Selecione a página

O ex-covarde

Foi com certo espanto quando, há uns dias atrás, lembrei-me do último texto que publiquei neste querido jornal. Fora em dez de março do corrente ano. De lá para cá passaram-se mais de três meses. Três longos meses sem escrever uma mísera linha sequer. Não burlei a greve literária nem mesmo para anotar recados de […]

Jorge Arruda

Foi com certo espanto quando, há uns dias atrás, lembrei-me do último texto que publiquei neste querido jornal. Fora em dez de março do corrente ano. De lá para cá passaram-se mais de três meses. Três longos meses sem escrever uma mísera linha sequer. Não burlei a greve literária nem mesmo para anotar recados de telefonemas à terceiros. O pior? Não há desculpas bem fundamentadas para essa escassa produção. Ou melhor, para essa produção inexistente. Minto, há uma, e somente uma: A covardia.

Vejam, o que me abateu não fora a boa e velha preguiça, mas sim a comodidade da covardia. Eis o que quero dizer: A exposição pública, seja através de uma palestra, uma entrevista, ou um artigo para um jornal, pressupõe que o interlocutor está disposto a receber as críticas dos ouvintes, ou, no caso, dos
leitores. Pressupõe, igualmente, uma responsabilidade com o conteúdo que está sendo passado adiante, ou, por outra, com a qualidade da informação prestada. E não importa se o número de receptores seja grande ou pequeno, há no ofício de escrever uma obrigação moral com o leitor.

E que não se extraia da assertiva que o escritor possui uma obrigação profissional de ser politicamente correto, ou de escrever somente o que poderá agradar a ideologia do público. A meu ver, um autor não deve se prender ao senso comum para garantir o afago do elogio, e tampouco se resume a um mero massagista de egos ou um animador de final de domingo. A obrigação moral a qual me refiro é exatamente no sentido de não ser um cretino oportunista, algo comum nos dias de hoje.

Explico-me: Na medida em que um jornal concede seu espaço para que uma pessoa possa externar suas ideias, é necessário que esta tenha o mínimo de conhecimento do assunto a qual se mete a dissertar, que ela seja sincera e honesta com seu público (leia-se: livre de manipulações escusas), e que esteja ciente de que ela é inteiramente responsável pelo conteúdo que está sendo divulgado.

Aliás, antes de prosseguir, faço um adendo sobre essa responsabilidade a qual me referi. Há uma certa confusão, atualmente, com o que se chama de “liberdade de expressão” — um assunto muito discutido nas últimas semanas devido ao embate entre um humorista e uma deputada federal (não entrarei em detalhes pois o assunto já fora requentado e revirado por diversas vezes e por diversas pessoas).

O que devemos ter em mente é que a liberdade de expressão é o direito de não sofrer uma prévia censura de suas manifestações. Ou seja: Eu, quando escrevo este texto, não me submeto a nenhum órgão censor que verifica, previamente, o que eu posso ou não escrever. Posso, inclusive, escrever ofensas e propagar parvoíces (o que atestaria uma certa imbecilidade de minha parte).

A confusão é o que acontece depois de externada a tal “expressão”. Ora, da mesma maneira que somos livres para dizer o que bem nos dá na telha, qualquer um que se sinta ofendido pelo conteúdo do ato manifesto tem o direito de recorrer à justiça.

Melhor dizendo: Diferentemente do que alguns idiotas acreditam, a garantia constitucional da liberdade de expressão não exclui a responsabilidade, civil e criminal, por possíveis danos e ofensas. Você poderá até expressá-las sem nenhuma censura, mas o ofendido tem a mesmíssima garantia de exigir a reparação do dano; e tal responsabilização não significa um cerceamento da liberdade de expressão. Significa, simplesmente, que o seu direito violou o direito de terceiros.

Enfim, retorno ao que dizia antes do adendo, até porque não pretendo que este seja um texto de conceitos doutrinários. Discorria sobre a comodidade de não escrever, de simplesmente me abster de qualquer responsabilidade por emitir opiniões públicas. Confesso que este afastamento me garantia, inclusive, uma qualidade de vida melhor, entre parênteses, mentalmente mais saudável. Contudo, deixar de escrever meus textos por uma pretensa senilidade futura é de uma covardia sobrepujante. Portanto, voltarei a tecer meus comentários, mesmo que ninguém os tenha pedido.

E para encerrar, tenho a vaga lembrança de que em meu primeiro texto para este jornal citei um de meus autores prediletos, Nelson Rodrigues. E é exatamente com a sua genialidade que finalizo este texto, que marca, ao menos para mim, uma espécie de recomeço ao ofício.

Em suas memórias, mais especificamente na obra “A Cabra Vadia”, Nelson expõe, logo de início, do porquê, subitamente, ele resolverá escrever compulsivamente sobre política, depois de anos evitando escrever sobre o assunto. Explica que o que lhe afligia era o medo de ser tachado de reacionário pelo establishment esquerdista da época, mas conclui que após todas as tragédias sofridas por ele, esse medo não fazia mais sentido. E, certeiro, finaliza: “Sou um ex-covarde”.

Últimos Vídeos

Carregando...

Charge

Publicidade

Publicidade

Arquivos

Publicidade