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Perigosas e temidas

Perigosas e temidas

Por Luís Carlos Bedran

 

Vocês que apreciam muito as notícias, reportagens e as fotos do “Getulina Jornal”, não deixam de ter excelente nível cultural e, além disso, são pessoas ligadas a tudo o que acontece no mundo pela internet.

Não é bajulação, mas a pura realidade. Pois não se concebe que não tenham opinião formada sobre quase tudo o que se passa atualmente em nosso país, principalmente nas áreas da economia e da política.

Não há mínima pretensão deste cronista em tentar modificar qualquer modo de pensar. Aliás, até já teve, uma tarefa inútil. Hoje, segue Saramago: “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”. No entanto, também ousa modestamente dar sua opinião, porque não consegue entender um governo que disse que irá diminuir o investimento de recursos nos estudos das Ciências Humanas.

Dentre elas, sem esquecer outras, como a Antropologia ou as Ciências Sociais, que são importantíssimas para pesquisar temas que abrangem o crescimento populacional, a pobreza ou a violência, pode-se afirmar que a mais importante de todas, fundamental mesmo, é o estudo da Filosofia.

Porque ela é a base de tudo, desde nossas convicções sobre o que é possível e imaginável, até prosaicamente sobre nossos comportamentos na vida em sociedade. E isso vem de longe, de há pelo menos uns 2500 anos, das ideias dos filósofos da Grécia antiga que influenciaram toda a civilização ocidental.

E não somente nossa visão de mundo, como também as religiões cristã e judaica. Nos tempos atuais grandes dúvidas surgem constantemente sobre posições éticas de experimentos científicos, entre tantas outras, que devem ser estudadas e bem avaliadas para que a humanidade possa viver sem sobressaltos.

E atrás de toda e qualquer opinião ou posição tomada por alguém, previamente há um fundamento filosófico. Qualquer que seja, política ou até mesmo religiosa. Daí a razão pela qual o conhecimento intelectual, o debate sobre tantos assuntos e divergências de ideias podem nos levar a um entendimento comum, bom para as pessoas e para o País.

Querer tolher tais estudos nas universidades, reduzir recursos para o desenvolvimento de ideias, restringir a esperança da juventude ávida em querer entender o que se passa no País e no mundo, não deixa de ser uma posição tomada a priori, absolutamente discutível, ou seja, filosófica.

São disciplinas consideradas “perigosas”: a Sociologia porque consegue ver o que está escondido, avaliar a aparência e ir a fundo no conteúdo; a Filosofia, então, porque consegue decidir racionalmente uma questão, e, através de um debate dialético, expor pontos de vista que podem melhorar a humanidade.

Claro que nenhum filósofo, por mais esdruxulas que sejam suas ideias, quer destruir o mundo. Pode até achar, como o existencialista Camus — que foi partisan contra a ocupação nazista na França — que só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio.

Talvez muito mais perigosa que a filosofia seja a religião, também da área das humanas, o que já se provou historicamente. Mais ainda a política, considerada a luta pelo poder, que também tem levado a humanidade ao desespero, à miséria, ao caos. E por detrás dessa luta, há um fundamento filosófico que também abrange a psicologia: tentar conhecer as razões pelas quais o homem é o lobo do próprio homem.

Embora sob a alegação de contingenciamento de verbas do MEC, o governo revela um temor infundado. Sob outra forma, está a fazer o mesmo que os governos do PT tentaram fazer, “mutatis mutandis”, ao proporem a regulamentação da mídia, imprensa, meios de comunicação, redes sociais e não conseguiram graças à reação da sociedade.

Governos autoritários não têm interesse em alfabetizar o povo, querem deixá-lo na ignorância para evitar contestações e censuram a imprensa para não serem criticados. Nas democracias deve haver ampla liberdade de manifestação de pensamento para que possamos conhecer o que acontece no País e, sobretudo permitir que o conhecimento adquirido nas universidades da área das humanas não haja restrições.

Não há por que ter medo da Filosofia. Mesmo porque na terra de Macunaíma, sob os trópicos, nas redes ou debaixo dos lençóis, não se consegue ter tanto tempo para refletir sobre a vida. Em toda a nossa história, contam-se nos dedos o número de filósofos, ao contrário dos existentes nos frios países europeus.

E se acaso encontrado uma sumidade nessa área, certamente receberá o Prêmio Nobel da Paz e nosso país ficará famoso como exemplo para todos os outros…

*Sociólogo e advogado

 

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