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Meu velho amigo

Luís Carlos Bedran


Conheci-o em meados dos anos 60 na capital numa época de inconformismo do pessoal da esquerda contra o governo militar que havia deposto o Jango. Tal como meu outro amigo, o Walter Egon, ele não gostava de se expor publicamente, não só porque era dotado de uma natural timidez, mas, sobretudo para evitar ser tachado de intelectual, como se nesta palavra estivesse ínsito um irremediável e insultuoso opróbrio, até objeto de chacota por parte de pessoas preconceituosas e ignorantes.

Por isso ele vivia como um recluso, entre as quatro paredes daquele pequeno apartamento perto da Avenida Consolação, mas, de certa forma, tranquilo e satisfeito em fazer companhia naquela pequena biblioteca, aos livros de Direito, aos livros velhos adquiridos nos sebos e nas ruas espalhados pelo chão e aos de filosofia que, ao que parece, mais se coadunavam com sua placidez.

Embora tímido, poderia perfeitamente ter frequentado alguns ambientes mais sofisticados, onde livremente podia-se discutir os mais diversos assuntos, mormente os filosóficos, literários ou sócio-políticos, tão em voga em fins do século passado, numa intensa agitação existencial, certamente influenciada pela filosofia sartreana.

No entanto satisfazia-se em trocar ideias com o Walter e comigo mesmo naquele ambiente enfumaçado, por nós mesmos provocado, como se estivéssemos na companhia do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre; do prolífico autor de romances policiais, o belga Georges Simenon; de Conan Doyle, com seu indefectível Sherlock Holmes; do ativista pela paz e grande pensador Bertrand Russel; do revolucionário Che Guevara; do autor de “Huckleberry Finn” e “Tom Sawyer”, o americano Mark Twain e dos também estadunidenses, Hemingway e Arthur Miller.

Mas depois de alguns anos teve de mudar-se para o interior caipira e, por incrível que pareça, ao invés de aproveitar a tranquilidade de uma típica vida bucólica interiorana e assim tentar participar de um círculo menos agitado, num convívio fraterno entre amigos, ao contrário, isolou-se quase que definitivamente, pois não encontrou neles a mínima receptividade, tamanha e intensa era a luta pela vida de todos eles.

Depois de um certo tempo, finalmente acabou sua timidez. Passou a frequentar bares e alguns outros locais públicos, onde a liberdade de expressão corria solta. No entanto, o Estado repressor — nem mesmo Stalin teria imaginado que isso pudesse ocorrer um dia — obrigou-o a se recolher e, novamente, à “huis clos”, como naquela peça antiga de Sartre.

E hoje, apesar de um tanto surrado e marcado por incontáveis pensamentos, politicamente incorreto, tal como um pequeno vulcão, ainda continua ativo. Este cachimbo, meu velho companheiro de longas jornadas…

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