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O OUTRO LADO DE UM CLAMOR POPULAR

Hoje é sexta-feira Santa; ontem foi quinta e nas quintas-feiras santas sempre vem à memória deste cristão convicto, tristes fatos queaconteceram porque assim estavam escritos e que fatalmente deveriam acontecer.
Havia muito tempo que aquele povo esperava reação dassuas autoridades. Sua paciência estava chegando ao fim. Seus dominadores estavammais voltados para a manutenção e os sabores do poder, dando pouca importânciaaos anseios da população. Debalde inúmeros requerimentos, nenhuma providênciaera tomada. Uma coisa era certa em ambos os lados: logo, logo, viria a “gota d´água”que entornaria o balde.
Aquele Administrador estava sentado em seu gabinete.Seu cargo lhe impunha diversas tarefas, inclusive a de Juiz, e aquele era um dia em queele se dedicava unicamente aos assuntos da Justiça. Mandava prender um, condenaroutro, negava a liberdade, pois para ele todos os que ali vinham eram inimigos da lei ese ali foram conduzidos era porque transgrediram a lei. Implacável!
“- Não! Ele não gosta do povo!”
“– Não! Não gosta porque tem justamente medo do povo,que pode revoltar-se e tomar o seu cargo e quem sabe até proclamar a independência,expulsando os dominadores de seu pais”.
Tremenda barulheira quebrou o silêncio daquele dia queamanhecera tranqüilo; era início do outono e logo pela manhã aquele intrometido arfresco abanava em harmonia com o céu límpido, sem nenhuma nuvem, com o Solreinando soberanamente no firmamento. O barulho atraiu diversos assessores queforam correndo em direção às janelas. Era uma algazarra popular; um vozeriocomposto de palavras ameaçadoras e gritos pedindo Justiça! Vinham com cartazes,velas acesas, balões, brandindo instrumentos agrícolas.
JUSTIÇA!!! Queremos Justiça! Abaixo os dominadores. Asautoridades precisam agir! Queremos vingar os nossos antepassados! Justiça!
Dois guardas conduziam um prisioneiro, empurrados pelagrande massa popular que vinha atrás deles. Um homem, aparentando pouco mais detrinta anos, com a vestes ligeiramente sujas, ar cansado, bastante atordoado,cambaleante, fatigado por tudo o que lhe acontecera desde que lhe fora dada voz deprisão, as humilhações, as ameaças.
“– Cheira a vinho! Está bêbado!
“ – Drogado! Gritou uma velha.
Deveria mesmo estar exalando cheiro de bebidaalcoólica. Na noite anterior à sua prisão organizara uma reunião social, jantando comalguns amigos; beberam bastante vinho, e comeram pouco, apenas algum pão. Sim!Exalava os alcoólicos eflúvios do vinho já azedo.
“– O que querem de mim?” Perguntou o juiz.
“- Queremos Justiça!!!”
Bradaram todos quase em
uníssono.
“– Queremos que as nossas autoridades tomemprovidências para que estas situações não mais se repitam. Chega de opressões, deacidentes, de mortes”!
“– Mas,… o que fez este homem? Indagou o Magistrado.
“– Anda correndo muito por aí junto com seus amigos.Promovem grandes festas onde consomem pães, peixes e muito, mas muito vinho”.
“– Uma vez, num casamento, beberam tanto que o vinhoacabou. Sabe o que ele fez? Fez os convidados tomarem água garantindo que eravinho.”
“– É um mentiroso, um dissimulado! Faz as coisas edepois simplesmente diz que acha que dormiu e não se lembra de nada”.
“ – Além de tudo é um arruaceiro! Gritou um mercador.” –Dia desses fez vandalismos na feira da igreja. Jogou todas as nossas barraquinhas nochão. Agrediu comerciantes, comerciários e até a freguesia, soltou os animais”.
“– Um bêbado! Um drogado! – tornou a repetir a velha.
“– Ele estava numa festa com vários amigos, o Thiagão, oThiaguinho, o Jão, o Lipe, o Pedrão, o Luquinha. Devia ter até mulher; ou você acha queaquela Madalena, e a Martinha, … as ‘irmã’ do Lazinho, não ia estar com eles?
tudo isto?
Respondeu o acusado.
Na realidade, aquele Juiz não via nada de concreto queviesse em desfavor do acusado; eram alegações calorosas, mas, só de um lado; nãohavia nada em sentido contrário; não foi dada àquele homem a oportunidade de dizeruma só palavra em sua defesa. Quando lhe deram a palavra, só respondera: “– Tu odisseste”. Mas lembrou que aquele povo cativo era contra a sua autoridade, pois elerepresentava o poder opressor: O implacável! “- O Povo não gosta de mim; já pediramaté para me mandar embora”, falou consigo mesmo.
“Ora, mas que agradável lembrança”, pensouele. “Estamos na semana da Páscoa e os costumes me permitem soltar prisioneiros naPáscoa, para agradar o povo. Vou escutar o povo; o clamor popular decidirá; há muitoque eles reclamam por providências; e por isso, eu tenho certeza qual será a suapreferência. Assim, eu acalmo o povo, continuo a governar tranqüilo e ainda assimsaio por cima.”
“Povo!!! Eu vos apresento estas duas figuras: quem vocêsquerem que eu condene? (querendo dizer: “poderá ser este o “bode expiatório”)?”
E o “clamor popular”, sentindo a gota d´água entornar obalde, achou que a sua condenação poderia ser a solução para todos os problemas.
condenamos!
“Senhor” – Disse o Juiz ao conduzido. “– O senhor fez
“– É o senhor quem está falando: Tu o disseste” –
CONDENAI-O!!!
CONDENAI-O!!! Porque nós já o
E assim, durante estes últimos quase dois mil anos,muitos “Barrabazes” são soltos enquanto que muitos “Jesuzes” são condenados,…assim,… simplesmente,… em atenção ao “Clamor popular”.

OSVALDO ROMIO ZANIOLO

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