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O julgamento de Sócrates


Luís Carlos Bedran*

No ano de 399, antes do nascimento de Cristo, por uma pequena maioria de atenienses, na “ágora”, a praça pública de Atenas, um sujeito simples, filho de um escultor e de uma parteira, muito inteligente, possuidor de rara cultura, corajoso como soldado e justo como magistrado e, sobretudo, um brilhante filósofo, foi condenado a tomar cicuta, um veneno poderoso.

A acusação de seus inimigos — Meleto, um jovem poeta trágico, Lykon, um retórico e obscuro orador e Anyto, um mercador e político —, fundamentou-se na corrupção da juventude que ele teria praticado com seus ensinamentos, na negação dos deuses da cidade que ele teria pregado e na introdução de novos seres demoníacos.

Em sua defesa Sócrates fez um relato de sua vida — tinha 70 anos — e disse que cumpria a missão que a pitonisa do Oráculo de Delfos lhe impôs quando respondeu à pergunta de Querefonte, seu amigo, que não existia ninguém mais sábio que o filósofo. Então, para realmente confirmar aquela predição ou missão, ele passou a vida a inquirir as pessoas e a buscar o conhecimento.

A acusação de corrupção da juventude era exclusivamente de cunho político. Seus acusadores temiam sua influência que poderia desestabilizar o status quo vigente. Além disso, ele nunca renegou os deuses de Atenas, o sentido de divindade. Entretanto Sócrates, ao invés de se defender, enfrentou-os, dizendo que não abdicaria de sua missão, a de filosofar: “quer me absolvais ou não, não farei outra coisa, nem mesmo que me exponha a morrer mil vezes”. (“Apologia”).

Como disse Claude Mossé, a retaliação de seus acusadores era devido ao “(…) medo que lhes inspira um ‘baixinho feito e tagarela’ que, andando pelas ruas e praças, discute se a autoridade (das opiniões, dos valores éticos e cívicos, dos homens que governam) é legítima e verdadeira, se deve ser aceita e sob que condições pode ou não ser respeitada. Sentem-se ameaçados, temendo que o pensamento os faça parecer injustos, violentos, falsos cumpridores da lei. Temem que a “pólis” raciocine, discuta, pense”.

Segundo as leis da cidade, reconhecido culpado, o próprio acusado poderia escolher a pena, entre o exílio ou o pagamento de uma multa. Sócrates, orgulhosamente, disse que tinha até condições de pagar a multa, mas, pelo que havia sido, soldado, educador, filósofo e magistrado, devia mesmo é ser considerado benemérito e, por isso, viver às expensas de Atenas, como era o costume devido às pessoas assim extremamente consideradas.

Depois dessa corajosa resposta, a assembleia, aí então, por forte maioria, condenou-o à morte. Quanto à pena do exílio, ele também a desconsiderou, pois não se achava culpado de nada. E mesmo quando, no intervalo de 30 dias entre a sentença e a aplicação da pena, seus discípulos tentaram convencê-lo a fugir, Sócrates negou a ajuda de seus amigos, dizendo que ele, como bom ateniense, cumpridor de seus deveres para com a cidade-Estado, jamais poderia deixar de seguir as leis que sempre seguiu e praticava.

Como é que ele poderia fugir, ele que sempre pregou a justiça e o respeito às leis? A fuga seria uma contradição daquilo que ele sempre pregou como filósofo. Até o fim de sua vida, ensinou seus discípulos, com suas palavras e atitude.

Suas últimas palavras foram de estímulo aos que o ouviam, na investigação do conhecimento, e, com sua atitude de tranquilidade perante a morte que se avizinhava, disse a eles que não precisavam temer a morte, argumentando que, como ele nunca morreu, não poderia saber realmente o que era a morte, além do que, se houvesse outro mundo, lá poderia dialogar com as outras pessoas com muita alegria.

Paradoxalmente a Atenas democrática condenou um livre-pensador. Como é que pôde? É o que não se conforma I. F. Stone (“O julgamento de Sócrates”), o qual argumenta que, entre as inúmeras explicações, há a de que Sócrates divergia da maioria dos atenienses com relação a três questões filosóficas básicas:
A primeira, que a natureza humana não era livre, como a da “pólis”, e sim se assemelhava a um rebanho, razão pela qual defendia a monarquia, como um governo de peritos-especialistas; a segunda, que a virtude era sinônima de conhecimento e como este era inatingível à maioria, aos homens comuns, pois eles não conseguiam se autogovernar e, finalmente, a terceira, que praticava e pregava a não-participação na vida política da cidade. Ao contrário de Péricles, que afirmou que “os atenienses consideram o homem que não participa dos negócios públicos, não como alguém que cuida de sua própria vida, mas sim como um inútil”. Em grego, “idiotes”, idiota.

De qualquer forma, quaisquer que foram as razões do julgamento, justo ou injusto para a época, Sócrates, tornou-se, mais do que um homem qualquer vítima da intolerância, um símbolo de grandeza e coragem.

Segundo Julian Marías, Ortega y Gasset chegou a declarar que Sócrates encerra em si a chave da história europeia, chave sem a qual o nosso passado e o nosso presente são um hieróglifo ininteligível e H. Maier afirmou que, para entender a essência íntima da civilização moral moderna, devemos, indubitavelmente, remontar a duas personalidades: Sócrates e Jesus.

*Sociólogo

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