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Finados



  Tito Cassoni*   Casualmente estava no dia 2 de novembro, finados, na cidade de São Paulo. Cidade parada pelo feriado. Sem mais opções resolvi visitar o tradicional cemitério da Consolação, situado no mesmo bairro. Esta necrópole foi inaugurada no dia 15 de agosto de 1858, estando, portanto, com 160 anos! Antes, as pessoas importantes […]

 

Tito Cassoni*

 

Casualmente estava no dia 2 de novembro, finados, na cidade de São
Paulo. Cidade parada pelo feriado. Sem mais opções resolvi visitar o
tradicional cemitério da Consolação, situado no mesmo bairro.
Esta necrópole foi inaugurada no dia 15 de agosto de 1858, estando,
portanto, com 160 anos! Antes, as pessoas importantes que morriam
eram enterradas nos interiores das igrejas. Este cemitério foi feito com o
objetivo de garantir a salubridade e evitar epidemias, além de atender a
prosperidade advinda da aristocracia cafeeira e o surgimento de uma rica
burguesia em São Paulo. Está contido numa área de 76.340 m². Tornou-se um logradouro de repouso de mortos que foram ricos e famosos.
O cemitério possui em sua área um ambiente arborizado e tranquilo. Na realidade é um local apropriado para descanso: dos mortos e dos vivos.
Devo confessar que tive uma aula de história. Logo no portal havia um mapa resumido das suas ruas, afixado na parede com alguns túmulos numerados. Em baixo os números com os nomes dos mais importantes moradores do local, divididos em políticos, literatos e empresários. Bastava fotografar o mapa e seguir em busca dos procurados.
Tive várias surpresas, que passo a enumerá-las:
1 – A presença de um mapa elucidativo, colocado na parede frontal do
portal, tornando fácil as buscas. Dividia os mortos mais significativos em
“intelectuais, artistas e personalidades públicas”.

2 – Poucos visitantes, poucas flores, considerando o dia e a importância
do mesmo.
3 – O local é dominado por túmulos suntuosos, ricos para a arquitetura da
época. Visitá-lo, constitui uma verdadeira aula de arte tumular.
4 – A depredação do mesmo por vândalos. Todas as inscrições metálicas
foram roubadas, dificultando suas identificações. É uma prova, inconteste,
da omissão do Estado. Um crime contra a história! Pensei que isso só
ocorresse em Araraquara. A ignorância no Brasil é uma realidade, mas a
ignorância histórica dos nossos dirigentes é um crime de lesa-pátria! Toda
a história dos séculos XIX e XX de São Paulo foi para a lata de lixo. Vai ser
difícil recuperá-la!
5 – Lá se encontra o maior mausoléu da América do Sul. O túmulo da
família Matarazzo, com 9 metros de altura, confeccionado em mármore
de Carrara e bronze italiano.
6 – Encontrei túmulos de pessoas ligadas à nossa região, como Carlos
Leôncio de Magalhães, conhecido por Nhonhô Magalhães, filho de
Carlos Batista Magalhães e casado com Ernestina dos Reis Magalhães,
cafeicultores do século XIX e idealizadores da Estrada de Ferro Araraquara.
Encontrei, também, o jazigo de Bento de Abreu Sampaio Vidal; da Rute
Vilaça Cardoso, casada que foi com o FHC e sua mãe Maria Vilaça Correia,
ex-professora de botânica na Faculdade de Farmácia e Odontologia de
Araraquara.
7 – Vi os túmulos de importantes políticos paulistas como Campos Salles,
Cerqueira César, Bernardino de Campos e seu filho Carlos, Abreu Sodré,
Ademar de Barros, Lucas Nogueira Garcez, Carvalho Pinto, Líbero Badaró,
José Vieira Couto de Magalhães, Washington Luís, Altino Arantes, Jorge
Tibiriça, Mário Zan, Maria Ester Bueno; escritores e artistas como
Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral, Anália Franco, Júlio de Mesquita,
Guiomar Novaes, Ramos de Azevedo, Mário de Andrade, Oswald de
Andrade e a amante do D. Pedro I, a marquesa de Santos.
8 – Trabalhos artísticos de arquitetos famosos como Ramos de Azevedo,
Victor Brecheret, Brizzolara e outros.
9 – O mais florido e frequentado era o túmulo da marquesa de Santos.
Tinha até agradecimento de um devoto: “por uma graça recebida.” Quem
diria! A mulher virou santa. Perguntei a várias pessoas que ali se
encontravam qual o nome da esposa do Pedro I. Ninguém sabia. Concluí
que no Brasil é mais importante ser concubina que esposa. A capela do
cemitério foi financiada por ela (2 contos. Uma fortuna na época).

10 – Conversei com um funcionário do cemitério sobre a depredação.
Respondeu-me que hoje os ricos, para fugirem da insegurança e abandono
do Estado, preferem ser enterrados em locais simples, sem qualquer
construção, como num prado. Um local com um número espetado sobre a
grama. E só. Todo mundo igual. Concluí, também, que finalmente o
socialismo chegou no Brasil. Quem diria que, em nosso país, os ricos
ficariam iguais aos pobres!
11 – Entre os ex-governadores paulistas lá sepultados, senti a falta de
dois. Perguntei ao zelador sobre um deles. Dei-lhe o nome. O funcionário
pensou antes de responder. E afinal afirmou: esse ex-governador não se
encontra no Brasil, mas nos Estados Unidos e ainda não faleceu. Encontra-
se na consolação de Alcatraz, em Nova York. E sem trocadilho, emendou:
Não mereceu consolação. Quanto ao outro, continua vivo, embora seu
jazigo esteja pronto.
12 – Decidi que no próximo dia de finados passarei em outro cemitério
paulistano e até prometo: ou entro e saio como visitante ou entro e fico
como morador!
Todo cemitério bem cuidado com suas identificações e dizeres
conservados é uma aula sucinta e pródiga de história. Temporário para
quem sai e atemporal para quem lá permanece. É uma aula de história e
filosofia. Pensei sobre todas aquelas pessoas, suas importâncias, seus
significados e os nomes que deixaram e o que são agora. Seria a vida uma
ilusão?
E lentamente me afastei do local, cansado pelo passeio didático que fiz,
satisfeito com que aprendi, mas não feliz pela depredação que constatei.
Mas nem por isso deixo de aconselhá-lo aos interessados.

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