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Araraquarense Livio Abramo é tema de exposição em São Paulo

Da inquietude à plástica do mundo espiritual Tanto a forma quanto o conteúdo da exposição aliam o rigor do uso da gravura como linguagem com as insurgências e os lirismos, na arte e na política. Não se trata apenas de uma politização da arte, mas de agir como um precursor artístico no Brasil das teses […]

Seja no contexto sociopolítico ou na inserção nas vanguardas modernas, a obra do gravador, ilustrador e desenhista araraquarense Livio Abramo (1903-1992) destaca-se pelo rigor formal, tendo a gravura como a sua autêntica linguagem de expressão.
Passados quase 25 anos da morte do artista, o Instituto Livio Abramo (ILA) apresentou ao público um rico acervo – grande parte pertencente à família – com cerca de 120 obras. Aberta em 7 de dezembro, a mostra ‘Livio Abramo: insurgência e lirismo’ foi reaberta em 5 de janeiro, prosseguindo em cartaz até 12 de março de 2017, na Biblioteca Mário de Andrade (BMA), em São Paulo. A exposição reúne linoleogravuras, xilogravuras, litogravuras, aquarelas, grafites e nanquins, além de matrizes em madeira, matrizes em linóleo, clichês de metal, croquis, estudos e provas do artista, reunindo uma produção de quase 70 anos de trabalho. O panorama com curadoria assinada por Paulo Herkenhoff destaca os territórios estéticos e conceituais do artista, sobretudo, assinalando a sua importância como gravurista.
A exposição assinala o início das atividades do Instituto Livio Abramo (ILA) com a organização e a digitalização do acervo da família pelo Programa Rumos do Itaú Cultural e propicia uma releitura de todo o conjunto da obra do artista, após uma década da última individual de Livio Abramo, realizada no Instituto Tomie Ohtake.
Nesse sentido, Paulo Herkenhoff, que teve contato com Livio Abramo em Assunção (Paraguai), em pleno ano de 1968, e que depois selecionaria obras do artista para diversas exposições, realiza uma curadoria dinâmica e ousada.
Ao lado de originais do acervo do Instituto Livio Abramo (ILA), a mostra inclui ainda empréstimos de trabalhos de coleções de outras importantes instituições brasileiras, como o Museu de Arte do Rio (MAR) e a própria Biblioteca Mário de Andrade (BMA), assim como obras da Fundação Biblioteca Nacional. Obras de José Clemente Orozco, de Louise Bourgeois, de Rossini Perez, de Lasar Segall e de Kathe Kollwitz aparecem no programa como diálogos, convergências e rupturas entre Livio Abramo e outros expoentes de sua geração.
Além de obras físicas, a mostra conta, ainda, com um programa educativo, composto de mesas de debates, de palestras, de cursos de formação e da exibição de documentário inédito, que mostra o processo de trabalho do xilogravurista Rubem Grilo, que usou matrizes de oito obras de Abramo para reimpressões, que farão parte da exposição. Ao lado de Grilo, um dos principais nomes da xilogravura na atualidade, e do curador Paulo Herkenhoff, o documentário intitulado “Livio Abramo: o Profundo Mistério dos Horizontes Inacabados” (11 minutos), produzido pelo Instituto Livio Abramo, inclui depoimentos de Frederico de Morais e Ferreira Gullar.

Da inquietude à plástica
do mundo espiritual
Tanto a forma quanto o conteúdo da exposição aliam o rigor do uso da gravura como linguagem com as insurgências e os lirismos, na arte e na política. Não se trata apenas de uma politização da arte, mas de agir como um precursor artístico no Brasil das teses contidas na filosofia do pensador alemão Walter Benjamin (1892-1940). A arte, como questionamento do presente ao passado, com o poder de incluir os vencidos pela história dominante: operários, ativistas da resistência espanhola, vítimas do fascismo, negros, favelados, paraguaios, os cidadãos anônimos “sem rosto e sem voz”.
Se a série “Frisos”, que retrata a tragédia moderna do homem urbano no “destino” da arquitetura da metrópole, é dedicada à cidade de São Paulo, as religiões afro-brasileiras surgem como contraste, num êxtase – longe de folclorismos – que reivindica uma plástica do mundo espiritual. Como salienta o diretor da Biblioteca Mário de Andrade (BMA), Luiz Armando Bagolin: “A concepção da mostra sobre a importância da obra de Livio Abramo é consoante com a cidade de São Paulo, sua transformação contínua, seu ‘work in progress’. Na abertura, no dia 07 de dezembro, o encontro do curador Paulo Herkenhoff e um convidado desdobra-se numa série de atividades.”
Como uma linguagem de expressão sem grandes atrativos comerciais e baixa margem de lucro, a xilogravura expõe, antes de qualquer corte, a relação com a matéria-prima como prenhe de possibilidades de significantes nas mãos do artista. “Antes de qualquer corte o que se tem na chapa é a absoluta escuridão. O corte pelo artista fere a matéria e instaura a luz, sendo, pois, a própria hipótese do olhar e da arte. Essa visão primal da imagem surgente é o tesouro do xilógrafo e a base de sua ética da linguagem”, conta o curador no texto do programa da exposição.

Sobre Livio Abramo
Livio Abramo não é apenas, com Oswaldo Goeldi, um dos mestres clássicos da moderna gravura brasileira. Devido à sua inquietação, à sua atividade e à sua inovação permanente, ao longo da sua trajetória, ele sempre foi moderno e meticuloso com a sua produção artística. A história da sua carreira é uma expressão do conturbado século XX, em que uma vida de militância política e social, atravessada por uma visão humanista do mundo, conviveu com a consciência aguda das exigências e da necessidade do domínio técnico na exploração das possibilidades da gravura em madeira, a luta por um refinamento artesanal nas texturas e pela virtuosidade da sua expressão artística.
Autodidata em gravura, Livio Abramo também foi ilustrador, desenhista e militante político. Nascido em Araraquara (SP) em 1903, foi muito influenciado pela fase antropofágica de Tarsila do Amaral. Premiado como o melhor gravador nacional na 2ª Bienal Internacional de São Paulo em 1953, deu aulas de xilogravura na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), fundou com Maria Bonomi o Estúdio Gravura em 1960 e foi convidado pelo Itamaraty a integrar em 1962 uma missão cultural no Paraguai, onde fundou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico daquele país. Com a sua capacidade criadora, de forma silenciosa e seguindo a tradição do artista artesão, Livio Abramo buscou concentrar em cada nova etapa da sua longa trajetória os desafios de expressar de forma sintética o sentido do homem na história, com lirismo, força e delicadeza, o que dota as suas gravuras de uma dimensão espiritual.

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