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Meu último dia

Meu último dia

Genê Catanozi

Era seu último dia de vida, mas ele ainda não sabia disso.
Naquela manhã, sentiu vontade de dormir até mais tarde. Estava cansado porque na noite anterior tinha se deitado tarde da noite. Também não havia dormido muito bem. Mas logo abandonou a idéia de ficar um pouco mais na cama e se levantou, pensando na montanha de coisas que precisava fazer no trabalho.
Engoliu o café e saiu falando baixinho um bom dia. Desprezou o beijo da esposa, não notou que os olhos dela ainda guardavam a doçura de mulher apaixonada, mesmo depois de tantos anos de casamento. Não entendia porque ela se queixava da ausência dele e vivia pedindo mais tempo para ficarem juntos. Ele estava conseguindo manter o elevado padrão de vida da família, para ele isso já bastava e ponto final.
Claro que, ele não teve tempo para esquentar o carro e nem sorrir quando o cachorro alegre abanou o rabo. Deu a partida e acelerou. Ligou o rádio, que tocava uma antiga música do Roberto Carlos: “detalhes tão pequenos de nós dois…” Pensou que não tinha mais tempo para curtir detalhes tão pequenos da vida. Anos atrás, gostava de assistir ao programa da jovem guarda da TV Record nas tardes de domingo. Mas isso fazia parte de outra época, quando podia se divertir mais, sem se preocupar com as “responsabilidades”.
Pegou o celular e ligou para sua filha. Sorriu quando soube que seu neto havia dado os primeiros passos. Ficou sério quando a filha lembrou-o de que há tempos ele não aparecia para ver o neto e o convidou para almoçar. Agradeceu o convite, mas respondeu que seria impossível com tanto trabalho a fazer na empresa. Ela insistiu, disse que estava com saudade dele, mas ele foi irredutível, tenho muito que fazer hoje.
Chegando à empresa, mal cumprimentou as pessoas. A sua agenda estava lotada, ele não tinha tempo para conversa fiada.
No que seria sua hora do almoço, pediu para a secretária trazer um lanche e um refrigerante diet. O colesterol estava alto, precisava fazer um check-up, mas isso ficaria para o próximo mês. Começou a comer enquanto lia alguns papéis que usaria na reunião da tarde.
Enquanto relacionava os telefonemas que deveria dar, sentiu um pouco de tontura, a vista escureceu e o coração acelerou. Lembrou-se do médico advertindo-o alguns dias antes, quando tivera os mesmo sintomas, de que estava na hora de fazer um novo exame médico. Mas ele logo concluiu que era um mal estar passageiro, que seria resolvido com um café bem forte e sem açúcar.
Algum tempo depois, saiu para a reunião, entrou no carro, deu a partida e quando ia engatar a marcha, sentiu de novo o mal estar. O ar começou a faltar, a dor foi aumentando, tudo ficou escuro de repente e ao mesmo tempo em que surgiam cenas de um filme que ele conhecia bem. Quadro a quadro ele via a esposa, o neto, a filha e todas as pessoas que ele gostava.
Por que mesmo não tinha ido almoçar com a filha e o neto? O que a esposa tinha dito para ele quando estava saindo de casa esta manhã? A dor no peito continuava mais forte, mas agora outra dor começava: a do arrependimento. Ele já não conseguia saber qual das duas dores era a mais forte, a da coronária ou da sua alma.
Escutou o barulho de alguma coisa quebrando dentro de seu coração, e de seus olhos escorreram lágrimas silenciosas. Queria viver, queria ter mais uma chance, queria voltar para casa e beijar a esposa, abraçar a filha, brincar com o neto. Queria, mas não havia mais tempo. (trechos extraídos do livro O sucesso é ser feliz).

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