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O prepotente

O prepotente

Luís Carlos Bedran *
— Você sabe com quem está falando? Essa costuma ser a pergunta típica do grosso e boçal prepotente, aquele que se considera mais igual do que os iguais, como naquele livro-denúncia de George Orwell, “A Revolução dos Bichos”. Ocorreu há pouco com um juiz do Rio de Janeiro intimidando uma mulher, guarda de trânsito que cumpria seu dever e que não deixou de cumpri-lo, sem medo, corajosamente. No entanto parece que hoje essa forma de intimidação já está caindo em desuso, consequência do conhecimento, embora ainda superficial e incipiente, que o cidadão tem de seus direitos, uma conquista do mundo moderno e da democracia.
Conquista essa adquirida não sem duras penas, mas que ainda não conseguiu ser totalmente consolidada, talvez porque não somente ainda falta ao homem ter essa consciência da igualdade para com seus semelhantes, como também pode ser que ela nunca possa ser totalmente concretizada um dia, pois parece que isso faz parte indelével do próprio gênero humano, que tenta — embora nem sempre consiga — desvencilhar-se de suas origens mais primitivas, tal como ocorre no mundo animal onde ainda vige a lei do mais forte, fundamental para a sobrevivência do mais apto, ou, como bem definiu Darwin, na “Origem das Espécies” resultado da luta pela vida, a “struggle for life”.
Assim, embora estejamos aparentemente muito longe dessa primeva luta, ainda é o instinto a força propulsora que move a civilização. E nesse embate, entre civilização e barbárie, entre o racional e o irracional, entre a consciência e o instinto, há de prevalecer a civilização, tem de prevalecer o racional. Caso contrário é o caos.
Mas se algumas pessoas se consideram superiores às outras — e, de fato, às vezes podem até mesmo ser, nalguns aspectos, seres privilegiados pela natureza, pela inteligência ou pela cultura —, isso não quer dizer, em absoluto, que possam abusar dessas condições para levar vantagens pessoais, exigir e impor privilégios sobre os demais. Afinal, vivemos num mundo onde impera uma presunção legal, a de que todos são iguais perante a lei.
E é aí que os privilégios são considerados odiosos pela imensa maioria e é por isso que eles devem ser banidos de qualquer maneira. Entretanto, o curioso é que a manutenção ou a imposição à força ou não dos privilégios, não são exclusivos daqueles que possuem o poder. Mesmo aquele, o mais desgraçado dos mortais, aquele que na Índia antiga era considerado pária, exige também e impõe seus pretensos privilégios. O que prova que não são exclusivos da chamada classe dominante.
Essa, então, usa e o que é pior, abusa do poder. E o princípio da autoridade, que deveria ser acatado por todos em função da própria manutenção da paz social, é usado para levar vantagens. É o medo que tinha um ex-presidente da República, não de sua legítima autoridade, mas da prepotência daquela antiga categoria, hoje extinta, a da menor autoridade, a do inspetor de quarteirão.
Entretanto o prepotente nem sempre parece sê-lo. Essa história de usar a força para exigir de outrem obediência, vantagem pessoal, intimidar o outro, o mais fraco, é próprio daqueles espíritos mais simplórios, porque o esperto é aquele que usa um instrumento mais sutil: o testa de ferro. Pois é este seu apaniguado, que o bajula, é quem se encarrega de praticar o ato sujo. O próprio se esconde, não aparece. É um covarde, não bate de frente.
O exemplo da igualdade deve vir de cima. Deputados e senadores abrindo mão de seus privilégios, podendo ser processados por terem cometido crimes comuns, não os de opinião; delegados de polícia, policiais militares, juízes e promotores, não sendo arbitrários e não se aproveitando das pessoas simples do povo.
Pequenos fatos, até mesmo os mais banais e prosaicos que ocorrem no dia-a-dia e que são objeto de indignação pela maioria dos mortais, situações essas que, no limite, chocam, mas que, em situações de normalidade, passam aos mais desatentos, despercebidas.
A marca da civilização e da democracia está na abolição dos odiosos privilégios e, mais ainda, na contínua fiscalização sobre aqueles que têm a mania de aplicar a toda hora, a todo momento, a lei de Gerson, a de levar vantagem em tudo e sobre todos.
* Sociólogo

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