia, nos objetos cênicos — não suplantam o poder do texto nem a expressividade do elenco; tampouco são ornamentais: cumprem seu papel nesta bem-sucedida realização. Aos que amam o teatro, recomendo!
(Colaboração:Assis Furtado)

Serviço

“Quatro lirismos: da ruína do clássico ao vigor do novo”
Catanza – Grupo Teatral da Unesp
Drama, juvenil/adulto, 60’
Classificação indicativa: 12 anos
Segunda-feira, 2 de julho de 2018, 19h
Teatro “Wallace Leal Valentin Rodrigues”
Av. Espanha 485
(16) 3322-8833
Entrada franca
Serão recolhidas doações de alimentos não perecíveis para o Lar Capaz

Ficha Técnica
Direção: Bruck Oliver | Elenco: Amanda de Jorge, Domenica Morvillo e Silveira, Guilherme Papa, Gabriel Gimenez, Juliana Melhado, Katarina Romano, Laura Molinari Pacheco, Lorena Rizzato, Mari Gramuglia | Atores: Rafael Piccoli & Ueslei Viana. Dramaturgia: livre adaptação do texto “A morta”, de Oswald de Andrade | Produção: Catanza

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